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Mato Grosso do Sul
80 adolescentes e jovens tiraram a própria vida este ano no Estado
Publicado em 16/09/2025 10:37 - Semana On
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Homens se suicidaram 270% mais que mulheres nos últimos dez anos em Mato Grosso do Sul. O dado, extraído da Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública, revela um abismo preocupante entre os gêneros: de 2015 a 2025, foram 1.695 mortes entre homens, contra 458 entre mulheres. Só em 2025, até setembro, 212 pessoas tiraram a própria vida no estado — 161 delas do sexo masculino. Os números, divulgados no contexto do Setembro Amarelo, escancaram a necessidade de repensar as estratégias de cuidado com a saúde mental, especialmente no que se refere à população masculina, historicamente negligenciada por políticas públicas e silenciada por construções culturais de gênero.
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O recorte etário também acende alertas. De janeiro até setembro deste ano, 80 adolescentes e jovens, entre 15 e 29 anos, morreram por suicídio em Mato Grosso do Sul. A faixa etária, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), ocupa o quarto lugar no ranking das principais causas de morte no país — atrás apenas de acidentes de trânsito, tuberculose e violência interpessoal. É uma tragédia anunciada que tem se repetido ano após ano, muitas vezes sem respostas efetivas do poder público à altura da complexidade do problema.
O desequilíbrio entre os gêneros não se dá por acaso. Especialistas apontam que a masculinidade tradicional impõe barreiras que dificultam o reconhecimento e o tratamento de doenças mentais. “As mulheres têm uma autopercepção mais aguçada sobre os próprios sentimentos, o que favorece o diagnóstico precoce. Já entre os homens, os sintomas ficam camuflados e, quando o sofrimento aparece, a depressão já avançou de forma grave”, explica a psicóloga e psicanalista Kerolly Lopes. Essa leitura é reforçada por um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), que aponta a maior letalidade dos métodos utilizados por homens e o menor índice de busca por ajuda entre eles.
A resistência em demonstrar fragilidade e o medo do julgamento social criam um cenário de vulnerabilidade que, muitas vezes, não é percebido nem por quem sofre, nem pelas redes de apoio. A deputada Mara Caseiro (PSDB), autora da Lei Estadual 4.777/2015 — que instituiu o Setembro Amarelo em MS —, ressalta que a campanha vai além da simbologia: “Falar sobre prevenção ao suicídio é um compromisso de toda a sociedade. O silêncio é o maior inimigo de quem sofre. Precisamos ampliar os espaços de acolhimento e levar informação às escolas, famílias e comunidades”.
Leis e ações públicas: onde há vida, há política
O Parlamento Estadual de Mato Grosso do Sul tem sido um ator relevante na institucionalização de políticas voltadas à saúde mental. Além do Setembro Amarelo, iniciativas como a Lei 5.483/2019, de autoria do deputado Antonio Vaz (Republicanos), criaram a Semana de Prevenção e Combate à Violência Autoprovocada, dedicada ao enfrentamento do suicídio e da automutilação. “A proposta nasceu da preocupação com o aumento dos casos entre crianças, adolescentes e jovens”, destaca o parlamentar.
Mais recentemente, a Lei 6.449/2025, também de Mara Caseiro, lançou a campanha “Setembro Amarelo vai à Escola”, com o objetivo de transformar as instituições de ensino em espaços seguros de diálogo, escuta ativa e prevenção. A estratégia é acertada: segundo levantamento da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a escola é um dos principais ambientes para identificar precocemente sinais de sofrimento psíquico.
Universidades, Justiça e juventude: um esforço coletivo
Além da atuação legislativa, outras instituições se mobilizam na prevenção. Na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), o projeto “Acolhimento em Saúde Mental” oferece atendimento gratuito a jovens de 13 a 24 anos. Desde agosto de 2024, mais de 300 jovens foram acolhidos, com atendimentos presenciais e online. Coordenado pelo professor doutor Jeferson Camargo Taborda, o projeto atua tanto no Serviço-Escola de Psicologia da universidade quanto na plataforma Rede Pode Falar, e desenvolve ações formativas em escolas públicas da capital.
Na esfera judicial, o Tribunal de Justiça de MS desenvolve a Justiça Restaurativa Escolar, promovendo círculos de diálogo em escolas sobre bullying, respeito, projeto de vida e automutilação. A desembargadora Elizabete Anache, coordenadora da Infância e Juventude do TJMS, destaca que a abordagem restaurativa “promove o diálogo e a reflexão como alternativas ao enfrentamento da violência”.
A Secretaria de Estado de Cidadania (SEC), por meio da Subsecretaria de Políticas Públicas para Juventude, também atua no combate ao suicídio juvenil com o projeto “Inspira Jovem”, que desde 2024 já atendeu mais de 30 mil jovens, inclusive em aldeias indígenas. O subsecretário Jessé Fragoso da Cruz destaca que é preciso trabalhar a saúde mental para além do Setembro Amarelo: “A pauta exige ações permanentes sobre maturação emocional, identidade e direitos”.
A escuta como ferramenta de transformação
A psicóloga clínica Thaís Marcela Mota, especialista em comportamento humano, alerta para o papel fundamental das famílias: “A ausência de diálogo é um dos fatores determinantes. Os pais precisam conversar e procurar entender os filhos. Criar a prática da conversa pode mudar esse cenário”. Thaís reforça que sinais como automutilação devem ser levados a sério: “Muitos jovens batem a cabeça na parede, se cortam, arrancam cabelos. É o início de um processo que pode culminar no suicídio. O ponto principal é ter empatia, saber ouvir e não desmerecer o que eles estão sentindo”.
Educação emocional desde a infância
A psicoeducação tem sido uma estratégia eficaz de prevenção. A Assembleia Legislativa de MS lançou livros digitais voltados para o público infantojuvenil. Entre eles, o e-book “Para onde vai o buraco quando o tatu fica feliz” propõe reflexões sobre sentimentos e rede de apoio, com linguagem acessível para crianças e suas famílias. O material é distribuído gratuitamente e integra uma série de ações da Comunicação Institucional do Parlamento.
Mais que estatísticas, vidas interrompidas
O suicídio, especialmente entre homens e jovens, é um problema de saúde pública que atravessa dimensões sociais, culturais, psicológicas e políticas. Mato Grosso do Sul tem dado passos importantes ao reunir Parlamento, universidades, Justiça, escolas e sociedade civil, mas os números mostram que ainda há um longo caminho a percorrer. Desmistificar a saúde mental, romper o silêncio e investir em acolhimento são urgências que não cabem apenas em campanhas anuais, mas exigem políticas contínuas, baseadas em evidências, sensibilidade e compromisso com a vida.
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