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Mato Grosso do Sul
Taxa de 12,6 por 100 mil mulheres é alarmante e aponta aumento da violência de gênero
Publicado em 11/06/2025 11:13 - Semana On
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No ano de 2024, ao menos 1.859 mulheres foram assassinadas no Brasil por serem mulheres — vítimas de feminicídio, o crime que expressa em sua forma mais extrema o ódio, o controle e a desumanização de gênero. Em meio a esse cenário devastador, Mato Grosso do Sul emerge com um dado estarrecedor: é o estado com a maior taxa de feminicídios do país, com 12,6 casos por 100 mil mulheres, segundo o levantamento do Lesfem (Laboratório de Estudos de Feminicídios).
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A estatística, medida proporcionalmente à população feminina de cada estado, evidencia um problema estrutural que vai além da crônica policial: revela a falência de políticas públicas de prevenção, acolhimento e combate à violência de gênero. O dado mais trágico é que a cada 5 dias, uma mulher é assassinada no estado, em geral por companheiros ou ex-companheiros, dentro de suas casas — o lugar que deveria ser o mais seguro.
Violência cotidiana, rostos reais
Dois casos recentes chocaram a opinião pública em Mato Grosso do Sul. Em Campo Grande, no dia 26 de maio, Vanessa Eugênia e sua filha, a bebê de 10 meses Sophie Eugênia, foram mortas brutalmente — mais uma vida adulta interrompida, mais uma infância destruída. Em Corumbá, na sexta-feira 6 de junho, Eliane Guanes morreu após ter o corpo queimado, num dos métodos mais cruéis de execução usados por feminicidas.
Conforme dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), 35 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024 no estado, sendo 13 casos confirmados entre janeiro e maio. Desses, 11 ocorreram em Campo Grande e os demais no interior, evidenciando que a violência não tem fronteiras geográficas.
Armas brancas e o terror íntimo
A pesquisa do Lesfem aponta que os feminicidas continuam recorrendo majoritariamente a armas brancas — facas, canivetes e similares —, usadas em 774 casos de feminicídio consumado em 2024. As armas de fogo aparecem como segunda ferramenta de morte, utilizadas em 391 assassinatos.
O perfil do feminicida segue o mesmo: homens que conhecem intimamente as vítimas. A violência, nesse caso, não é surpresa. Ela é o desfecho de um processo de controle, humilhação, ameaças, agressões físicas e isolamento que, muitas vezes, se estende por meses ou anos. Em 2.286 casos, as tentativas de feminicídio não chegaram a matar — mas deixaram marcas físicas, psíquicas e sociais profundas.
Além disso, sábados e domingos seguem como os dias mais letais para as mulheres. São os momentos em que, paradoxalmente, há mais tempo doméstico, mais convivência, mais conflitos e, tragicamente, mais assassinatos. Esse dado desafia as políticas públicas a repensar o formato de atuação do Estado: é na intimidade e na repetição da rotina que os monstros se escondem.
A persistência da impunidade e o desmonte da rede de proteção
A taxa de feminicídio em Mato Grosso do Sul não é apenas uma cifra — é um sinal de alerta. Revela que, apesar dos avanços legais, como a Lei Maria da Penha (2006) e a tipificação do feminicídio no Código Penal (Lei nº 13.104/2015), o Estado ainda falha em proteger as mulheres. A rede de acolhimento está fragilizada: faltam casas-abrigo, atendimento psicológico especializado, delegacias com estrutura para agir preventivamente e, sobretudo, ações integradas entre justiça, saúde e assistência social.
A filósofa Judith Butler já alertava que a violência de gênero é um reflexo das formas de “desumanização permitidas socialmente”, ou seja, quando a sociedade naturaliza que certas vidas podem ser descartadas. Em seu livro Quadros de Guerra, ela reforça: “A vida que não é reconhecida como vivível é aquela que se torna matável”. No caso das mulheres sul-mato-grossenses, os dados indicam que muitas seguem invisíveis — até serem mortas.
A urgência de um pacto civilizatório
Não se trata de um problema regional, mas de um colapso nacional da proteção à mulher. Quando estados como Mato Grosso do Sul (12,6), Mato Grosso (11,6) e Rondônia (11,3) aparecem no topo do ranking, está em jogo também a relação entre cultura patriarcal, fronteiras de exploração, tráfico, desigualdade social e negligência estatal. São áreas historicamente marcadas por economias extrativistas, migração forçada, alta rotatividade populacional e baixa presença do Estado.
Essa combinação explosiva produz um ambiente fértil para a violência contra a mulher. E ela se expressa no corpo das vítimas. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, quase 70% dos feminicídios ocorrem na residência da mulher. É, portanto, no espaço privado — e naturalizado como doméstico — que se comete o crime mais político de todos: o assassinato por gênero.
Não é tragédia, é política
Como já disse a socióloga Débora Diniz, pesquisadora da ANIS – Instituto de Bioética: “A violência contra a mulher não é um surto individual, mas uma epidemia estrutural. Não é tragédia — é política pública falha.”
Combater o feminicídio não exige apenas mais viaturas ou penas mais duras — exige uma transformação cultural, institucional e ética. É necessário educar, proteger, intervir cedo e responsabilizar com rigor. A impunidade reforça a lógica da dominação.
O lugar de liderança que Mato Grosso do Sul ocupa neste ranking não é motivo de destaque — é de vergonha. Os números revelam uma sociedade que, ao falhar com suas mulheres, falha com seus próprios princípios de civilidade e justiça. O feminicídio é a ponta do iceberg de um sistema que ainda naturaliza o controle, o silenciamento e a morte das mulheres.
Não há democracia plena enquanto mulheres seguem sendo assassinadas em silêncio, nos cômodos da casa, nos becos das cidades, nas madrugadas de domingo. Enquanto houver uma mulher morta por ser mulher, toda a sociedade estará em dívida com a própria humanidade.
Principais ferramentas de proteção à mulher em MS
Estão localizadas nos seguintes municípios:
Caso haja deszelo ou má conduta por parte da polícia:
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