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Mato Grosso do Sul

Fogo destruiu 90 mil campos de futebol no Pantanal nos últimos 40 anos

Queimadas atingiram 30 milhões de hectares no país em 2024

Publicado em 24/06/2025 12:02 - Semana On

Divulgação Marcelo Camargo - Abr

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O Pantanal, maior planície alagável do planeta, atravessa uma das piores crises ambientais de sua história recente. Entre 1985 e 2024, o bioma foi o mais afetado pelo fogo em todo o Brasil: 62% de seu território — o equivalente a 9,3 milhões de hectares — foi devastado pelas chamas, segundo o Relatório Anual do Fogo, do MapBiomas. Em termos práticos, isso significa uma área correspondente a 90 mil campos de futebol reduzidos a cinzas.

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O dado, por si só, é alarmante. Mas torna-se ainda mais dramático ao revelar que 93% da área queimada corresponde à vegetação nativa, pilar fundamental para a manutenção do equilíbrio ecológico local. O Pantanal também lidera em outro dado preocupante: 19,6% das áreas queimadas no bioma são extensões gigantescas, superiores a 100 mil hectares — uma proporção que não encontra paralelo em nenhum outro bioma brasileiro.

É verdade que o fogo sempre fez parte do ciclo natural do Pantanal, que alterna períodos de cheia e seca. Contudo, as mudanças climáticas, associadas à ação humana, vêm intensificando as queimadas em proporções inéditas, conforme alertam pesquisadores.

“Quando o campo alagado seca, ele também fica suscetível ao fogo e pega muito fogo. Por isso que temos grandes extensões atingidas. As áreas de pastagem correspondem a apenas 4% da área total queimada. Ou seja, é a vegetação nativa que está sendo destruída, e isso é extremamente preocupante”, explica Eduardo Reis Rosa, coordenador de mapeamento do Pantanal no MapBiomas.

O problema, segundo ele, não é apenas a frequência, mas também a reincidência das queimadas. Cerca de 72% da área afetada pelo fogo já queimou duas vezes ou mais nos últimos 40 anos, comprometendo seriamente a capacidade de regeneração da vegetação e, consequentemente, a sobrevivência da fauna local, que inclui espécies emblemáticas como a onça-pintada, a arara-azul e o cervo-do-pantanal.

“Hoje, um dos grandes desafios no bioma é fazer com que essas áreas consigam se regenerar. E isso só será possível se o ser humano atuar com ações efetivas em campo”, alerta Eduardo.

A escalada das queimadas: 2024 foi o pior ano desde 1985

Os dados de 2024 são particularmente chocantes. Segundo o MapBiomas, a área queimada no Pantanal aumentou 157% em relação ao ano anterior, muito acima da média histórica de 862 mil hectares queimados por ano.

O epicentro dessa tragédia ambiental tem nome e sobrenome: Corumbá, no Mato Grosso do Sul, é o município que mais registrou área queimada no Brasil nos últimos 40 anos, com 3,8 milhões de hectares devastados. O próprio estado de Mato Grosso do Sul ocupa a oitava posição no ranking nacional de áreas mais queimadas desde 1985, somando impressionantes 10 milhões de hectares destruídos pelo fogo.

Esse avanço descontrolado das chamas não é uniforme, mas segue um padrão bem definido: os incêndios se concentram entre agosto e outubro, período marcado pela seca extrema, altas temperaturas e, cada vez mais, pela escassez de chuvas — fenômeno agravado pelos efeitos da crise climática global.

O fogo que apaga o equilíbrio

A situação do Pantanal não é um episódio isolado. Ela está inserida num contexto global de emergência climática, que afeta diretamente biomas sensíveis e interdependentes. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o aumento da temperatura média global, combinado à degradação ambiental provocada pela ação humana, eleva de forma exponencial a frequência e a intensidade de eventos extremos, como incêndios florestais, secas prolongadas e enchentes severas.

No caso específico do Pantanal, a equação é cruel: menos água, mais fogo; mais fogo, menos biodiversidade; menos biodiversidade, mais desequilíbrio. O resultado é um ciclo vicioso que ameaça não apenas a fauna e flora locais, mas também as comunidades ribeirinhas, os povos tradicionais e as atividades econômicas sustentáveis, como o turismo ecológico e a pesca.

