17/07/2024 - Edição 550

Mato Grosso do Sul

Focos de incêndios: Pantanal já tem o pior junho de toda série histórica do Inpe

Investigação do MPMS identifica sete pontos de origem dos incêndios na região

Publicado em 13/06/2024 9:06 - José Câmara (G1MS), Semana On – Edição Semana On

Divulgação Gov MS

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Só nos primeiros 12 dias deste mês, o Pantanal já registrou o maior número de focos de incêndios para um mês de junho de toda a série histórica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), iniciada em 1998.

De 1º de junho até quarta-feira (12), 733 focos de queimadas foram registrados em todo o bioma, que no Brasil fica no Mato Grosso do Sul e no Mato Grosso.

Os dados são do Programa de BDQueimadas, do Inpe, que usa satélites de referência para mapear os focos de incêndio no bioma.

Se comparados os dados de todos os meses de junho desde 1998, o ano de 2024 é o pior. Em segundo, está junho de 2005 quando foram 435 focos. Se comparados os dados de 2024 e 2005, o aumento neste ano é de 77%.

Nem em 2020, quando incêndios consumiram 26% do bioma, foram registrados tantos focos de incêndio como em junho de 2024. Na comparação com 2020, quando foram 406 focos em todo o mês de junho, o aumento de focos de queimada já é de 90% neste ano.

Segundo o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lasa-UFRJ), até maio deste ano, 332 mil hectares do bioma foram consumidos pelas chamas. O Pantanal tem 16 milhões de hectares.

A extensão destruída entre janeiro e maio superou em 39% o registrado no mesmo período de 2020, o pior ano da série histórica até então. Desde janeiro de 2024, uma área duas vezes maior que o tamanho da cidade de São Paulo já queimou no Pantanal, conforme o Lasa-UFRJ.

Neste ano, a temporada das chamas, que começaria em julho, chegou mais cedo e com força. Em MS e no MT, os focos de incêndio nos seis primeiros meses de 2024 aumentaram 1127% se comparado ao mesmo período de 2023.

– 2024: 1632 focos de incêndio entre 1º de janeiro e 12 de junho;

– 2023: 133 focos de incêndio entre 1º de janeiro e 12 de junho.

Seca e incêndios

Para especialistas, a escalada do fogo em 2024 caminha para um cenário semelhante ao de 2020, até então o pior ano para o Pantanal desde o fim da década de 1990. Um estudo realizado por 30 pesquisadores de órgãos públicos, universidades e ONGs estimou que, naquele ano, ao menos, 17 milhões de animais vertebrados morreram em consequência direta das queimadas no Pantanal.

O representante da ONG SOS Pantanal, o biólogo Gustavo Figueirôa, vê com muita preocupação o aumento das chamas e o início de um período mais seco no bioma.

“Vemos estes incêndios se alastrando de forma muito rápida, ganhando uma força grande e a tendência é só piorar daqui para frente. Acho que esse é o sinal para que os órgãos públicos ajam em conjunto, cooperem para atuar quanto antes, não esperar a situação sair completamente fora de controle para tentarem atacar só na remediação”, pontua Figueirôa.

O especialista em conservação da WWF-Brasil, Osvaldo Barassi Gajardo, lembra que 2024 começou de forma atípica. Em janeiro, a região da Serra do Amolar – santuário da biodiversidade no Pantanal – já enfrentava o fogo.

Para o especialista da WWF-Brasil, os fenômenos climáticos como El Niño e La Niña contribuíram negativamente para a ampliação do período de seca, que consequentemente maximiza a temporada de queimadas no Pantanal.

“Estamos numa situação de mudanças climáticas, demonstrando alterações nos ciclos, no clima. Em terrenos mais secos, os efeitos do El Niño trazem impactos de baixa nas chuvas, no regime de chuva, baixa nos rios, e começa até um cenário que prevê uma sequência. Então, este ano, já no início, já começávamos pensando e falando que o Pantanal ia vivenciar uma situação complexa”.

“Quando conversamos com pessoas que estão na região do Pantanal, pesquisadores, especialistas, pessoas de ONGs, muitos já reforçam a questão de que este ano pode ser até mais crítico que 2020. No início do ano, o nível do rio Paraguai já demonstrava baixa, um cenário pouco favorável”, detalha Gajardo.

O biólogo da SOS Pantanal acompanha as queimadas no bioma há anos. Para o pesquisador, além de uma atenção imediata da União e governos estaduais, o apelo se estende aos governos internacionais.

“Existem mecanismos para pedir esse tipo de ajuda internacional. Se o poder público não tem os equipamentos, os recursos necessários, que eles peçam ajuda quanto antes, que não esperem a situação sair completamente fora de controle para correr atrás do prejuízo”, disse Gustavo Figueirôa.

