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Mato Grosso do Sul
Tropa de Choque avançou com tratores sobre área reivindicada como terra indígena; líder Valdelice Veron está entre os feridos
Publicado em 19/10/2025 10:48 - Semana On
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Ao menos 11 indígenas da etnia Guarani e Kaiowá, entre eles a líder Valdelice Veron, ficaram feridos após ação violenta da Tropa de Choque da Polícia Militar do Mato Grosso do Sul, na manhã da última sexta-feira (17), na fazenda Ipuitã, área em processo de retomada indígena na Terra Indígena Guyraroká, município de Caarapó. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), os disparos de balas de borracha ocorreram durante uma ofensiva policial que escoltava tratores sobre a área reivindicada pela comunidade.
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A operação foi justificada pela PM como parte da “restauração da ordem pública”, mas vídeos gravados pela própria comunidade mostram viaturas avançando sobre os indígenas e o uso intensivo de bombas de gás e armamentos não letais. Valdelice Veron foi atingida no peito e na barriga, mas permaneceu na área após atendimento no local. Outras três mulheres, um adolescente de 14 anos e duas gestantes ficaram feridos — cinco deles intoxicados por gás lacrimogêneo.
A ofensiva aconteceu no contexto da Operação Campo Seguro, deflagrada após um boletim de ocorrência registrado por funcionários da fazenda, que alegaram impedimento de acesso à propriedade. A Polícia Militar afirma ter apreendido duas armas com os indígenas e diz ter atuado “de forma técnica, legal e proporcional”.
A comunidade nega qualquer tipo de ataque armado e afirma que estava bloqueando, de forma pacífica, uma estrada vicinal desde a quinta-feira (16) em protesto contra o avanço de sete tratores usados para a pulverização de agrotóxicos na região. O bloqueio, segundo os indígenas, buscava impedir que novos produtos químicos fossem despejados sobre as casas, escola e a Casa de Reza. “A vida do nosso povo está em jogo. Não vamos mais tomar chuva de veneno calados”, disse um membro da comunidade, sob anonimato por motivos de segurança.
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A terra que é, mas não é
A terra onde os confrontos ocorrem foi declarada como pertencente aos Guarani e Kaiowá em 2009. Em 2011, a Fundação Nacional do Índio (Funai) delimitou oficialmente a Terra Indígena Guyraroká em 11.401 hectares. Porém, em 2016, o Supremo Tribunal Federal suspendeu o procedimento administrativo, após decisão da Segunda Turma, relatada pelo ministro Gilmar Mendes, que questionou o marco temporal. Desde então, o processo está parado no STF.
Enquanto isso, cerca de 200 indígenas vivem confinados em apenas 50 hectares, em situação que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) descreveu, em 2019, como “sem condições mínimas de dignidade”. A CIDH emitiu medida cautelar ainda vigente, obrigando o Estado brasileiro a garantir a vida e a integridade dos povos da Guyraroká. Nada foi feito.
Envenenados
Desde 2018, os Guarani e Kaiowá denunciam pulverizações constantes sobre suas casas, plantações e escola. Em maio de 2019, seis crianças e adolescentes precisaram de atendimento médico após intoxicação com calcário e agrotóxicos na Fazenda Remanso, vizinha à escola indígena. Em 2024, Erileide Guarani Kaiowá, líder da Aty Guasu, denunciou os ataques como “químicos” durante sessão da ONU em Genebra.
“O cheiro é insuportável, um horror. Infelizmente isso se normalizou. Só que, diferente do capim-amargoso, nós somos seres humanos”, declarou Erileide em 30 de outubro de 2024. A fala remete ao termo ofensivo usado contra os indígenas — comparando-os à planta resistente a venenos que só se elimina “na enxada”.
A Defensoria Pública da União (DPU) e o Ministério Público Federal (MPF) ajuizaram ações para investigar os despejos aéreos e terrestres de agrotóxicos sobre as aldeias. Em julho de 2025, operação do Ibama com a Força Nacional apreendeu 202 kg de agrotóxicos contrabandeados do Paraguai, escondidos em depósitos clandestinos dentro da fazenda Ipuitã, já reconhecida como terra indígena.
De promessas à traição
Após os primeiros ataques em setembro, representantes do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e da Funai foram à região e prometeram mediar um acordo para interromper as pulverizações. O governo chegou a propor a criação de uma “área de amortecimento” — alternativa rejeitada pelos indígenas.
“Quando não aceitamos, simplesmente nos abandonaram”, afirmou um indígena. Desde então, a retomada vive sob monitoramento diário por drones, presença militar e risco constante de despejo sem ordem judicial.
O MPI afirma que acompanha o caso e que acionou órgãos competentes, mas o cenário permanece o mesmo: conflito, impunidade e desproteção institucional.
Um retrato da crise antes da COP30
A poucos meses da Conferência do Clima da ONU (COP30), que será sediada pelo Brasil, a situação vivida pelos Guarani e Kaiowá escancara o abismo entre o discurso ambiental do governo Lula e a realidade nos territórios indígenas.
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) afirma que 104 processos de demarcação de terras indígenas aguardam decisão do Executivo. Destes, 37 dependem do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e 67 da assinatura direta do presidente.
Enquanto isso, os povos originários, que há séculos protegem a biodiversidade do Cerrado e do Pantanal, enfrentam tiros, agrotóxicos e descaso institucional.
Caso Junior Concianza: violência que se repete
A escalada da violência atinge também outras comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul. No dia 16, um dia antes da operação em Guyraroká, o jovem Guarani e Kaiowá Junior Concianza Severino, de 24 anos, foi morto por policiais militares na aldeia Panambizinho, em Dourados.
Diagnosticado como Pessoa com Deficiência Psicossocial (PcD), Junior teria se assustado com a presença do Samu e da polícia. Sua mãe, Fineida Concianza, presenciou toda a ação:
“Ele não estava em surto. Estava com medo. Deram um tiro na barriga, depois outro no ombro. Caiu morto nos meus pés”, relatou ao site Campo Grande News. A PM alegou “uso progressivo da força” e disse que ele tentou tomar a arma de um policial. Um processo administrativo foi aberto.
A terra fala, mas ninguém escuta
A situação dos Guarani e Kaiowá em Guyraroká resume o paradoxo histórico da política indigenista no Brasil: um Estado que reconhece, mas não protege; que promete, mas não cumpre. Um país que será palco de discursos ambientais em 2025, mas permite que povos originários vivam sob ataques diários — com bala, gás e veneno.
Enquanto o STF não julga, o Executivo não assina e as instituições se omitem, a retomada segue sendo o único antídoto possível ao veneno.
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