Soluções existem — mas exigem urgência

Especialistas são unânimes ao afirmar que a regeneração do Pantanal só será possível mediante ações coordenadas e imediatas, que incluem:

– Reforço na fiscalização ambiental, com combate efetivo às queimadas criminosas;

– Investimento em brigadas permanentes de incêndio, especialmente durante o período seco;

– Criação de políticas públicas de recuperação ambiental, com incentivo à restauração de áreas degradadas;

– Fortalecimento da ciência e do monitoramento ambiental, através de parcerias entre governos, universidades e organizações não governamentais.

“Sem uma resposta contundente, corremos o risco de assistir, em poucos anos, à transformação do Pantanal de maior planície alagável do mundo para uma vasta savana carbonizada”, adverte o ecólogo Carlos Eduardo Scaramuzza, ex-diretor de Conservação do WWF-Brasil, em declarações feitas ao jornal El País em 2020 — quando o bioma já enfrentava um dos piores incêndios de sua história recente.

O Pantanal está em chamas — literal e metaforicamente. O fogo que consome suas florestas, seus campos e sua biodiversidade também lança uma centelha incômoda sobre as escolhas que a sociedade brasileira e o mundo precisam fazer, urgentemente, para enfrentar a crise climática. Ignorar os sinais já não é mais uma opção.

Queimadas atingiram 30 milhões de hectares no país em 2024

O ano de 2024 registrou 30 milhões de hectares do território nacional atingidos por queimadas. Essa foi a segunda maior extensão que o fogo alcançou nos últimos 40 anos, ficando 62% acima da média para o período entre 1985 e 2024, como aponta o Mapbiomas.

No último ano, 72% da área queimada no Brasil foram de vegetação nativa. A cobertura florestal foi a mais atingida, com 7,7 milhões de hectares consumidos pelo fogo, o que representa um aumento de 287% em relação à média das últimas quatro décadas.

Amazônia

De acordo com os estudos, a Amazônia foi o bioma mais afetado em 2024. Foram 15,6 milhões de hectares queimados, o maior volume afetado no bioma em toda a série histórica. A área corresponde a mais da metade (52%) do que foi consumido pelo fogo em todo o país.

Além de ter sido o epicentro das áreas queimadas no país, superando em 117% a média dos últimos 40 anos, houve uma mudança qualitativa no tipo de vegetação afetada.

As áreas florestais foram, pela primeira vez, as mais afetadas, representando 43% do total atingido.

Foram 6,7 milhões de hectares de florestas queimadas e 5,2 milhões de hectares de pastagens. Segundo os pesquisadores, historicamente, áreas já convertidas em pasto eram as mais atingidas devido a prática do manejo de fogo para limpeza dos locais antes do plantio de pastagem.

Conforme o coordenador de mapeamento da Amazônia do MapBiomas, Felipe Martenexen, a região foi muito afetada pelo fenômeno El Niño, em 2023 e 2024, deixando o bioma mais seco e suscetível ao fogo, mas como na vegetação nativa é muito baixa a ocorrência de fogo natural, foi necessária a ação humana para que os incêndios tivessem início.

“A gente acredita que tenha muito do manejo não adequado das pastagens, quando o fogo acaba escapando e ocorrem os incêndios florestais”, explica.

Mata Atlântica

A Mata Atlântica também registrou recorde na área queimada em 2024, ultrapassando em 261% a média histórica. O bioma teve 1,2 milhão de hectares afetado pelo fogo e concentra quatro dos dez municípios com maior proporção de área queimada: Barrinha, Dumont, Pontal e Pontes Gestal.

Embora as áreas transformadas pela ação humana tenham sido as mais atingidas pelo fogo no ano passado, houve um crescimento da cobertura natural queimada em relação aos últimos 20 anos.

“Quando ocorrem, os incêndios acabam trazendo grandes impactos aos escassos remanescentes florestais dentro do bioma”, afirma Natalia Crusco, da equipe da Mata Atlântica do MapBiomas

Cerrado, Caatinga e Pampa

O fogo no Cerrado, no último ano, representou 35% de todo o território brasileiro queimado. Foram 10,6 milhões de hectares, o que representa um crescimento de 10% em relação à média histórica de 9,6 milhões de hectares ao ano.

Em 2024, houve uma redução da área queimada na Caatinga de 16%, com 404 mil hectares atingidos pelo fogo, quando nos últimos 40 anos, a área média era de 480 mil hectares.

No Pampa, o fogo atingiu uma área levemente maior que em 2023, somando 7,9 mil hectares, mas bem abaixo da média histórica de 15,3 mil hectares atingidos ao ano, o que representa uma redução de 48% em comparação ao período analisado.

