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Mato Grosso do Sul

Golpistas em MS

Tenente Portela e general Laércio Virgílio são investigados pela PF

Publicado em 27/11/2024 9:17 - Semana On

Divulgação Fotos: Campo Grande News e O Estado

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O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, tornou público um inquérito de quase 900 páginas da Polícia Federal (PF) que investiga a tentativa de golpe de Estado e a abolição violenta do Estado Democrático de Direito no Brasil. Entre os suspeitos de envolvimento, destaca-se Aparecido Andrade Portela, conhecido como Tenente Portela (PL), suplente da senadora Tereza Cristina (PP) e presidente estadual do Partido Liberal (PL) em Mato Grosso do Sul.

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De acordo com a investigação, Portela teve um papel de destaque nos episódios que culminaram nos ataques às sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, e manteve contatos frequentes com figuras próximas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). As evidências indicam que ele atuou como intermediário entre o governo Bolsonaro e financiadores de manifestações antidemocráticas no estado.

Mensagens interceptadas pela PF revelam diálogos cifrados entre Portela e Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. Em uma conversa do dia 26 de dezembro de 2022, Portela utiliza o termo “churrasco” como código para se referir ao golpe.

No diálogo, Portela pressiona Cid: “O pessoal que colaborou com a carne está me cobrando se vai ser feito mesmo o churrasco.” A resposta de Cid reforça a continuidade do plano: “Vai sim. Ponto de honra. Nada está acabado ainda da nossa parte.”

Segundo o inquérito, esses trechos indicam que os interlocutores mantinham a esperança de concretizar o plano golpista, que vinha sendo articulado desde o fim do segundo turno das eleições presidenciais de 2022.

A relação de Portela com Bolsonaro remonta aos anos 1970 e continuou próxima ao longo do governo do ex-presidente. Registros obtidos pela PF apontam que Portela realizou pelo menos 13 visitas ao Palácio do Alvorada em dezembro de 2022. Esses encontros, segundo os investigadores, podem ter servido para alinhar estratégias com o então presidente e outros apoiadores sobre as ações antidemocráticas.

A investigação destaca Portela como um elo crucial no financiamento das manifestações que culminaram nos ataques às sedes dos Três Poderes em Brasília. A PF aponta que os envolvidos acreditavam que essas ações desencadeariam uma resposta das Forças Armadas para efetivar um golpe de Estado.

Conforme detalhado no inquérito, Portela demonstrava preocupação crescente com as suspeitas públicas de sua participação. Em uma mensagem de janeiro de 2023, ele desabafa: “Pessoal está em cima de mim aqui, infelizmente vou ter que devolver a parte desse pessoal, minha vida está um inferno.” A frase sugere sua tentativa de se desvincular das ações devido à pressão e à visibilidade que o caso ganhou nas redes sociais.

Após as mensagens de Portela sobre os questionamentos nas redes sociais, Mauro Cid sugere o uso de aplicativos como o Signal para continuar as comunicações. A recomendação reflete, segundo a PF, uma preocupação dos envolvidos em evitar a interceptação das mensagens.

PF revela pressão de general reformado para golpe

Mensagens enviadas pelo general de brigada reformado Laércio Virgílio, de 69 anos, que pressionou o então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, a aderir a um plano de intervenção militar após a eleição de Lula. O inquérito, cuja quebra de sigilo foi autorizada ontem (26), aponta detalhes da atuação de Virgílio, suspeito de integrar uma “ala militar” golpista.

Virgílio, natural de Adamantina (SP) e residente em Campo Grande (MS), utilizou mensagens privadas enviadas pelo WhatsApp para incitar Freire Gomes e outros oficiais a se posicionarem contra o resultado das eleições presidenciais de 2022. O general reformado apelou a uma relação de confiança construída durante o serviço militar, utilizando termos como “Forças Subterrâneas” e “Kid Preto” para sugerir acesso privilegiado a informações não oficiais.

Segundo as investigações, as mensagens de Virgílio indicam uma tentativa persistente de persuadir Freire Gomes a liderar uma intervenção. Em tom provocativo, ele insinuava que a postura do comandante seria crucial para o sucesso do movimento golpista. O general reformado chegou a afirmar que “militares da ativa”, incluindo oficiais de alta patente, apoiavam o ex-presidente Jair Bolsonaro e estavam inclinados a uma ruptura institucional. Ele também destacava a “coesão” da Marinha e o suposto apoio de tropas mais jovens.

Conforme registrado no inquérito, Virgílio intensificou as pressões com ameaças veladas e apelos à moralidade e à lealdade do comandante. Em uma mensagem revelada pela PF, o general reformado questiona a coragem de Freire Gomes:

“Ou você toma uma decisão ou pede pra sair, é uma questão de ‘Foro íntimo’ seu. Conheço seu caráter, seu profissionalismo, mas você vai amargar essa mácula na sua reputação e passar para a História como o ‘Covarde traidor da pátria’?”.

A abordagem, classificada como um ultimato, visava colocar Freire Gomes contra a parede, utilizando uma retórica que evocava patriotismo e acusava de traição aqueles que não aderissem ao movimento.

As mensagens de Virgílio também revelam sinais de divisão interna nas Forças Armadas. Enquanto ele sugeria apoio de generais de divisão e militares mais jovens, as investigações indicam que a liderança do Exército resistiu à pressão. O então comandante Freire Gomes teria mantido sua posição de respeito à ordem constitucional, mesmo diante da insistência de Virgílio.

O inquérito da Operação Tempus Veritatis, conduzido pela PF, busca mapear os integrantes e as estratégias da chamada “ala militar” golpista. Virgílio, cuja residência foi alvo de buscas em fevereiro deste ano, é investigado por incitação ao crime e outros atos que ferem o Estado Democrático de Direito.

A quebra de sigilo do inquérito ocorre em meio a investigações ampliadas sobre as tentativas de golpe e a participação de militares no movimento que culminou nos ataques às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Especialistas apontam que o caso de Virgílio ilustra um esforço deliberado de membros da reserva militar para envolver as Forças Armadas em um plano antidemocrático.

A pressão sobre Freire Gomes e a tentativa de manipular divisões internas nas Forças Armadas refletem um contexto político marcado pela polarização e pela retórica de ruptura. Para analistas, a postura institucional das Forças Armadas diante dessas investidas será fundamental para preservar a estabilidade democrática no país.


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