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Mato Grosso do Sul
João Henrique Catan teceu os elogios ao justificar pedido de CPI da Cassems
Publicado em 27/05/2025 2:02 - Semana On
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Mato Grosso do Sul voltou ao centro de um debate nacional sobre integridade pública, corrupção e interesses cruzados entre representantes políticos e empresas suspeitas. Em setembro de 2024, o deputado estadual João Henrique Catan (PL) subiu à tribuna da Assembleia Legislativa para defender com entusiasmo a empresa Prevident Assistência Odontológica S.A., descrevendo-a como “séria”, “consolidada” e com “mais de 37 anos de atuação”. O discurso, feito para justificar a proposição de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra a Cassems, instituição de assistência à saúde dos servidores estaduais, foi recebido com perplexidade meses depois — quando a Prevident apareceu no epicentro de um esquema bilionário de fraudes no INSS.
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O caso reacende discussões fundamentais sobre ética na política, o uso da máquina pública como instrumento de interesses privados e os limites entre atuação parlamentar e lobby disfarçado. À época, Catan criticava a rescisão do contrato entre a Suda Odonto, conveniada da Cassems, e a Prevident, alegando que isso traria prejuízos ao atendimento dos servidores públicos. “A empresa Prevident, que é uma empresa séria, tem mais de 20 mil dentistas, um milhão e duzentos mil usuários e beneficiários”, declarou, em sessão realizada no dia 17 de setembro de 2024.
No entanto, nenhum prejuízo foi registrado. A Cassems manteve a qualidade dos atendimentos odontológicos aos servidores, desmontando a narrativa de urgência usada pelo parlamentar para pressionar a instalação da CPI. Meses depois, o nome da Prevident explodiria nas manchetes policiais como um dos principais beneficiários de um esquema que desviou mais de R$ 6,2 bilhões de aposentados brasileiros, através de descontos indevidos em folhas de pagamento.
A revelação escancarou não só a fragilidade da fiscalização sobre convênios no setor público, mas também o aparente alinhamento retórico de um parlamentar com uma organização sob investigação da Polícia Federal. A empresa foi citada na Operação Sem Desconto, conduzida pela Controladoria-Geral da União (CGU) e pela PF, após série de reportagens do portal Metrópoles, iniciadas em fevereiro de 2024.

Uma rede complexa de fraudes e ocultações
De acordo com a investigação, a Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (AMBEC) arrecadou ilegalmente R$ 178 milhões dos contracheques de aposentados. O dinheiro, em grande parte, foi repassado à Prevident, uma das empresas do conglomerado Total Health Group (THG), controlado pelo empresário Maurício Camisotti. A ligação entre a AMBEC e a Prevident se dava por meio de personagens-chave, como Maria Inês Batista de Almeida, ex-auxiliar de dentista e então presidente da associação, com passagens por empresas do grupo.
A sede da Prevident, na Vila Olímpia (SP), foi alvo de busca e apreensão em abril de 2025, por ordem do juiz federal Massimo Palazzolo. A movimentação financeira da empresa evidenciou o uso de laranjas e triangulações comerciais para lavar os recursos desviados do INSS, prejudicando diretamente cerca de 9 milhões de aposentados brasileiros, a maioria em situação de vulnerabilidade social.
A relação temporal entre o discurso de Catan e os indícios já conhecidos sobre as fraudes chama atenção. Quando o deputado defendeu publicamente a Prevident, os primeiros sinais da fraude já estavam em circulação na imprensa, com ampla repercussão nos meios digitais e especializados. A riqueza de detalhes apresentada pelo parlamentar em plenário — número de dentistas, usuários, tempo de mercado — causou estranheza entre colegas da Assembleia e aprofundou as suspeitas sobre o real motivo da tentativa de CPI contra a Cassems.
A resposta oficial e a crise de confiança
Após a repercussão do caso, o deputado João Henrique Catan divulgou uma nota afirmando que “qualquer ilegalidade tem que ser investigada e apurada” e que “não tem ligação nem conhecimento com a empresa”. Segundo ele, suas declarações foram motivadas por reclamações de servidores sobre atrasos nos repasses de pagamentos pela Suda. Contudo, a tentativa de redirecionar as críticas à Suda Odonto não esclarece a defesa enfática de uma empresa que já figurava como suspeita em investigações federais.
A conduta levanta uma questão maior: como representantes públicos devem lidar com denúncias vindas de entidades privadas, sem se tornarem porta-vozes de interesses particulares ou, pior, cúmplices involuntários de fraudes? Em contextos democráticos, a função do parlamentar não é a de atuar como defensor de empresas em conflito com o interesse público, mas sim como fiscal da legalidade e da ética institucional.
Para o sociólogo Jessé Souza, “o Estado brasileiro é frequentemente capturado por interesses econômicos que se valem de discursos moralizantes para esconder práticas patrimonialistas” (A Elite do Atraso, 2017). O caso da tentativa de CPI da Cassems pode ser interpretado justamente sob essa ótica: um uso da estrutura legislativa para legitimar pressões externas e possivelmente evitar o escrutínio sobre contratos públicos.
Um alerta à cidadania
O caso reverbera como alerta sobre a transparência no uso da tribuna parlamentar e a responsabilidade política diante de suspeitas de corrupção institucional. O controle social — exercido pela imprensa, pelos órgãos de controle e pela sociedade civil — permanece essencial para evitar que o discurso político seja manipulado para proteger estruturas de poder travestidas de eficiência empresarial.
Enquanto as investigações sobre o caso Prevident avançam, a tentativa de instaurar uma CPI contra a Cassems se dissolve no tempo, como tantas comissões evocadas não para apurar, mas para desviar o foco. Neste episódio, Mato Grosso do Sul não foi apenas cenário, mas síntese de uma tragédia democrática: o risco da representação pública degenerar-se em representação de interesses opacos.
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