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Mato Grosso do Sul
ONGs destacam parceria com o Governo de MS no trabalho conjunto contra incêndios na região
Publicado em 20/06/2024 10:24 - José Câmara e Rafaela Moreira (G1MS), Eunice Ramos (G1MT), Semana On – Edição Semana On
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O Brasil lidera o número de focos de incêndio entre os países da América do Sul, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A explosão dos incêndios no Pantanal levou à liderança do país no ranking de queimadas, neste mês de junho.
Os dados são do Programa de BDQueimadas, do Inpe. Veja o ranking de focos de incêndios entre os dias 1º e 19 de junho entre os países da América do Sul:
Do dia 1º a 19 de junho deste ano, os focos de incêndio cresceram 2951% no Pantanal, se comparados com o mesmo período de 2023. Entre os biomas brasileiros, o Pantanal é o que teve maior crescimento percentual de queimadas em junho deste ano.
Em segundo lugar no crescimento do número de focos de queimadas, a Amazônia aparece com 93% de incremento no quantitativo de queimadas. Os outros biomas apresentaram os seguintes percentuais:
Especialistas explicam que o aumento exponencial dos focos de incêndio no Pantanal ainda em junho é causado pela antecipação da temporada do fogo, que chegaria só entre o fim de julho e agosto.
“Pela primeira vez estamos com o Pantanal completamente seco no primeiro semestre. O Ibama já contratou mais de 2 mil brigadistas para atuar em todo o país, com foco inicial no Pantanal e na Amazônia, e vamos fazer tudo o que for necessário. As crises climáticas são eventos cada vez mais extremos”, afirmou o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, em nota.
No bioma presente em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, as chamas são esperadas anualmente. Entretanto, os eventos climáticos adversos, a seca severa e a estiagem expuseram a planície ao fogo mais cedo em 2024.
O especialista em conservação da WWF-Brasil, Osvaldo Barassi Gajardo, lembra que 2024 começou de forma atípica. Em janeiro, a região da Serra do Amolar – santuário da biodiversidade no Pantanal – já enfrentava o fogo.
Para o especialista da WWF-Brasil, os fenômenos climáticos como El Niño e La Niña contribuíram negativamente para a ampliação do período de seca, que consequentemente maximiza a temporada de queimadas no Pantanal.
“Estamos numa situação de mudanças climáticas, demonstrando alterações nos ciclos, no clima. Em terrenos mais secos, os efeitos do El Niño trazem impactos de baixa nas chuvas, no regime de chuva, baixa nos rios, e começa até um cenário que prevê uma sequência. Então, este ano, já no início, já começávamos pensando e falando que o Pantanal ia vivenciar uma situação complexa”.
Aumento das queimadas e seca extrema
Levantamento realizado pelo MapBiomas Fogo mostrou que 1 a cada 4 hectares de terra pegou fogo no Brasil nos últimos 40 anos. Corumbá (MS), a capital do Pantanal, foi a cidade que mais sofreu com as chamas na série histórica.
O Pantanal foi o bioma que mais queimou de modo proporcional à sua área nos últimos 40 anos, com 9 milhões de hectares. Embora sejam apenas 4,5% do total nacional, o valor representa 59,2% de todo o bioma.
Para especialistas, a escalada do fogo em 2024 caminha para um cenário semelhante ao de 2020, até então o pior ano para o Pantanal desde o fim da década de 1990. O representante da ONG SOS Pantanal, o biólogo Gustavo Figueirôa, vê com muita preocupação o aumento das chamas e o início de um período mais seco no bioma.
“Vemos estes incêndios se alastrando de forma muito rápida, ganhando uma força grande e a tendência é só piorar daqui para frente. Acho que esse é o sinal para que os órgãos públicos ajam em conjunto, cooperem para atuar quanto antes, não esperar a situação sair completamente fora de controle para tentarem atacar só na remediação”, pontua Figueirôa.
O Pantanal já registrou o maior número de focos de incêndios para um mês de junho de toda a série histórica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), iniciada em 1998. Dados atualizados mostram quem mais de 500 mil hectares já foram consumidos pelo fogo neste ano.
Outra preocupação é com a seca na região. Em Corumbá, uma das principais cidades do Pantanal sul-mato-grossense, praticamente não chove há mais de 50 dias, de acordo com meteorologistas da região. Com os incêndios florestais e a baixa umidade do ar, uma densa fumaça se concentra sobre a cidade.
Segundo levantamentos do Serviço Geológico do Brasil (SGB), o baixo nível do rio Paraguai, principal bacia do pantanal, já é recorde. Último levantamento mostrou que a régua em Ladário (MS), está 3,10 metros abaixo da média para o mês de junho.
