21/04/2024 - Edição 540

Mato Grosso do Sul

Drogas, mortes e luxo na fronteira do Brasil

Investigação federal apura como família milionária se ligou ao tráfico e contratou até mercenários para garantir controle dos negócios

Publicado em 22/05/2023 11:42 - Allan de Abreu – Piauí

Divulgação Sesc-SP

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Antonio Joaquim da Mota investiu alto na cerimônia de casamento da única filha, Cecyzinha, em maio de 2016. O pecuarista de Ponta Porã, Mato Grosso do Sul, mandou construir um salão de festas de 1,8 mil m² em Pedro Juan Caballero, cidade vizinha do lado paraguaio. As paredes laterais foram cobertas com 60 mil botões de rosas e no teto foram instalados 12 lustres de cristal Baccarat. Sobre as mesas, toalhas de seda e taças de cristal lapidado. No chão, quatro tapetes persas em pontos estratégicos. A opulência custou a Mota, na época, mais de meio milhão de reais.

Como nas clássicas cenas iniciais de O poderoso chefão, entre os trezentos convidados estavam alguns nomes da nata da política e do crime organizado da fronteira. Entre os mais notórios, Fahd Jamil Georges, lendário contrabandista da região apelidado de “El Padrino”, além do então deputado federal pelo Paraguai Robert Acevedo, e seu irmão José Carlos, prefeito de Pedro Juan. O narcotraficante Jarvis Chimenes Pavão não pôde comparecer por estar atrás das grades, mas mandou dois representantes, um irmão e um sobrinho.

Outro convidado famoso, Jorge Rafaat Toumani, notório traficante de drogas da fronteira, seria brutalmente assassinado no mês seguinte a mando da facção Primeiro Comando da Capital (PCC). Outros três convivas teriam o mesmo destino, incluindo um pistoleiro do clã Mota, um piloto de aviões que durante muito tempo transportou cocaína para Fernandinho Beira-Mar e, mais recentemente, o prefeito Acevedo, de Pedro Juan.

O próprio casamento de Cecyzinha ruiria em menos de três anos, depois que o marido, filho de um rico empresário de Mato Grosso do Sul, descobriu o passado de crimes dos Mota e suspeitou que o sogro estivesse lavando dinheiro do crime com a compra e venda de bois: “Você acha certo fazer contrabando? Comprar notas, comprar pessoas, fazer esquemas?”, questionou o marido, em conversa via WhatsApp. “Se as pessoas que estão envolvidas estão de comum acordo não acho errado”, responde Cecyzinha. “Meu pai foi por muito tempo contrabandista de cigarro, hj [hoje] é de boi ou sei lá o quê… […] E eu não vou falar que meu pai fez mal em ser contrabandista de cigarro, eu usufruí disso. Estaria sendo uma cretina de falar que não usufruí e que eu achei errado…[…] Meu pai tem rolo, porque precisa arrumar dinheiro pra pagar as contas.” Então o marido respondeu: “Ótimo, se um dia seu pai for preso ou algo do gênero, quero ver como você vai se sentir.”

O diálogo acima, um dos últimos do casal antes do divórcio, foi capturado pela Polícia Federal nos celulares dos Mota apreendidos na casa da família em Ponta Porã em novembro de 2019 – os relatórios foram obtidos com exclusividade pela Piauí. Na época, a PF deflagrou a Operação Patrón, que investigou o clã por dar abrigo ao doleiro Dario Messer em solo paraguaio no período em que ele ficou foragido da Justiça brasileira, acusado de comandar uma gigantesca lavanderia de dinheiro investigada pela Lava Jato. Nesse caso, Mota e sua mulher, Cecy, mãe de Cecyzinha, respondem a uma ação penal na Justiça Federal do Rio, acusados de associação criminosa.

