25/04/2024 - Edição 540

Mato Grosso do Sul

Golpistas insistem em passar vergonha no Mato Grosso do Sul

Na contramão da democracia, “terraplanistas” da política são comandados por médica, ex-prefeito, empresário e pecuaristas, aponta a Sejusp: deputados bolsonaristas também apoiam desrespeito às urnas

Publicado em 17/11/2022 8:07 - Com informações do Correio do Estadfo e Campo Grande News – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Relatório da Sejusp (Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul) e enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal) identificou 7 pessoas suspeitas de liderarem as manifestações contra o resultado das eleições presidenciais no Estado. Também foram identificados veículos utilizados nos protestos.

A apuração foi feita pela Sisp (Superintendência de Inteligência de Segurança Pública da Polícia Civil). O dossiê relata que centenas de pessoas se reuniram em frente à sede do CMO (Comando Militar do Oeste), na Avenida Duque de Caxias, em Campo Grande, pedindo “intervenção federal”, ou seja: um golpe militar contra o resultados das eleições.

Foram constatados nas manifestações alguns veículos de possíveis organizadores locais e entre eles os principais eram: um caminhão de som tipo trio elétrico e um caminhão guindaste usado para hastear a bandeira brasileira. No canteiro da via foram identificados 151 veículos.

Além de relacionar os veículos, a Polícia Civil apontou o envolvimento de pelo menos 7 pessoas como líderes das manifestações, traçando o perfil de cada um, mas sem detalhar a função na organização dos atos.

Entre eles está a médica Sirlei Faustino Ratier, que foi candidata a deputada federal pelo PP nas eleições deste ano e não foi eleita. Ela também é fundadora e coordenadora do movimento intitulado “QG voluntários do Bolsonaro”. Procurada pela reportagem, a médica confirmou que participa e apoia o movimento em frente ao CMO, mas negou ser a organizadora.

“Esse é um movimento do povo, não tem organizador ou líder. Concordo em gênero número e grau com o movimento, o povo tem o direito de se manifestar pacificamente, mas não sou organizadora de nada”, argumentou.

Na lista de organizadores da Polícia Civil, consta ainda o ex-prefeito de Costa Rica Waldeli dos Santos Rosa (MDB). Recentemente, áudios do político circularam através do Whatsapp convocando apoiadores para manter as manifestações em rodovias e fechar o comércio da cidade em protesto ao resultado da eleição.

À época, Waldeli afirmou que os áudios foram descontextualizados. Sobre a citação de seu nome como um dos organizadores dos atos pró-Bolsonaro, o ex-prefeito negou que tenha praticado algo irregular. “Algo irregular que tenho praticado. Não tenho conhecimento. Não houve comprovação da minha participação em fechar rodovia. Até porque em Costa Rica não houve fechamento de rodovia”, alegou.

A ex-servidora comissionada da Câmara Municipal de Campo Grande, Juliana Gaioso, que concorreu como deputada federal na eleição deste ano pelo PRTB, também não eleita, consta na lista de liderança dos atos.

“Eu não sou liderança dos movimentos. A minha participação nos atos se dá como jornalista fazendo a cobertura dos eventos para a produção de um documentário. Me coloco a disposição para qualquer esclarecimento e continuarei desempenhando o meu direito constitucional de exercer o jornalismo”, disse Juliana.

A lista ainda identificou como lideranças os pecuaristas Rene Miranda Alves e Renato Nascimento Oliveira, conhecido como Renato Merem (ex-presidente do Movimento Nacional dos Produtores -MNP); o agricultor Germano Francisco Bellan e o empresário Júlio Augusto Gomes Nunes.

ACICG também apoia golpistas

Em uma nota, a ACICG (Associação Comercial e Industrial de Campo Grande) Mato Grosso do Sul afirmou que apoia as manifestações contra o resultado das eleições. Ainda expressa uma preocupação com medidas impostas pelo poder judiciário que atacam a “liberdade de expressão, pensamento e de reunião”.

