02/03/2024 - Edição 525

Mato Grosso do Sul

Jornalista canadense, antropóloga e engenheiro florestal são agredidos em área de conflito entre fazendeiros e indígenas em Iguatemi

DPU acompanha caso: “Uma situação gravíssima e que reflete a violência a que estão submetidos os povos indígenas em Mato Grosso do Sul”

Publicado em 24/11/2023 9:50 - José Câmara (G1MS) – Edição Semana On

Divulgação

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O fotojornalista canadense Renaud Philippe, a cineasta e antropóloga Ana Carolina Porto e o engenheiro florestal Renato Farac Galata denunciaram terem sido vítimas de uma série de agressões causadas por um grupo de homens, alguns deles encapuzados, em uma área de conflito entre indígenas e fazendeiros, em Iguatemi (MS), na quarta-feira (22).

O caso só veio à tona na quinta-feira (23), após o grupo relatar as agressões sofridas nas redes sociais. O trio agredido é acompanhado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

O trio estava em Mato Grosso do Sul para produzir um documentário sobre o conflito entre indígenas e produtores rurais na região.

Segundo o Boletim de Ocorrência que detalha as agressões, durante a tarde de quarta, eles participavam da Assembleia da Aty Guasu – reunião entre lideranças dos povos indígenas de todo Brasil, realizada em Caarapó (MS), – quando souberam de um suposto conflito na Comunidade Pyllitokoe, em Iguatemi.

O trio decidiu ir até lá e, antes de chegarem ao local, a equipe foi surpreendida por um grupo de cerca de 30 homens armados com faca e pistolas. “O que aconteceu foi que umas trinta pessoas, a maioria com algo na cabeça, vieram até nós com camionetes e armas. Eles simplesmente bateram em nós e levaram tudo, minha câmera, passaporte, celular, tudo”, comentou o fotojornalista em vídeo.

“Um dos agressores cortou o cabelo com uma faca e outros lhe deram chutes nas costas e costelas. A vítima [fotojornalista canadense] aponta que neste momento um dos agressores pegou o celular e agressores passaram a procurar em suas coisas na agenda por indícios que acredita que o trio tinha relação com os grupos indígenas locais, ao fim do que os agressores pegaram os equipamentos das vítimas e foram embora”, descreve o Boletim de Ocorrência quanto ao depoimento do estrangeiro.

Ana Carolina, que é esposa de Renaud, disse ter sido xingada e agredida fisicamente.

“O grupo tentou sair do local, foram impedidos de sair, a vítima [ANA CAROLINA] e seu esposo Renaud Philippe, que e é canadense, foram agredidos que ambos foram jogados no chão e levaram chutes, socos. Ela sofreu violência verbal, que os agressores a chamaram de vadia e vagabunda”, detalha o boletim de ocorrência.

Além das agressões e dos xingamentos, os suspeitos teriam roubado todos os equipamentos do casal. O prejuízo financeiro é de mais de 10 mil dólares, segundo as vítimas.

Indígenas da região de Iguatemi afirmam que o local não é seguro por causa das disputas fundiárias.

O boletim indica que após terem sido agredidos e roubados, o trio foi liberado pelos suspeitos. Ana Carolina, Renaud e Renato seguiram para Amambai (MS), cidade a 130 km de Iguatemi, onde registraram o ataque à polícia.

Em nota, a Polícia Federal informou que acompanha o caso, diz ter feito diligências em locais próximos à aldeia e instaurado uma Notícia de Crime em Verificação (NCV). A Polícia Civil também apura o caso.

Ana Carolina e Renaud afirmam ter passado por uma equipe de polícia do Departamento de Operações da Fronteira (DOF) antes de chegar ao local da disputa entre indígenas e fazendeiros.

O Governo de Mato Grosso do Sul confirmou que o trio foi abordado pelos policias. Veja nota na íntegra abaixo.

“A Polícia Militar não recebeu, através do seu canal de contato com a população (190), nenhuma solicitação de apoio de jornalista na região de Iguatemi. Uma equipe do DOF (Departamento de Operações de Fronteira) chegou a abordar os profissionais que gravaram um vídeo denunciando agressão, mas não foi informada dos fatos durante a abordagem. Além disso, os mesmos registraram um Boletim de Ocorrência na Delegacia da Polícia Civil em Amambai, porém não relataram nenhum fato em desfavor tanto do DOF quanto da PM, apenas informando que haviam sido abordados no percurso, fato que será devidamente apurado”, disse o governo do estado.

Defensoria Pública acompanha o caso

A Defensoria Pública da União (DPU) acompanha de perto o caso. A defensora pública federal Daniele Osório esteve junto ao trio agredido no momento que eles prestaram queixa à polícia.

“Uma situação gravíssima e que reflete a violência a que estão submetidos os povos indígenas em Mato Grosso do Sul. O fotojornalista e a cineasta tiveram também seus equipamentos roubados pelas pessoas que os agrediram”, detalhou a defensora Daniele Osório.

Em nota, a DPU também esclareceu que o caso foi encaminhado à Polícia Federal de Naviraí (MS), “tendo e vista que o fato ocorreu em contexto de disputa de terras envolvendo comunidades indígenas da região de Iguatemi e em razão deste conflito”.

A Defensoria também informou que “havia encaminhado ofício à Delegacia de Amambai, solicitando diligências para verificar denúncias sobre agressões à comunidade indígena Guarani-Kaiowá”.

“A DPU havia encaminhado ofício à Delegacia de Amambai, solicitando diligências para verificar denúncias recebidas pela instituição sobre agressões à comunidade indígena Guarani Kaiowá. […] Na noite do mesmo dia 22, a Polícia Federal de Naviraí e a Força Nacional efetuaram diligências nessa região e efetuaram a prisão em flagrante de um produtor rural por encontrarem munição em sua residência”, detalha a nota da DPU.


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