O “sei lá o quê” da mensagem de Cecyzinha, segundo investigação da PF e do Ministério Público Federal, esconde crimes graves: tráfico internacional de cocaína, lavagem de dinheiro, associação criminosa e grilagem de terras. Sem contar ligações com grupos de extermínio formados por mercenários estrangeiros. Na manhã de quinta-feira, 11/5, a Polícia Federal e a Senad (Secretaria Nacional Antidrogas, a PF paraguaia) iniciaram a fase ostensiva da Operação Helix, realizada de modo conjunto entre Brasil e Paraguai, na investigação que apura o esquema de tráfico de cocaína para o Brasil a partir das fazendas dos Mota no país vizinho.

A história do clã Mota se confunde com a evolução do crime no eixo Ponta Porã-Pedro Juan Caballero. O baiano Joaquim Francisco da Mota, pai de Antonio, chegou a Ponta Porã nos anos 1960, e já na década seguinte era considerado o maior contrabandista de café na região, ao lado de Fahd Jamil e de Adilson Rossati Sanches. O trio levava ilegalmente grandes carregamentos do grão produzido no Paraná, Minas Gerais e interior de São Paulo até o Paraguai e exportava o produto pelo país vizinho, pagando tributos muito mais baixos do que no Brasil.

Do café, Joaquinzinho, como era conhecido devido à baixa estatura (tinha apenas 1,60 metro), diversificou os negócios nos anos 1980, primeiro para o contrabando de uísque e eletroeletrônicos, depois para as drogas (ele chegou a ser preso por narcotráfico no Paraguai em 1985). Nessa época, o “capo” estreitou laços com o então ditador paraguaio Alfredo Stroessner e ganhou do governo do país vizinho 2,7 mil hectares de terras públicas antes destinadas à reforma agrária em Pedro Juan. Era o primeiro latifúndio do clã.

Quando Joaquinzinho morreu aos 64 anos, em 1998, Antonio Joaquim da Mota, o Tonho, um dos seus seis filhos, já havia assumido os negócios do pai, lícitos e ilícitos. Em sua delação, o doleiro Messer diz que Tonho auxiliava o ex-presidente do Paraguai, Horacio Cartes, a contrabandear cigarros para o Brasil. Tonho montou um frigorífico no país vizinho e comprou novas fazendas recheadas de gado (o MPF estima que ele tenha entre 3 mil e 6 mil cabeças de gado). Em 2011, o governo paraguaio iniciou um processo de desapropriação de uma fazenda com mais de mil hectares de Tonho e do seu irmão mais velho, José Rivassi, sob a alegação de que o imóvel fora grilado pelos Mota. A medida, entretanto, nunca foi efetivamente cumprida.

Na última década, de acordo com o MPF, Tonho e seu filho Antonio Joaquim Mendes Gonçalves da Mota, conhecido como Motinha ou Dom, associaram-se aos narcotraficantes Sérgio de Arruda Quintiliano Neto, o Minotauro, e Caio Bernasconi Braga, ambos ligados à facção PCC, para enviar cocaína do Paraguai até os portos de Santos, São Paulo; Paranaguá, Paraná; e Itajaí, Santa Catarina, de onde era exportada para a Europa e América Central. A droga saía de helicóptero da fazenda Buracão, dos Mota, a 15 km da cidade de Pedro Juan Caballero, e era entregue no interior de São Paulo ou no Norte do Paraná, para depois seguir viagem em caminhões até os três portos. Quando a Polícia Militar apreendeu um helicóptero com 250 kg de cocaína em Paraguaçu Paulista, interior de São Paulo, em 2021, encontrou mensagens de Motinha para o piloto via aplicativo Signal.

Em 2019, Motinha e o meio-irmão Orlando Stedile discutiram a compra de empresas nesses três portos. Motinha diz que não precisava das firmas para lavar dinheiro, mas uma em “que coloco minhas coisas no meio e dominamos a empresa”, segundo mensagens dele obtidas pela Polícia Federal (ainda não se sabe se de fato a família comprou empresas nesses locais). Em sua delação, o piloto do tráfico Felipe Ramos Morais disse que Tonho admitiu a ele atuar na compra e venda de drogas. “Antonio Mota falou que mexia com tráfico fazia tempo mas que tinha parado e estava voltando a mexer. Antonio tinha medo de seu filho ser preso, por isso ia dar um suporte para o filho dele.”

