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Mato Grosso do Sul

Do lixo à floresta

Jovens transformam antigo lixão de Ponta Porã em área de regeneração ecológica

Publicado em 10/12/2025 2:40 - Semana On

Divulgação Famasul

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Um antigo lixão desativado às margens do perímetro urbano de Ponta Porã (MS), antes marcado por resíduos tóxicos, solo estéril e abandono, começa a dar lugar a uma floresta urbana em formação. A iniciativa é conduzida pelo grupo Agrofronteiras, formado por jovens do meio rural, vencedores da edição 2025 do programa Jovem Sucessor Rural, promovido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/MS). A ação une reflorestamento, resgate cultural, educação ambiental e engajamento comunitário — e já apresenta sinais concretos de regeneração ecológica.

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A transformação do espaço surgiu da percepção crítica dos jovens em relação à área desativada. “Nos chamou a atenção o lixão. Fica próximo ao perímetro urbano. Imaginamos que seria um bom local para a implementação do projeto de recuperação de áreas degradadas”, explica Ewerton Fernandes, integrante do grupo, em entrevista ao g1. O terreno, antes destinado ao descarte de lixo doméstico, hospitalar e animal, apresentava um cenário de devastação: solo compactado, poluição visual e ausência total de biodiversidade.

A resposta encontrada pelo Agrofronteiras foi técnica e coletiva. Com apoio da Prefeitura Municipal, do Sindicato Rural, de servidores públicos e do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), o grupo realizou análises do solo e da água, implementou técnicas de terraceamento, irrigação, adubação, e utilizou hidrogel para retenção hídrica — práticas hoje reconhecidas como essenciais em processos de restauração ecológica.

Floresta com identidade cultural

As espécies plantadas não foram escolhidas ao acaso. Entre as primeiras mudas estão 75 moringas, 75 ipês-roxos, 75 patas-de-vaca e mais de 100 unidades de erva-mate — vegetações com forte capacidade de fitorremediação, ou seja, de recuperar áreas contaminadas por absorção e degradação de poluentes. Mas também com significado cultural. “A erva-mate é a ‘princesinha dos ervais’. Ela faz parte da identidade cultural da região. Sempre disse ao grupo que ela seria a cereja do bolo”, diz Ewerton, destacando o elo entre preservação ambiental e memória local.

A escolha das mudas remete à prática defendida por especialistas como o biólogo e ecólogo Ricardo Rodrigues, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (USP/Esalq), para quem “a restauração ecológica bem-sucedida deve integrar diversidade de espécies nativas, conhecimento tradicional e engajamento social”.

Primeiros sinais de regeneração

Com o solo reconstituído e as mudas em crescimento, o local já apresenta sinais de regeneração: espécies da fauna nativa passaram a frequentar a área, um indicativo biológico de recuperação do ecossistema. O projeto também provocou um efeito social. Moradores da região acompanham a transformação com interesse e, segundo o grupo, demonstram orgulho pela requalificação do espaço antes marginalizado.

A experiência consolida o protagonismo da juventude rural em iniciativas sustentáveis. Mais do que reflorestar, os jovens do Agrofronteiras demonstram que é possível aliar conhecimento técnico, ação coletiva e consciência ambiental para transformar passivos ambientais em bens sociais. Agora, com o reconhecimento estadual, o grupo planeja formalizar uma associação e expandir a atuação para outras áreas degradadas do município.

Cenário mais amplo

O caso de Ponta Porã se insere em um debate nacional sobre o destino de áreas urbanas degradadas. Segundo o IBGE (2021), mais de 3 mil municípios brasileiros ainda possuem lixões ou locais de descarte inadequado de resíduos sólidos. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, sancionada em 2010 (Lei nº 12.305/2010), estabeleceu prazos para o fim dos lixões, mas a implementação segue lenta, especialmente em cidades de médio e pequeno porte.

Experiências como a do Agrofronteiras apontam caminhos possíveis, desde que acompanhadas de políticas públicas eficazes, financiamento técnico e participação social. Como destaca a ambientalista Marina Silva, atual ministra do Meio Ambiente, “a transição ecológica depende do envolvimento das comunidades e da juventude. São eles os novos guardiões da terra”.

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