13/06/2024 - Edição 540

Mato Grosso do Sul

Com tecnologia e inclusão, ensino público de MS quebra paradigmas para construir escola do futuro

Com educação para o mercado de trabalho, alunos da rede estadual garantem primeiro emprego

Publicado em 20/09/2023 11:08 - Semana On

Divulgação Bruno Rezende - MS Gov

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Subir a rampa na entrada da Escola Estadual Maria Constança de Barros Machado hoje é mais que chegar a um colégio tradicional da rede pública sul-mato-grossense. Se outrora o local fora lembrado apenas por sua arquitetura inspiradora, assinada por Niemeyer, agora o espaço vai além: referência em inovação, tem a digitalização como instrumento de aperfeiçoamento do ensino, que aliados a outros elementos, conta com a inclusão como seu principal mote.

O conceito de ‘Escola do Futuro’ que a Rede Estadual de Ensino vem ampliando dia a dia, mês a mês em todo Mato Grosso do Sul, passa pelo advento da tecnologia e todos os seus benefícios, mas vai mais adiante com um modelo onde direção e professores são mais acessíveis aos estudantes, que também possuem participação ativa e integral na rotina escolar. Para atender quase 190 mil estudantes, os investimentos em educação nas 348 unidades escolares chegam a R$ 2,733 bilhões.

Tudo começa na sala de aula com uma formatação diferente. No lugar do quadro preenchido com giz, frente a carteiras dispersas em frente, meio e fundo da sala, entram lousas digitais conectadas à internet. Ao lado, um quadro branco de preenchimento com canetão auxilia o professor, assim como outro quadro, de vidro, fica no fundo.

“A lousa digital auxilia muito. Os alunos podem participar mais, ir até a lousa e fazer junto ao professor experimentos e simulações nesse formato digital. Ajuda a entender o conhecimento, ver o que está acontecendo. Você pode colocar várias mídias, Power Point com animações. É bem útil e incentiva a interação do aluno com o conhecimento”, comenta o professor de Física, Marco Aurélio Marques, que aprova o modelo e o vê como um diferencial.

“Na escola tradicional, o aluno fica da porta para o fundo e o quadro na frente. Agora não, tendo a frente e o fundo nesse formato, a sala fica maior, fica mais dinâmica. Você interage mais, o aluno procura, vai onde está o professor. Não tem mais grupos de fundão. A sala está espalhada, ficou bastante interessante”, completa o Marques.

Se em uma ponta os professores se sentem agraciados com as novas tecnologias que chegam às escolas, na outra estão os estudantes, os principais beneficiados com as mudanças que a ‘Escola do Futuro’ trouxe para as escolas estaduais de Mato Grosso do Sul.

“São tecnologias que facilitam bastante. Você aprende mais na prática, não fica só na teoria. Em Matemática, que eu tenho mais dificuldade, isso ajuda bastante a fazer as contas sem tanta dificuldade. Na aula de Física a gente consegue contar quantidades com mais facilidade, algo que no quadro normal é mais difícil”, comenta Vitor Alexander.

Aluno do 1°C do Maria Constança, Vitor tem 16 anos e chegou este ano a escola, oriundo da rede municipal. “Esse ensino diferente que peguei aqui certamente vai me ajudar bastante. Tenho dificuldade na área de exatas, então não posso reclamar. Essa tecnologia atrai mais os alunos”, conclui o jovem, enquanto faz cálculos de densidade na lousa digital.

Fora da sala, a escola integral

Ser uma escola de ensino integral vai além de oferecer turno e contraturno dentro dos muros escolares. A metodologia aplicada, as atividades oferecidas, a infraestrutura para que tudo isso aconteça, os recursos humanos e até a alimentação fazem parte de uma gama de elementos capazes de ofertar um conhecimento e preparação integral para os estudantes.

“Quando a gente fala em escola do futuro, ela envolve tecnologia, mas não é tecnologia solta. Tem que ter um objetivo. É uma escola que atrai o estudante. Então, qual que é o nosso foco na escola do futuro? É ter um espaço de aprendizagem que o estudante explore a conectividade, é uma escola que trata o lixo, que faz conexão com gás natural. Estamos começando a instalar energia solar nas escolas”, frisa o secretário de Estado de Educação, Hélio Daher.

O chefe da pasta ainda destaca que existem conceitos que aplicados nas escolas são vivenciados pelos alunos e, assim, carregados por eles durante toda a vida. Isso reflete posteriormente em várias situações, até nas práticas correntes do mercado de trabalho.

“Estamos modernizando os parques tecnológicos das escolas, modernizando o acesso dos nossos estudantes. Hoje o professor de Ensino Médio recebe um tablet da Secretaria de Educação para poder trabalhar com os estudantes, então há um investimento pesado. Temos também que ensinar o estudante a utilizar a tecnologia a favor de aprendizagem. Tem que mostrar como utilizar a internet para o lado bom da coisa. Isso é um desafio que a gente investe”, comenta.

