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Mato Grosso do Sul
Acidentes sobrecarregam hospitais públicos e geram custos milionários
Publicado em 02/06/2025 2:24 - Semana On
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Em pleno “Maio Amarelo”, mês internacional de conscientização para a segurança no trânsito, Mato Grosso do Sul atingiu a marca trágica de 30 mortes, o maior número de vítimas fatais para esse período desde 2022. A escalada da violência viária escancara não apenas a fragilidade das políticas públicas de prevenção, como também coloca em xeque a capacidade do sistema de saúde em absorver os impactos dessa epidemia cotidiana. O custo humano e financeiro explode nos corredores hospitalares, revelando uma crise estrutural ignorada pelas autoridades e invisibilizada no debate público.
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Segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), o Estado já contabiliza 114 mortes no trânsito só em 2025, o segundo pior índice em seis anos. Ainda que os veículos estejam mais modernos e as campanhas educativas mais frequentes, a principal causa segue sendo a mesma: o comportamento humano. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) aponta ultrapassagens perigosas, uso de celular ao volante, ausência de cinto de segurança e embriaguez como fatores predominantes. Entre os dias 1º e 25 de maio, a PRF registrou 97 acidentes e 14 mortes apenas nas rodovias federais que cruzam o Estado.
No plano das políticas públicas, o cenário é alarmante. O Hospital Adventista do Pênfigo, em Campo Grande, revela que gasta R$ 3 milhões anuais apenas com traumas viários que exigem cirurgia. São cerca de 160 pacientes por mês, com custo médio de R$ 1.520 por procedimento – valor custeado por contratos públicos. Já a Santa Casa, principal hospital de referência do Estado, operando com um déficit de R$ 13 milhões mensais, chegou a bloquear a entrada de novos pacientes por falta de insumos cirúrgicos. A sobrecarga tem dia e hora: finais de semana, feriados e festas, quando os traumas de trânsito dominam o pronto-socorro.
A ausência de um cálculo consolidado sobre os custos públicos do atendimento aos acidentados é outro sintoma da negligência institucional. A Secretaria Estadual de Saúde admitiu que não realiza esse tipo de estimativa, enquanto o município de Campo Grande sequer respondeu à demanda por dados. Em contraste, a cidade de São Paulo gastou R$ 35 milhões em 2024 com acidentes de trânsito, e o SUS, R$ 314 milhões em todo o país – um valor subestimado, segundo especialistas.
A desconexão entre campanhas educativas pontuais e a realidade nas estradas mostra que o problema está enraizado em uma cultura de impunidade e irresponsabilidade social. Como lembra o filósofo Paul Virilio, “quando você inventa o navio, também inventa o naufrágio”. O automóvel, símbolo de liberdade e progresso, transformou-se em arma letal diante da falência ética no seu uso e na frágil regulação pública sobre ele.
O Atlas da Violência, publicado em 2024, aponta um aumento de 20,9% nas mortes por acidentes de trânsito em Mato Grosso do Sul entre 2018 e 2023. O dado revela uma tendência ascendente que reflete não apenas falhas individuais, mas um colapso mais amplo de infraestrutura, fiscalização e priorização da vida nas políticas públicas.
“O trânsito é um espelho da sociedade”, afirma Renato Campestrini, especialista em segurança viária do Observatório Nacional de Segurança Viária. “Quando vemos esses números, estamos vendo também a falência de um pacto coletivo por civilidade.”
No coração dessa tragédia estão vidas interrompidas e famílias devastadas, mas também um Estado que empurra para hospitais lotados e mal financiados a fatura de sua omissão. Transformar essa realidade exige muito mais do que slogans publicitários em maio: requer investimento constante, fiscalização efetiva, educação com base cidadã e, acima de tudo, uma política pública comprometida com a dignidade humana e o direito à vida.
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