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Mato Grosso do Sul

MS atinge menor desigualdade social desde 2016 e inicia entrega de cartões da busca ativa

IBGE escancaram abismo social no Estado e revela como cor, escolaridade e gênero determinam acesso à renda

Publicado em 14/05/2025 11:10 - Semana On

Divulgação Gov MS

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Dentro da busca ativa – iniciativa do Governo de Mato Grosso do Sul de ir de casa em casa atrás das pessoas em situação de vulnerabilidade social – Alice Cano Ferreira foi uma das primeiras a receber o cartão do programa Mais Social, benefício garante que ela terá comida na mesa.

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“Hoje entraram em contato para liberar o cartão. Vai me ajudar bastante. Eu tenho certeza! Já vou fazer minha comprinha para casa, para minha família. Moro no bairro Los Angeles e estou muito feliz pelo meu benefício”, contou.

No mesmo dia em que ela buscou o cartão e foi às compras, na quinta-feira (8), o IBGE divulgava o índice Gini mostrando que em Mato Grosso do Sul a desigualdade social tem diminuído ano a ano e é a 5º menor do País.

O resultado de 0,455 em 2024 é o melhor do Estado desde 2016. O índice de Gini, que vai de 0 a 1, é um termômetro da desigualdade de renda. Quanto mais perto de 0, mais próximo da distribuição ideal. A média nacional é 0,506.

Moradora do bairro Dom Antônio Barbosa, Ana Cláudia Reis da Paixão Mourão também foi surpreendida com a visita da equipe do Mais Social e recebeu o cartão do programa.

“Fui selecionada, me procuraram. Eles me deram muita atenção na minha casa. Eu me surpreendi. Pediram para eu vir aqui trazer a minha documentação e foi muito rápido. Estou agradecendo porque vai me ajudar muito. Não tenho salário nenhum e estou na fila do INSS”.

Desde 17 de março, mais de 2,1 mil visitas da busca ativa foram realizadas nos 79 municípios sul-mato-grossenses, como parte da iniciativa de erradicar a extrema pobreza.

De posse de um mapeamento feito pela Sead (Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos) em parceria com a Segem/Segov (Secretaria Executiva de Gestão Estratégica e Municipalismo), os técnicos estão visitando as casas das pessoas em situação de vulnerabilidade. Os funcionários estão identificados com colete azul, crachá e usam tablet para fazer o pré-cadastro.

O Mais Social é um programa estruturante que promove a segurança alimentar e, por meio da transversalidade das políticas públicas estaduais, oferece oportunidades de estudo, qualificação, emprego e renda e qualidade de vida para as famílias.

O beneficiário recebe um auxílio financeiro mensal no valor de R$ 450 que pode ser usado para compra de alimentos, gás de cozinha e produtos de limpeza e de higiene. É proibida a aquisição de bebida alcoólica e produtos à base de tabaco.

De acordo com a secretária de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos, Patrícia Cozzolino, a intenção é erradicar a extrema pobreza ainda neste ano.

“Estamos usando o georreferenciamento para encontrar as pessoas que estavam invisíveis para o poder público, desprovidos de programas sociais sejam do estado ou do governo federal. Esse trabalho continua. Queremos ainda em 2025 poder dizer que Mato Grosso do Sul será o 1º estado do País a erradicar a extrema pobreza”, afirmou a titular da Sead.

Já a superintendente do programa Mais Social, Andressa Farias, explicou que os novos beneficiários estão recebendo o cartão já “abastecido” com os primeiros R$ 450. “Eles precisam apenas desbloquear e já podem fazer as compras do mês”, finalizou.

Mas, a desigualdade não dá trégua

Num país onde a desigualdade social é um traço estrutural desde o período colonial, o Mato Grosso do Sul oferece um retrato cristalino da persistência desse flagelo. Segundo dados da Pnad Contínua 2024, divulgados pelo IBGE, a diferença de rendimento entre ricos e pobres no Estado atinge proporções que deveriam provocar indignação: os 10% mais ricos recebem, em média, R$ 12.738 por mês, enquanto os 10% mais pobres sobrevivem com R$ 644 — uma diferença de quase 20 vezes.

O rendimento médio per capita no Estado foi de R$ 2.105, mas esse número médio esconde desigualdades brutais. No topo da pirâmide, o 1% mais rico ostenta um rendimento médio de R$ 26.480. Já o rendimento per capita dos 10% mais ricos ficou em R$ 4.914, contra apenas R$ 356 entre os 10% mais pobres. Em termos absolutos, a massa salarial mensal do Mato Grosso do Sul soma R$ 6 bilhões, mas a partilha dessa riqueza é flagrantemente desigual.