Para o pesquisador responsável pelo boletim técnico do SGB, Marcus Suassuna, a seca no rio Paraguai é resultado da seguinte combinação: prolongamento do tempo seco em 2023 + baixas chuvas em 2024 + efeitos práticos do fenômeno El Niño.
“No começo deste ano, os níveis estavam muito baixos e a estação chuvosa foi toda muito fraca. A situação pode ficar mais grave entre setembro e outubro”, disse.
Estudo aponta que Pantanal é o bioma que mais sofreu com incêndios em quatro décadas
Um estudo realizado pelo MapBiomas apontou que o Pantanal foi o bioma que mais sofreu com incêndios nos últimos 40 anos, de modo proporcional à sua área. A região teve 9 milhões de hectares queimados, o que representa 59,2% do território. O levantamento analisou dados de 1985 a 2023.
O bioma equivale a 15 milhões de campos de futebol, sendo dividida pelos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Hectares dos biomas afetados:
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Mato Grosso registrou 682 focos de calor entre os meses de janeiro a junho de 2024, tendo um aumento de 1155.56% em comparação ao mesmo período do ano passado, que registrou 54 focos.
No último dia 17, o governo do estado lançou a Operação Pantanal 2024, que tenta evitar que o fogo destrua a região como em anos anteriores. Dentre as medidas adotadas pela Operação, está a proibição do uso de fogo para limpeza e manejo em áreas do bioma até o fim do ano.
Nesta semana, mais de 30 organizações assinaram uma carta que foi enviada ao Ibama e aos governos estaduais de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul propondo a busca por um auxílio internacional por meio do Centro de Coordenação de Resposta de Emergência da União Europeia (CCRE) para o enfrentamento da seca e os incêndios florestais que tem atingido a região.
Queimadas em 2020
O Pantanal registrou o maior incêndio no bioma em 2020. Foram 4,5 milhões de hectares queimados e 17 milhões de animais mortos. Várias espécies usaram estratégias para tentar fugir do fogo, mas não conseguiram devido à proporção que as chamas tomaram. Os impactos à fauna e à vegetação foram diversos, como algumas mudanças de comportamento no próprio bioma e a chegada de novas espécies.
Mesmo anos após os incêndios, os pesquisadores constaram que o Pantanal não se recuperou totalmente e que as populações das espécies não voltaram ao tamanho que eram. Pelo contrário, cerca de 75 milhões de animais vertebrados e 4,6 bilhões de invertebrados foram afetados diretamente e indiretamente.
O bioma
O Pantanal abriga uma diversidade única, incluindo várias espécies ameaçadas, ao todo são:
Onça-pintada, jacaré, tuiuiú, ipês, jacarandás e entre outros integrantes representam o Pantanal. Além disso, ele atua como regulador natural de enchentes, porque absorve e armazena água durante períodos chuvosos.
O Pantanal também funciona como um reservatório de água doce com altitudes que alcançam 150 metros. Seus recursos hidrológicos são importantes para o abastecimento das cidades, onde vivem aproximadamente 3 milhões de pessoas, no Brasil, Bolívia e Paraguai.
Governo Federal não descarta acionar ajuda internacional para combate aos incêndios no Pantanal
O Ministério do Meio Ambiente não descarta a busca por auxílio internacional, por meio do Centro de Coordenação de Resposta de Emergência da União Europeia (CCRE), para o enfrentamento da seca e dos incêndios florestais que têm atingido o Pantanal.
A possibilidade é discutida depois que mais de 30 organizações assinaram uma carta pedindo que o governo solicite ajuda internacional para enfrentamento da seca e dos incêndios florestais que assolam o bioma. O apoio pode ser por transferência de tecnologia, envio de equipes e de recursos para custear o uso de aviões.
“A instância internacional não está fora de nosso radar, mas estamos focando agora nas nossas forças, tanto no nível estadual, quanto no nível federal. Sabemos que normalmente isso acontece, os incêndios acontecem a partir de agosto. Esse ano ineditamente começou dois, três meses antes”, disse o secretário extraordinário de Controle de Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do Ministério do Meio Ambiente, André Lima.
O documento, enviado ao Ibama e aos governos estaduais de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, detalha que o Pantanal enfrenta recorrência de incêndios florestais, como os que destruíram quase um terço da área em 2020 e afirma que em 2024 a situação se agrava novamente, com novos focos de calor sendo registrados.
ONGs destacam parceria com o Governo de MS no trabalho conjunto contra incêndios no Pantanal
Para contribuir no combate aos incêndios florestais no Pantanal, ONGs, entidades do terceiro setor e sociedade civil destacam a união e o trabalho conjunto que é realizado ao lado do Governo de Mato Grosso do Sul. Essa ação coletiva envolve articulação, capacitação, investimentos e planejamento dos próximos passos para proteger este bioma tão importante ao Brasil e mundo.