Na avaliação dos pesquisadores, os dados traçam o mais completo retrato da ação do fogo em todo o território nacional e expõem alguns padrões da ocorrência das queimadas e dos incêndios.

“O relatório permite apoiar o planejamento de medidas preventivas e direcionar de forma mais eficaz os esforços de combate aos incêndios”, conclui Ane Alencar, diretora de Ciências do IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo.

MS e ONU iniciam planejamento para receber mais de 130 países em debates da COP15

Equipes da ONU (Organização das Nações Unidas) e do MMA (Ministério do Meio Ambiente) realizam no sábado (18) em Campo Grande visitas técnicas para planejar a COP15 das Espécies Migratórias – a Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres.

O evento acontecerá em março de 2026 na capital sul-mato-grossense, com o planejamento ocorrendo desde já para os debates que serão realizados com a presença de representantes de mais de 130 países na cidade, reunindo cientistas, povos originários, comunidades tradicionais e a sociedade civil como um todo.

Durante a COP15 em Campo Grande serão debatidos os desafios urgentes de conservação que acometem as milhares de espécies de animais silvestres que cruzam fronteiras internacionais. Nesse grupo estão desde antílopes a peixes, baleias a elefantes, morcegos a pássaros e até borboletas.

As espécies migratórias atravessam grandes distâncias e ecossistemas, desempenhando papel crucial na manutenção da biodiversidade e do equilíbrio ecológico, são indicadores de saúde ambiental e essenciais para o funcionamento de seus habitats.

Integram a equipe da CMS (Convenção sobre Espécies Migratórias da ONU): María José Ortiz Noguera (Legal Officer and Head of Conference Services), Tine Lindberg-Roncari (Conference Services) e Nader Ibrahim (Conference Services). Pelo Ministério do Meio Ambiente participam Camila Neves Soares Olivereira, coordenadora geral, e Rodrigo Marcos da Costa Braga, Analista Ambiental.

As equipes estiveram reunidas com o secretário-adjunto da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Artur Falcette, e com a coordenadora de Meio Ambiente e Recursos Hídricos da pasta, Ana Trevelin, para fazer o alinhamento final, encaminhamentos institucionais, definição sobre a comunicação do evento e para tratar da confecção de materiais e da organização em geral.

“É uma oportunidade muito importante para Mato Grosso do Sul. Teremos todos os holofotes voltados novamente ao nosso Estado, para que a gente possa não só demonstrar o que a estamos fazendo do ponto de vista das políticas de desenvolvimento do Meio Ambiente, mas também como atuamos e podemos atuar na captação de recurso para ampliação de programas de referência que o Estado, tem como os programas de pagamento por serviços ambientais”, pontuou Falcette.

A Semadesc é o ponto focal do Governo de Mato Grosso do Sul para a organização da COP15 Espécies Migratórias e, desde novembro de 2024, quando a Campo Grande ainda era candidata a sediar a Convenção, vem participando de reuniões de alinhamento com o MMA e a ONU, com objetivo de identificar demandas, locais apropriados para receber os delegados e atividades que devem integrar os espaços conhecidos como Zona Azul e Zona Verde.

O anúncio de Campo Grande como sede da Convenção aconteceu em final de março. “Foi uma articulação conjunta do Governo do Estado com o Ministério do Meio Ambiente, que indicou o Mato Grosso do Sul para fazer a recepção do evento baseado nas políticas ambientais já estabelecidas em nosso Estado”, informou na época o titular da Semadesc, Jaime Verruck.

Previsto para entre os dias 23 a 29 de março de 2026, em dois locais já pré-definidos. A Blue Zone (Zona Azul), onde os delegados dos países se reúnem para desenvolver a agenda oficial da Convenção, será no espaço de eventos Expo Bosque do Shopping Bosque dos Ipês. Já a Green Zone (Zona Verde), que concentra exposições, atividades culturais, praça de alimentação e outros atrativos, será na Vila Morena, área anexa ao Parque das Nações Indígenas nos altos da avenida Afonso Pena.

A COP14 Espécies Migratórias ocorreu em Samarcanda, cidade do Uzbequistão, em fevereiro de 2024. A expectativa é de que o evento de 2026 traga a Campo Grande um público estimado entre 4 a 5 mil pessoas. O Governo de Mato Grosso do Sul está mobilizado, através de diferentes órgãos, para oferecer a estrutura necessária e construir agendas culturais e turísticas que serão disponibilizadas aos visitantes.

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