Desigualdades que atravessam cor, gênero e educação

A face mais cruel da desigualdade aparece quando o recorte étnico-racial é analisado. Em Mato Grosso do Sul, pessoas autodeclaradas brancas recebem, em média, R$ 4.169, quase 1,5 vez mais do que pessoas pardas, cuja média é de R$ 2.788. Entre as pessoas pretas, o rendimento médio é de R$ 3.088 — um dos melhores do país, mas ainda distante dos rendimentos das pessoas brancas.

Essa diferença reflete um padrão histórico de exclusão racial no Brasil, onde o racismo estrutural limita o acesso de pretos e pardos a empregos formais, cargos de liderança e melhores salários. Como explica a socióloga Angela Alonso, da USP, “o racismo à brasileira opera de forma dissimulada, mas seus efeitos são profundos e persistentes, reproduzindo desigualdades no mercado de trabalho, na educação e no acesso à renda”.

O fator educacional também escancara a desigualdade: em Mato Grosso do Sul, pessoas com ensino superior completo recebem, em média, R$ 6.167, valor quase 3,4 vezes superior ao rendimento de pessoas sem instrução formal (R$ 1.782). Ainda assim, o Estado ocupa apenas a 8ª posição no ranking nacional de rendimentos para quem possui diploma universitário, com o Distrito Federal (R$ 8.658) liderando o ranking.

A desigualdade de gênero segue a mesma lógica estrutural. Homens sul-mato-grossenses recebem, em média, R$ 3.719, enquanto as mulheres recebem R$ 2.973 — uma diferença de 25%. Embora essa disparidade seja um pouco inferior à média nacional, ainda reflete a permanência do chamado “teto de vidro”, que limita a ascensão profissional feminina, conforme analisado por pesquisadores como José Eustáquio Diniz Alves (Ensp/Fiocruz).

Um Brasil que se repete: a desigualdade como marca histórica

A desigualdade de renda no Brasil tem raízes profundas, que remontam à formação de uma sociedade fundada sobre o trabalho escravizado, a concentração fundiária e a exclusão social. No livro Os Donos do Poder (1958), Raymundo Faoro já denunciava a persistência de uma estrutura patrimonialista, onde as elites se apropriam do Estado para perpetuar seus privilégios.

Essa lógica se manifesta até hoje em regiões como o Centro-Oeste, onde a concentração de terras e a hegemonia do agronegócio moldam uma economia excludente, que beneficia poucos e precariza muitos. O Mato Grosso do Sul, com sua base econômica ancorada no agronegócio e no setor de serviços de baixa remuneração, é um exemplo vivo dessa realidade.

No cenário global, o Brasil figura entre os países com maior desigualdade de renda, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU (2023). O coeficiente de Gini — índice que mede a desigualdade — mantém-se consistentemente alto, refletindo a ineficácia das políticas públicas de redistribuição e inclusão social em longo prazo.

A necessidade de uma agenda redistributiva

O abismo social revelado pelos números do IBGE impõe ao país — e aos Estados — o desafio de repensar suas políticas de desenvolvimento. Como aponta Thomas Piketty em Capital e Ideologia (2019), “a desigualdade não é uma fatalidade econômica, mas uma construção política e ideológica”. No caso brasileiro, enfrentar essa construção demanda ações integradas: tributação progressiva, ampliação do acesso à educação de qualidade, políticas ativas de combate ao racismo estrutural e promoção da igualdade de gênero.

No âmbito estadual, Mato Grosso do Sul precisa enfrentar sua dependência de setores econômicos concentradores de renda, diversificar sua economia e investir em políticas sociais robustas. Sem isso, a disparidade entre ricos e pobres seguirá sendo não apenas uma estatística alarmante, mas um entrave ao próprio desenvolvimento.

Os dados do IBGE mostram que a desigualdade em Mato Grosso do Sul é, antes de tudo, um reflexo das escolhas que o Brasil tem feito — ou deixado de fazer — em termos de política pública. Tratar a desigualdade como inevitável é ignorar que ela resulta de uma estrutura econômica, política e social moldada historicamente para concentrar riqueza e poder.

O desafio, portanto, é romper com essa lógica. Isso exige mais do que narrativas: requer ação política decidida e compromisso com a justiça social. Do contrário, seguiremos empilhando estatísticas que denunciam uma realidade conhecida, mas não enfrentada.

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