O trabalho conjunto é feito de forma contínua e começou lá atrás, com ações e planos de prevenção. Reativado desde 2017, o Comitê do Fogo é um dos espaços coletivos que tem a participação de todos estes entes (Poder Público e sociedade) para promover discussão, monitoramento, avaliação e prevenção aos incêndios florestais.
Diretor-executivo do SOS Pantanal, Leonardo Gomes, ressaltou que o momento é de unir esforços e que esta parceria com o Governo de Mato Grosso do Sul é fundamental. “Este é um ano especialmente preocupante em função da seca, mas o que temos diferente em relação a 2020 é a preparação, os recursos e pessoas capacitadas para responder a altura. O uso eficiente dos investimentos é que vai fazer a diferença”, comenta.
Gomes lembrou que este planejamento para combater os incêndios florestais no bioma não foi feito apenas agora e sim com uma articulação anual. “As ações não param, principalmente dentro do Comitê do Fogo, com as câmaras técnicas, preparação, prevenção e capacitações. O objetivo agora é integrar os trabalhos para ter velocidade na articulação e em ações mais rápidas”.
Esta também é a avaliação do presidente do Instituto do Homem Pantaneiro, Ângelo Rabelo. Ele destacou que a soma de esforços é importante neste momento crítico. “Um trabalho em conjunto, reconhecendo o papel de cada ator, pois o nosso desafio é muito grande. Esse é o momento de juntar a capacidade técnica de cada um, com objetivo de ajudar o Pantanal”.
Rabelo cita que foi feito um trabalho de prevenção e planejamento por parte do Governo do Estado, em conjunto com as ONGs e entidades da sociedade civil, mas que a questão climática surpreendeu a todos, já que o ponto crítico sempre fica para o segundo semestre, a partir de agosto.
“Acredito que os esforços devem recorrer a tecnologia e uma logística adequada para controlarmos estes incêndios. Temos ainda que respeitar a capacidade humana, que tem restrições devido ao local e altas temperaturas”, afirma.
Para o diretor institucional da Ecoa, Alcides Faria, o Governo do Estado tomou decisões importantes em relação a prevenção e combate aos incêndios, em um cenário e condições climáticas das mais difíceis que está ocorrendo no Pantanal.
“Com as informações disponíveis apresentadas por membros das secretarias e do Corpo de Bombeiros sabemos dos esforços que estão e serão desenvolvidos. Temos todos muito trabalho pela frente. A hora é de somar forças e continuar a luta em defesa do Pantanal”, concluiu Faria.
O governador Eduardo Riedel descreve que desde janeiro o Estado já estava se preparando para enfrentar esta situação, por conta da condição climática adversa.
“Por esta razão desde o ano passado estamos se estruturando, com a compra de equipamentos, aviões, implantação de bases avançadas e helicópteros das forças de segurança à disposição. Agora é uma missão de todos, temos que nos unirmos, fazer uma força conjunta para este enfrentamento. As ONGs estão se mobilizando, temos ajuda dos produtores e de quem mora na região. É uma união em torno desta causa”, ressalta Riedel. O investimento do Governo até o momento é de R$ 50 milhões nesse trabalho.
Contenção
O trabalho de controle e extinção dos incêndios florestais realizado pelo Corpo de Bombeiros no Pantanal, em Mato Grosso do Sul, está sendo efetivo em diferentes áreas do bioma, impedindo que as chamas destruíssem moradias, pontes e também a vegetação.
Apesar do aumento dos focos de incêndios, especialmente devido as condições climáticas extremas – sem chuvas, com altas temperaturas e velocidade dos ventos acima de 50 km/h, o que facilita a propagação do fogo –, as ações de combate foram exitosas em diversas situações.
Em outro foco também está a aplicação de multas pelo Governo de Mato Grosso do Sul por incêndios florestais considerados criminosos no Pantanal. As punições já chegaram a R$ 53,8 milhões, resultantes de 94 autos de infração feitos pelos órgãos de fiscalização ambiental do Estado. Cada auto representa uma área queimada, que pode compreender milhares de hectares.
Está em execução a Lei do Pantanal, legislação inédita no bioma. Também há outras medidas de prevenção e fiscalização (incêndios florestais) no território pantaneiro em Mato Grosso do Sul. Imasul e PMA são os responsáveis por esse trabalho.
Uma das ações efetivas são as imagens de satélite para monitorar em tempo real o território sul-mato-grossense. Quando um foco de incêndio é detectado, a imagem é aproximada e busca-se informações sobre a propriedade do imóvel e em seguida é investigada a origem do fogo.
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