O clã Mota, de acordo com o MPF, mantinha negócios com dois grandes narcotraficantes da fronteira. Um deles é o brasileiro Lindomar Reges Furtado, o Israel, alvo da operação Turfe, da PF, que resultou na apreensão de mais de oito toneladas de cocaína no Brasil e na Europa. Em uma agenda apreendida na casa de Motinha em Ponta Porã, consta o nome Israel associado ao porto de Gioia Tauro, no Sul da Itália, dominado pela máfia ‘Ndrangheta, que atua intensamente no comércio internacional de cocaína. O outro é o paraguaio Rodrigo Paredes, dono de uma offshore no Panamá e réu em ação penal nos Estados Unidos, acusado de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas.

Conforme as investigações, para manter seus esquemas criminosos, a família Mota corrompia dezenas de políticos, promotores de Justiça e policiais no Paraguai (anotações encontradas pela PF na casa de Tonho em Ponta Porã detalham o pagamento das propinas; em uma delas, os policiais são identificados como “vermes”). Em junho de 2017, a Polícia Nacional do Paraguai invadiu a fazenda Buracão e encontrou 3,4 toneladas de maconha, além de um fuzil, um rifle, uma espingarda e um revólver. Apesar do flagrante, apenas o caseiro da propriedade, analfabeto, foi denunciado por tráfico de drogas à Justiça paraguaia – o promotor responsável pelo caso, Hugo Carlos Volpe Mazo, foi denunciado à Justiça pelo MPF no Brasil por corrupção passiva, ao aceitar presentes de Minotauro, sócio dos Mota, depois de ter arquivado um inquérito contra o brasileiro por tráfico de drogas. Em conversa via WhatsApp com o caseiro dentro da cela, Tonho disse que buscava resolver o caso dele na base da corrupção. “Nós tamo trabalhando pra ser resolvido, […] nós tamo trabalhando por outro lado, que você sabe qual é.” Quase seis anos após o flagrante, ainda não houve sentença do caso pela Justiça paraguaia.

Quando o dinheiro não servia, a alternativa era a bala, ao melhor estilo “prata ou chumbo” de Pablo Escobar. O MPF suspeita do envolvimento do clã Mota no assassinato, em outubro de 2018, do piloto Mauro Parra – aquele ligado a Beira-Mar que esteve no casamento de Cecyzinha – devido a dívidas desse último com a família. Seis dias após a execução de Parra em Pedro Juan com tiros de fuzil, Motinha disse para o pai que iria ficar com os aviões deixados pelo piloto como pagamento da dívida.

Um ano depois, Cecyzinha, já divorciada, envolveu-se em uma briga com duas outras mulheres em uma boate de Ponta Porã. Furiosa, ela enviou uma mensagem de áudio no WhatsApp para Carlos Gustavo Rodríguez, o Carlitos, um ex-agente da Senad no Paraguai que, de acordo com o MPF, deixou o emprego para se tornar sicário do clã Mota. “Tô precisando de um serviço seu aí, você vai ter que dar um fim em uma pessoa pra mim.”

Mas Carlitos desconversou, e Cecyzinha procurou o irmão Orlando, que deu outra sugestão. “Tem que mandar raspar a cabeça dela, pra servir de exemplo. Mas tem que mandar raspar td [tudo].” Já a mãe, Cecy, retomou os planos mais radicais. “Admiro vc não pegar um revólver e dar uns tiros na perna dela”, diz. “Quem falou que eu não vou”, respondeu a filha. “Estava esperando o Carlito chegar na cidade.” Cecy então se lembrou do avô de Cecyzinha – não fica claro se Cecy se refere ao pai dela ou ao sogro, Joaquinzinho. “Uma vez a ma [parente] brigou na escola e seu avô levou uma arma e deu pra ela e disse Atira na perna dela”. Mas o plano não foi adiante. Por fim, quem morreu foi o sicário Carlitos, assassinado em dezembro de 2020 em Pedro Juan. A PF suspeita que o clã tenha ordenado o crime ao descobrir que Carlitos estava desviando fuzis dos Mota.