A formação de professores para lidar também com tais transformações é outro item citado por Hélio, explorando assim a tecnologia e o acesso à internet a favor dele. “Estamos montando uma escola sustentável, moderna e tecnológica”, conta Daher, completando.

“É por isso que a gente está investindo tão pesado em reformas de escola. A escola, além de tudo, tem que ser nova, bem estruturada, segura. A escola do futuro também é uma escola segura, monitorada. As nossas escolas hoje são todas videomonitoradas. Temos hoje talvez o centro de monitoramento mais moderno do Brasil. Então, isso é uma escola de futuro, que entrega para a sociedade todo esse pacote, justamente para a sociedade confiar na nossa escola”.

Uma escola de inclusão, para todos

“O Pedro tem sido muito bem cuidado, o que nos faz pensar em levar nosso outro filho, o Gabriel, para lá também, se conseguir vaga, pois é uma escola muito concorrida”. A frase é de Elizangela Dias, mãe de um jovem autista com inúmeros elogios ao trabalho do Maria Constança e que pretende, em breve, levar o outro filho da rede privada para lá.

A situação não é incomum para Reinaldo Schmitd, diretor da escola e que conta já ter recebido vários alunos que estavam em colégios particulares. “Vieram, não querem mais sair. Conheceram a metodologia de ensino, viram nossa estrutura, e ficaram de vez”, conta.

Já Elizangela vivencia diariamente a mudança de vida que a escola trouxe para sua família. “A experiência do Pedro serviu para a gente ver que é possível. Ele não tinha esse ânimo que hoje tem para ir à escola. Antes ele não gostava, ia na marra. Hoje o caminho é o inverso, se precisar faltar para alguma consulta, é uma verdadeira luta, pois ele não quer faltar”.

“No início eu pensava: como uma criança que não gosta de ir para a escola vai ficar em período integral. A gente achou que não ia funcionar, mas deu tudo certo. No caso do Pedro já no início das aulas ele teve um professor para o acompanhar. Existe uma acessibilidade da família, simplificado a todo corpo técnico da escola. Facilita”, conclui Elizangela.

Com educação para o mercado de trabalho, alunos garantem primeiro emprego

O ensino voltando ao mercado de trabalho, com qualificação adequada, acompanhamento e direcionamento para o primeiro emprego, já é realidade em Mato Grosso do Sul. No ensino médio, ou na educação profissional exclusiva, os alunos da Rede Estadual de Ensino podem estudar nos eixos de Gestão e Negócios, Recursos Naturais, Informação e Comunicação, Ambiente e Saúde, além de Controle e Processos Industriais.

Na prática, os estudantes têm acesso a itinerários formativos com conteúdo específico em Administração, Agricultura, Agroecologia, Agronegócio, Agropecuária, Ciência de Dados, Comércio, Mecatrônica, Meio Ambiente, Recursos Humanos, Serviços Jurídicos, Tecnologia e Computação, entre outros.

“Disponibilizamos 19 cursos de educação profissional, com três qualificações em cada ano do ensino médio. Então, são mais de 50 qualificações disponíveis. Atualmente, 80% da oferta é por meio dos itinerários formativos, no ensino médio”, afirmou Pedro Augusto Evangelista, gerente da unidade de educação profissional, da SED (Secretaria de Estado de Educação).

O trabalho cuidadoso permite que os jovens alunos, em Campo Grande e no interior, sejam inseridos no mercado de trabalho, na área que já estudam.

Heloísa Guizo dos Santos, 15 anos, é uma das estudantes que faz o itinerário de atendente jurídico na EE João Magiano Pinto, em Três Lagoas, onde também – há 3 meses – foi contratada pelo Programa de Aprendizagem Profissional.

Animada com o primeiro emprego, a adolescente já enumera as conquistas e faz planos para o futuro. “Eu guardo uma parte do que recebo e também ajudou em casa. Minha mãe estipula um valor e contribuo todo mês. Além disso, eu pago um curso de inglês. E eu quero, no futuro, fazer vestibular e cursar Direito, é uma área que eu gosto muito”, disse a jovem.

Na EE João Magiano Pinto, em Três Lagoas, jovens saem preparados para enfrentar o mercado de trabalho (Foto: divulgação)

A diretora da Escola Estadual João Magiano Pinto, Lourdes de Souza, confirma que os estudantes ficam ainda mais motivados em continuar estudando, quando há possibilidade de ingresso no mercado de trabalho.

“Somos uma escola que é entidade qualificadora, e fomos uma das primeiras do Estado, com projeto piloto na área. Muitos alunos querem trabalhar, então a gente oferece o ensino médio parcial com o itinerário de qualificação profissional. E é um sucesso”.

