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Mato Grosso do Sul

Feminicídio a cada 9 dias em MS expõe rotina de terror

Em seis meses, 20 mulheres foram assassinadas por ódio de gênero no Estado

Publicado em 01/08/2025 2:38 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Em Mato Grosso do Sul, a cada nove dias, uma mulher é assassinada em um crime de feminicídio. Entre 1º de fevereiro e 31 de julho de 2025, o Estado registrou pelo menos 20 homicídios classificados ou com indícios de feminicídio. Os dados revelam uma rotina de violência misógina e sistemática, onde relações abusivas, ciúme possessivo e histórico de ameaças se transformam em mortes anunciadas.

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O caso mais recente foi o de Cinira de Brito, de 44 anos, professora, assassinada com cinco facadas pelo ex-marido, Anderson Alfredo Olanda, em Ribas do Rio Pardo. Anderson preparou uma emboscada: enviou uma mensagem pelo WhatsApp dizendo estar fora da cidade e autorizando Cinira a buscar seus pertences. Quando ela chegou à residência acompanhada da cunhada, Anderson já a esperava escondido no quintal, armado com uma faca. Após o crime, tentou tirar a própria vida e segue internado sob escolta policial na Santa Casa de Campo Grande.

O feminicídio de Cinira escancara padrões recorrentes nesses crimes: o término da relação, a recusa masculina em aceitar a autonomia da mulher e o planejamento da violência. Segundo a investigação, Anderson não aceitava o novo relacionamento da ex-esposa, assumido publicamente por ela três dias antes de ser assassinada.

A primeira vítima do ano foi Karina Corim, morta a tiros dentro da loja onde trabalhava, em Caarapó, por Renan, ex-companheiro que usou a arma do pai — um policial militar — para cometer o crime. Após matar Karina, Renan incendiou o local e tirou a própria vida.

No dia 12 de fevereiro, a jornalista Vanessa Ricarte, de 42 anos, foi morta a facadas pelo ex-noivo Caio Nascimento, que já tinha histórico de violência doméstica. Ele foi preso e se tornou réu por feminicídio.

Em maio, um duplo feminicídio comoveu o Estado: Vanessa Eugênia e a filha Sophie, de apenas 10 meses, foram assassinadas e queimadas pelo marido e pai, João Augusto, em Campo Grande. Segundo a polícia, João não demonstrou qualquer arrependimento após a prisão.

Os crimes seguem um padrão alarmante. Em comum, estão relações marcadas por controle, ameaças e violência anterior, ignoradas ou mal encaminhadas por redes de proteção falhas. A frequência dos casos não é apenas estatística: é denúncia de um sistema que falha em proteger mulheres mesmo diante de sinais evidentes.

De acordo com o Monitor da Violência, uma parceria do G1, Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Núcleo de Estudos da Violência da USP, mais de 1.400 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2023 — um aumento de 2,6% em relação ao ano anterior. A maior parte dos assassinatos ocorre dentro de casa e é cometida por parceiros ou ex-parceiros.

A jurista e professora da USP Silvia Pimentel, referência no combate à violência de gênero, lembra que o feminicídio não é um ato impulsivo, mas “a ponta do iceberg de um processo contínuo de opressão e silenciamento”. Em entrevista ao El País Brasil, ela destacou: “O feminicídio é a expressão mais extrema de um padrão cultural de desvalorização da vida da mulher.”

Enquanto o Estado repete tragédias com nomes diferentes, especialistas e organizações feministas cobram mudanças estruturais. “Não basta punir depois da morte. É preciso agir antes. E para isso, o Estado precisa ouvir e proteger as mulheres quando elas pedem socorro”, afirmou a advogada Gabriela Manssur, fundadora do Instituto Justiça de Saia..

Em Mato Grosso do Sul, a Lei Estadual nº 5.202/2018 institui o “Dia Estadual de Combate ao Feminicídio”, celebrado em 1º de junho, mas, na prática, a letalidade contra mulheres continua crescendo. A média de um feminicídio a cada nove dias confirma o que os dados nacionais já apontam: o Brasil segue sendo um dos países mais perigosos do mundo para ser mulher.

Onde buscar ajuda em Mato Grosso do Sul

Em Campo Grande, a Casa da Mulher Brasileira funciona 24 horas por dia, inclusive nos fins de semana, oferecendo atendimento completo às mulheres em situação de violência. A unidade está localizada na Rua Brasília, s/n, no bairro Jardim Imá.

No local, as vítimas têm acesso direto a diversos serviços essenciais em um só espaço: Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), Defensoria Pública, Ministério Público, Vara Judicial de Medidas Protetivas, além de atendimento psicológico e social, alojamento temporário, brinquedoteca para os filhos e o suporte da Patrulha Maria da Penha e da Guarda Municipal.

Para emergências, é possível entrar em contato com a guarda pelo telefone 153.

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