Para proteger seus negócios ilícitos no Paraguai, o clã contava com mercenários brasileiros e estrangeiros – em diálogo de 2021 captado pela PF em uma investigação contra o PCC na fronteira, um homem ligado à facção diz que Motinha comandava 120 homens armados na região. Naquele mesmo ano, quando agentes da Senad vigiavam uma casa em Pedro Juan onde se suspeitavam estivessem reunidos integrantes do PCC, saíram do imóvel duas caminhonetes com cinco homens, todos armados com fuzis e vestidos com capuzes e coletes à prova de balas. O grupo ameaçou os policiais paraguaios, que tiveram de deixar o local. As caminhonetes estavam registradas em nome de um dos sicários da família Mota que seria assassinado oito meses depois. No início daquele ano, o sicário e Motinha haviam sido abordados pela PM em Mato Grosso do Sul em uma daquelas caminhonetes.

Entre os mercenários que, segundo a investigação, foram contratados pelos Mota estão um romeno, um grego e um italiano, além de um brasileiro ligado a grupos neonazistas em Minas Gerais (um dos endereços de e-mail utilizados por ele contém a expressão “white power”, utilizada por supremacistas brancos nos Estados Unidos).

Tantas décadas no submundo do crime propiciaram uma vida de luxo para os Mota. Em certa ocasião, Cecyzinha chegou a gastar 700 mil reais em joias em uma única compra. Em outra, segundo a PF, Motinha pagou 32 mil reais para passar um fim de semana com duas garotas de programa. A maioria das despesas da família no Brasil era paga por doleiros e laranjas por meio de transações dólar-cabo, ilegais, em que o doleiro recebe um valor em dólares do cliente no Paraguai e deposita quantia equivalente em dólares na conta desse cliente no Brasil.

Para a PF, foi dessa forma que Cecyzinha pagou parte dos 2,1 milhões de reais referentes à compra de um apartamento em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo. Segundo levantamento da Polícia Federal, em 2020 e 2021 a filha de Tonho recebeu 2,37 milhões de reais em suas contas no Brasil – Orlando, o meio-irmão dela, injetou outros 3,3 milhões de reais, no mesmo período.

A Operação Helix, da Polícia Federal, já prendeu até agora 22 pessoas. Há um mandado de prisão contra Motinha no Paraguai, mas ele conseguiu fugir – a PF acredita que ele tenha sido alertado por policiais paraguaios corrompidos pelo clã. Além dessa investigação, o MPF denunciou recentemente os Mota, pai e filho, pelos crimes de associação criminosa, tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo. O MPF também solicitou a prisão preventiva de Tonho e de Motinha, mas o juiz da 2ª Vara Federal de Ponta Porã, Vitor Figueiredo de Oliveira, ainda não decidiu se acata ou não o pedido.

O advogado Luiz Renê Gonçalves do Amaral, que atua na defesa dos Mota, disse por meio de nota que a família “preserva raízes” em Ponta Porã e Pedro Juan Caballero há mais de cinco décadas, “gozando de elevado prestígio e com incontáveis serviços prestados à sociedade fronteiriça, notadamente para o desenvolvimento da agropecuária na região, e sem qualquer envolvimento com atividades criminosas”. A nota afirma ainda que os Mota estão “à disposição das autoridades públicas tanto do Brasil quanto do Paraguai para prestar todo e qualquer esclarecimento que se fizer necessário para o restabelecimento de sua honra”.


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