A escola tem 1,4 mil alunos, com ensino fundamental e médio regular e também ensino médio integral. “Nossos alunos escolhem se querem ficar no ensino médio integral ou parcial. Temos 16 turmas de ensino médio parcial e onze fazem o itinerário de qualificação profissional, que representa 68% do nosso público. São 30h semanais, com 20h atendendo a base comum que são aulas de matemática, português e as outras disciplinas regulares. E 10h de qualificação”.

Lourdes Guijo dos Santos, mãe de Heloísa, é só orgulho ao falar das duas filhas, a mais velha – Isabela – também já foi aluna da EE João Magiano. “A Isabela faz faculdade e atualmente trabalha como estagiária na área de ciências contábeis. Eu estipulei uma quantia para as duas contribuírem em casa, penso que precisam ter responsabilidade e compromisso. No caso da Heloísa, a escola tirou uma adolescente do abismo. Ela amadureceu e começou a visualizar o que gosta de fazer, graças a forma como conduzem o ensino”.

No início, a mãe ficou receosa por pensar que a educação profissional poderia atrapalhar o dia a dia escolar. “Achei que seria puxado estudar e trabalhar, e que prejudicaria as notas dela. Mas foi o contrário ela melhorou nos estudos, é muito dedicada, não fica mais no celular e na televisão. Além de conversar mais e pensar no futuro”.

Ao lado de outros colegas e estagiários da escola, Heloísa – que está no 1° ano do ensino médio – comemora a oportunidade e reconhece o esforço para conciliar tudo. “Eu preciso me organizar bem para fazer as atividades da escola, o curso de inglês e trabalhar. Mas a gente está sendo bem orientado e está dando certo”.

Izabelli Vitória do Nascimento, 16 anos, é aluna do 2° ano do ensino médio e escolheu o itinerário de assistente de gestão de dados. E para conseguir cumprir os compromissos com a escola, o trabalho e curso extra, investiu no próprio meio de locomoção. “Com o meu primeiro salário eu parcelei uma bicicleta, assim consigo ir mais rápido de um lugar para outro. É muito bom trabalhar no mesmo lugar que eu estudo, é diferente”.

Lucas de Araújo, 16 anos, também sonha com a carreira jurídica e na escola já iniciou a preparação para realizar o sonho. “A escola está me dando uma base importante. Eu já fiz itinerário de atendente jurídico, agora faço de auxiliar judicial e no ano que vem vou fazer de assistente de serviços jurídicos. Aprendo muito e gosto da área do direito trabalhista”.

Atualmente a qualificação profissional atende 18 mil alunos – a maior parte dentro do itinerário formativo do ensino médio –, em 196 escolas em todo o Mato Grosso do Sul.

“É uma ação que tem sido o principal elo de ligação entre o estudante com o mercado, garantindo a continuidade da aprendizagem profissional. O Estado tem aproximadamente 20% dos alunos atendidos na área, acima da média nacional que é de 11%. E estamos trabalhando para expandir ainda mais”, disse Pedro Evangelista, gerente da SED.

Campo Grande

No CEEP (Centro Estadual de Educação Profissional) Professora Ceep Profª Maria de Lourdes Widal Roma, na Moreninha, em Campo Grande, as aulas são específicas e dinâmicas. Em uma das turmas do 1° ano do ensino médio, a aula de Teoria Geral do Consumidor foi cheia de novos aprendizados.

“Eles ficam curiosos, quando é algo que envolve o dia a dia deles, como é a questão do direito do consumidor. Na escola, eles acabam tendo uma base e se identificam com o que é estudado, já abre possibilidades para pensarem em um curso superior na área, pode ser Administração, Contabilidade, ou Direito mesmo, afinal em todas é necessário conhecer as leis”, afirmou a professora Keis Graziela Paixão, graduada em Direito.

Wilson da Rocha Rodrigues, diretor do CEEP Professora Maria de Lurdes Vidal Roma, relata o longo caminho trilhado pela unidade até conquistar a confiança da comunidade escolar. Implantada em 2007, a educação profissional na escola substituiu o ensino fundamental até então oferecido, e a mudança transformou a vida dos moradores de um dos maiores bairros da Capital.

“Isso é uma história de orgulho para nós enquanto instituição. É muito bom encontrar ex-aluno que hoje é advogado, por conta do curso de Serviços Jurídicos. Ou se tornou administrador por conta do curso de Administração que ele fez aqui. Toda a formação que a gente dá para os estudantes é tão importante! Porque transforma a vida dos alunos. Isso é muito legal, é fantástico”.

Mãe de um aluno da escola e de outro que cursa Direito, Luciana Silva, reconhece a participação da escola no sucesso dos filhos. “Eu fico muito feliz que eles gostam de estudar e estão indo bem. Os dois sempre foram muito esforçados. É uma sensação de dever cumprindo. Não tem outro caminho a não ser estudar e se dedicar. O mais velho, Gabriel, conseguiu o primeiro emprego como menor aprendiz, porque fez o curso de Administração na escola, foi muito bom para ele, o que abriu as portas mesmo”.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *