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Mato Grosso do Sul
PEC da Blindagem avança com manobra regimental e favorece parlamentares sob investigação: eleitores devem lembrar os nomes nas urnas
Publicado em 18/09/2025 9:55 - Semana On
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Em uma votação marcada por manobras regimentais e evidente retrocesso democrático, a Câmara dos Deputados aprovou ontem (17) a retomada do voto secreto na chamada PEC da Blindagem, com 314 votos favoráveis e 168 contrários. A medida, que favorece diretamente ao menos nove parlamentares sob investigação no STF, teve o apoio de cinco dos oito deputados federais de Mato Grosso do Sul. A decisão ameaça enfraquecer os mecanismos de responsabilização parlamentar e acende um alerta sobre o avanço da impunidade no Congresso Nacional.
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A favor do sigilo votaram Beto Pereira (PSDB-MS), Dagoberto Nogueira (PSDB-MS), Dr. Luiz Ovando (PP-MS), Marcos Pollon (PL-MS) e Rodolfo Nogueira (PL-MS) — nomes que os eleitores sul-mato-grossenses fariam bem em não esquecer. Do outro lado, Camila Jara (PT-MS), Geraldo Resende (PSDB-MS) e Vander Loubet (PT-MS) mantiveram posição em defesa da transparência, votando contra o retorno do sigilo.
Uma afronta institucional travestida de tecnicalidade
O retorno do voto secreto ocorreu por meio de uma emenda aglutinativa apresentada de última hora, articulada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que ignorou o princípio constitucional da unicidade temática por sessão legislativa. A reinclusão da cláusula que garante sigilo nas deliberações sobre investigações e prisões de parlamentares já havia sido derrotada anteriormente — o que, pela interpretação de juristas e partidos de oposição, impediria sua reintrodução no mesmo período legislativo, conforme prevê o artigo 60 da Constituição Federal.
A PEC aprovada determina que toda ação judicial contra deputados e senadores passe, antes, por uma votação secreta no Congresso, com necessidade de maioria absoluta, e estabelece que prisões em flagrante também passem por crivo secreto em até 24 horas. Ou seja, mesmo em casos de crimes graves, a proteção ao parlamentar se sobrepõe à celeridade e à transparência da justiça.
A medida ainda equipara os presidentes de partidos com representação no Congresso ao Presidente da República e ministros de Estado, garantindo-lhes julgamento exclusivo pelo STF em caso de crime comum — uma blindagem adicional para lideranças partidárias muitas vezes envolvidas em esquemas de corrupção.
A história se repete — como farsa e como ameaça
O voto secreto no Parlamento brasileiro remonta ao período imperial, mas ganhou protagonismo negativo durante o regime militar (1964–1985), quando foi utilizado para esconder decisões arbitrárias e perseguir opositores do regime. Com a redemocratização, o Congresso passou a restringir gradualmente o uso do voto sigiloso, culminando em 2013 com a promulgação da Emenda Constitucional nº 76, que extinguiu o voto secreto em votações de cassação de mandato e vetos presidenciais, ampliando a transparência e a responsabilização.
A aprovação da PEC da Blindagem, portanto, representa um brutal retrocesso institucional. Como observou o jurista e ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto, em entrevista à Folha de S.Paulo, “não há democracia sem luz; o segredo é irmão siamês da arbitrariedade”. Retomar o sigilo em votações que tratam de crimes cometidos por parlamentares é reinstaurar uma cultura de impunidade que a sociedade brasileira vem há décadas tentando enterrar.
Um Congresso contra o cidadão
A lógica que move a PEC é clara: blindar os próprios membros contra o alcance da lei. A prerrogativa de foro já representa, por si só, uma exceção controversa à igualdade jurídica. Ao permitir que o Congresso delibere, em segredo, sobre a continuidade de ações judiciais ou prisões, a Câmara cria um escudo quase absoluto para quem deveria prestar contas ao povo.
Mais grave ainda é o simbolismo desse movimento em um contexto de desconfiança generalizada na política, com um Legislativo que frequentemente age em descompasso com os interesses e valores da população. Segundo dados do Datafolha (2023), apenas 16% dos brasileiros confiam no Congresso Nacional — um dos índices mais baixos da série histórica. A aprovação dessa PEC tende a afundar ainda mais essa credibilidade.
O papel do eleitor na resistência democrática
A decisão final ainda poderá ser contestada no Supremo Tribunal Federal, que deve ser provocado pelas bancadas do PSOL, PT, PSB e Novo. Mas, independentemente do desfecho jurídico, é fundamental que o eleitor atue como juiz político nas próximas eleições.
Guardar os nomes dos parlamentares que votaram pelo sigilo — especialmente os de Beto Pereira, Dagoberto Nogueira, Dr. Luiz Ovando, Marcos Pollon e Rodolfo Nogueira — não é apenas um ato de memória, mas um exercício de responsabilidade democrática. Como afirmou o filósofo político Norberto Bobbio, “a democracia é o governo do poder visível”. Quando representantes do povo optam deliberadamente pelo obscurantismo, rompem o pacto democrático que justifica seu mandato.
O Brasil entre a transparência e a tutela dos privilegiados
O avanço da PEC da Blindagem expõe a tensão permanente entre duas forças na política brasileira: de um lado, a sociedade civil, que exige mais transparência, ética e justiça; de outro, uma elite parlamentar que se movimenta para preservar seus próprios privilégios e escapar do alcance da lei. O voto secreto, nesse contexto, não é um detalhe regimental — é uma arma política usada contra o interesse público.
A democracia brasileira, ainda frágil e jovem, não pode tolerar retrocessos dessa magnitude sem reação. Informar-se, denunciar e votar com consciência são os primeiros passos para impedir que o Parlamento se transforme em um território de imunidade seletiva, blindado contra a justiça e impermeável à vontade popular.
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