“Direitos devem ser assegurados pelas instituições representantes dos três poderes e das forças armadas e não oprimidas por elas”, diz nota.

A Associação fala que as manifestações pacíficas, publicações assinadas, inclusive por meio de meios eletrônicos, não podem ser censurados ou cerceados. “Acreditamos que a atuação dos representantes eleitos do Poder Legislativo é importante para garantir o retorno à normalidade democrática, defendendo a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e a liberdade de exercício de atividade remunerada, garantindo seu compromisso com o estado democrático de direito”, afirma ACICG.

Em Dourados

No início do mês, o MPF (Ministério Público Federal) foi à Justiça contra três líderes de movimentos golpistas promovidos em Dourados, desde o 2º turno das eleições. Os processados são Douglas Utida, dono de um restaurante na cidade, Rosane Elizete Pederiva, que comanda do CTG (Centro de Tradições Gaúchas), e Alexandre Saad Lorensini, dono de incorporadora que comercializa imóveis de luxo e da Fertipol Adubos, loja de produtos agropecuários.

De acordo com o MPF, as denúncias têm como base o artigo 286 do Código Penal, crime de “incitar, publicamente, animosidade entre as Forças Armadas contra os poderes constitucionais, as instituições civis ou a sociedade” e “são resultado de trabalho intenso da Polícia Federal para identificação das pessoas que, de algum modo, vêm subsidiando as manifestações”.

Conforme a acusação, a PF apurou, por exemplo, que em Dourados, estas três pessoas atuam como incitadoras e/ou financiadoras da manifestação que se instalou em frente à 4ª Brigada de Cavalaria Mecanizada. Estes líderes, ainda de acordo com a investigação da Polícia Federal, reivindicam “a atuação das Forças Armadas para desrespeitar os resultados das eleições ocorridas em 30 de outubro”.

De acordo com o MPF, “o proprietário do restaurante financia o movimento ilegal fornecendo alimentação a centenas de pessoas que encontram-se acampadas” em frente à unidade militar. Já o empresário do ramo agropecuário teria enviado 50 carretes de sua propriedade para o local, enquanto a responsável pelo CTG cedeu estrutura próxima ao quarte “para fins logísticos e de manutenção do movimento”.

“Para além do exercício da liberdade de expressão, os denunciados incentivam atos golpistas e que incitam às Forças Armadas a agirem contra o resultado das eleições legitimamente reconhecido como válidos pelo Tribunal Superior Eleitoral”, alega a procuradoria nas denúncias.

O MPF quer que os Douglas e Rosane paguem indenização por danos morais coletivos de R$ 200 mil e Alexandre Saad, de R$ 400 mil. Pede ainda o bloqueio das contas do dono de restaurante no Instagram, afirmando que “uma delas vem sendo utilizada com fins criminosos”.

Por meio da assessoria de imprensa, o MPF informou que junto com a PF continua o trabalho de identificação das lideranças nas manifestações.

Deputados golpistas

No rol dos deputados eleitos pela urna, mas que colocam a segurança dos aparelhos em questionamento, o deputado federal, Rodolfo Nogueira (PL), conhecido como Gordinho do Bolsonaro, afirmou que está à disposição do partido caso o pedido de anulação das eleições protocolado pelo PL seja aceito. Ele é o segundo parlamentar eleito por MS que coloca o resultado das eleições em dúvida.

O também deputado federal Luiz Ovando incentiva as manifestações antidemocráticas e se diz a favor do voto impresso. Ao contrário do companheiro de Parlamento, Nogueira não respondeu quando foi questionado se acredita na segurança das urnas e se é favor do voto em cédulas de papel. O deputado eleito apenas disse que o PL contratou um grupo composto de diversos técnicos, inclusive com engenheiros eletrônicos, para realizar uma auditoria das urnas de forma independente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).


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