Para o especialista da WWF-Brasil, além de uma resposta mais ágil aos incêndios, o trabalho de combate deve seguir de forma integrada. “Integração dos diferentes órgãos municipais, estaduais, brigadas voluntárias, comunitárias, de governos, todos juntos, integrados e com um bom planejamento. Isso pode responder em um atendimento rápido aos eventos, um combate imediato antes que a situação se agrave”.

Falta de chuva derruba nível do rio Paraguai

Outra preocupação é com a seca na região. Em Corumbá, uma das principais cidades do Pantanal sul-mato-grossense, praticamente não chove há mais de 50 dias, de acordo com meteorologistas da região. Com os incêndios florestais e a baixa umidade do ar, uma densa fumaça se concentra sobre a cidade.

Segundo levantamentos do Serviço Geológico do Brasil (SGB), o baixo nível do rio Paraguai, principal bacia do pantanal, já é recorde.

Em Ladário – cidade vizinha à Corumbá – o nível tem registrado quedas ou estabilidade na medição há cerca de um mês. O órgão aponta que, para este período, a média histórica do nível do rio em Ladário era de 3,85 metros.

Na última sexta (7), no entanto, a régua de medição do rio Paraguai em Ladário marcava 1,38 cm. Ou seja, 2 metros e 47 cm abaixo do esperado.

Investigação do MPMS Identifica Sete Pontos de Origem dos incêndios na região

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) identificou sete pontos iniciais onde podem ter começado os focos de incêndio no Pantanal, que ocorrem há cerca de um mês. A investigação visa descobrir as causas dos incêndios florestais que aconteceram entre os dias 10 de maio e 10 de junho de 2024, em uma área de aproximadamente 12.387,24 hectares.

De acordo com o MPMS, a investigação busca esclarecer as origens dos incêndios, identificar os responsáveis, verificar se ocorreram em propriedades privadas e, caso necessário, responsabilizar os envolvidos.

A análise remota de regressão das cicatrizes de incêndios permitiu identificar sete pontos de ignição inicial, encontrados em seis imóveis rurais e uma área sem cadastro no Cadastro Ambiental Rural (CAR). No total, os incêndios atingiram cerca de vinte propriedades rurais no Pantanal sul-mato-grossense.

Durante esse período de queimadas, o Estado decretou emergência ambiental, o que levou o Núcleo de Geotecnologias (Nugeo) do MPMS a iniciar as investigações. A identificação e monitoramento dos incêndios realizados pelo Nugeo fazem parte das ações do Programa “Pantanal em Alerta”, que auxilia nas estratégias de prevenção, responsabilização e educação ambiental.

Trabalho Preventivo e Ações em Campo

O MPMS enfatiza a importância do trabalho preventivo nas propriedades e locais onde os incêndios podem ter começado. Segundo o Promotor de Justiça do Núcleo Ambiental, Luciano Furtado Loubet, a Polícia Ambiental visitará todas as localidades identificadas como pontos de início dos incêndios, dentro do possível.

A ideia é alertar as pessoas que possam estar envolvidas nas origens dos incêndios sobre a rigorosidade das investigações. Após as vistorias, a Polícia Militar Ambiental enviará relatórios às Promotorias de Justiça competentes para as providências necessárias de responsabilização e prevenção.

Estragos Causados pelos Incêndios

Conforme o levantamento das cicatrizes de incêndios florestais no Bioma Pantanal, 8.836,35 hectares estão localizados no Mato Grosso do Sul, enquanto 3.550,79 hectares foram registrados em um país vizinho. As áreas afetadas ainda sofrem com a propagação dos incêndios, que ainda não foram completamente controlados. As autoridades permanecem em alerta máximo e continuam os esforços para combater as chamas e minimizar os danos ambientais.

O Governo do Estado aponta a longa estiagem como um dos problemas, prevendo que deve durar por mais semanas em MS. Desde 2018, o bioma enfrenta períodos de seca cada vez mais longos e adversos, resultado das mudanças climáticas.

Operação Pantanal 2024

O trabalho de controle e extinção do fogo também ocorre em outros biomas presentes no Estado – Cerrado e Mata Atlântica. O Corpo de Bombeiros atua na prevenção e no combate aos incêndios desde o dia 2 de abril deste ano.

No Pantanal, as operações para controle do fogo se concentram em diferentes regiões. No Forte Coimbra, por exemplo, o trabalho ocorre há aproximadamente uma semana. Os fortes ventos e a vegetação densa dificultam as ações, exigindo mudanças na estratégia de combate, com a criação de aceiros e monitoramento da linha do fogo.

Na região do Paraguai Mirim, a equipe realiza monitoramento das áreas queimadas na propriedade Porto Laranjeira e retornou à região do Jatobazinho devido à reignição do incêndio, enfrentando dificuldades para combate e rescaldo.

Outra frente de combate está na região do Porto da Manga, onde a guarnição verificou que o foco do incêndio se encontra em uma área inacessível para combate direto, necessitando a realização de linhas de defesa com maquinários.

Na região do Caimasul, os bombeiros continuam monitorando áreas ainda com focos ativos, porém controlados.


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