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Mato Grosso do Sul
Doença exige atenção imediata aos sintomas e pode deixar sequelas permanentes
Publicado em 11/05/2026 8:51 - Semana On
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Mato Grosso do Sul atravessa, em 2026, a mais grave escalada de chikungunya já registrada em sua série histórica. Em apenas quatro meses, o Estado contabilizou 10.855 casos prováveis da doença, número que corresponde a pouco mais da metade de todos os registros acumulados ao longo da última década. Segundo dados da SES (Secretaria Estadual de Saúde), entre 2016 e 2025 foram contabilizados 21.282 casos. Agora, antes mesmo do encerramento do primeiro quadrimestre, os registros atuais já equivalem a 51% desse total.
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O avanço acelerado também se reflete no número de mortes. Desde janeiro, 16 pessoas morreram em decorrência da chikungunya em Mato Grosso do Sul, enquanto outros dois óbitos seguem em investigação. Na comparação histórica, o impacto chama atenção: entre 2016 e 2025, houve 24 mortes confirmadas laboratorialmente no Estado. Isso significa que, em apenas quatro meses, 2026 já concentra dois terços das mortes registradas na década.
Até poucos anos atrás, a circulação do vírus em Mato Grosso do Sul era considerada limitada. Entre 2015 e 2021, os casos anuais oscilaram entre nove e 271 registros. O cenário começou a mudar em 2022, quando o Estado confirmou 596 casos. Nos dois anos seguintes, houve nova aceleração, com aproximadamente 2,7 mil pessoas infectadas por ano.
A explosão epidemiológica ocorreu, de fato, em 2025. Naquele ano, Mato Grosso do Sul registrou 14.148 casos e 17 mortes, consolidando a maior epidemia da doença até então. Em 2026, porém, a curva de crescimento já supera a do ano passado. Os dados parciais mostram que abril deste ano teve aumento de 114% em relação ao mesmo período de 2025. O salto foi de 2,6 mil para 5,7 mil casos em apenas um mês.
A Secretaria Estadual de Saúde relaciona o agravamento da situação ao aumento da circulação viral observado desde 2023, período em que o Paraguai enfrentou uma epidemia de chikungunya. Segundo a pasta, a intensificação do fluxo viral ocorreu inicialmente na faixa de fronteira e, posteriormente, avançou para outras regiões do Estado. Não por acaso, os primeiros focos de maior transmissão em 2026 surgiram justamente em municípios fronteiriços.
A SES também atribui o crescimento dos casos ao contingente de pessoas que ainda não havia sido exposto ao vírus, o que favoreceu a rápida disseminação da doença. A secretaria afirma manter ações permanentes de combate às arboviroses, especialmente com medidas voltadas à eliminação do mosquito Aedes aegypti, principal vetor da chikungunya.
Mas a expansão da doença também escancara problemas estruturais e desigualdades sociais que favorecem a transmissão viral. No início deste ano, as aldeias Jaguapiru e Bororó, localizadas na Reserva Indígena de Dourados, tornaram-se o principal epicentro da chikungunya em Mato Grosso do Sul. Mais de 20 mil pessoas vivem na área, considerada a maior reserva indígena do país.
Dados da prefeitura indicam que 2.475 casos foram confirmados entre indígenas, o equivalente a cerca de um quarto de todas as ocorrências registradas no Estado. Entre as 15 mortes inicialmente contabilizadas pela doença, nove ocorreram entre indígenas, evidenciando o impacto desproporcional da epidemia sobre populações vulneráveis.
A crise sanitária também evidenciou problemas históricos nas aldeias. A ausência de abastecimento regular de água faz com que moradores armazenem água em recipientes improvisados e, muitas vezes, abertos, criando ambientes favoráveis à proliferação do mosquito transmissor. Soma-se a isso a dificuldade de acesso à informação sobre prevenção e formas de transmissão da doença.
Além do avanço regional, Mato Grosso do Sul se consolidou como o principal foco nacional da chikungunya em 2026. O Estado lidera todos os principais indicadores relacionados à doença no país. A incidência estadual chegou a 371,5 casos por 100 mil habitantes, índice quase 20 vezes superior à média brasileira, de 18,7 casos por 100 mil habitantes.
Atrás de Mato Grosso do Sul aparecem Goiás, com incidência de 126,3; Minas Gerais, com 46,7; Rondônia, com 42,9; Mato Grosso, com 22,5; Tocantins, com 16,8; e Rio Grande do Norte, com 14,6 casos por 100 mil habitantes.
A concentração de mortes no Estado também chama atenção no cenário nacional. Das 23 mortes confirmadas por chikungunya em todo o Brasil neste ano, 16 ocorreram em Mato Grosso do Sul — o equivalente a 69,5% do total.
Os óbitos estão distribuídos em quatro municípios. Dourados concentra a maior parte das mortes, com dez registros. Na sequência aparecem Bonito, com três mortes; Jardim, com duas; e Fátima do Sul, com uma. Segundo a SES, 76 dos 79 municípios sul-mato-grossenses já registraram casos da doença.
A taxa de incidência estadual também supera parâmetros utilizados em outras unidades da federação para caracterização de situações críticas. Em São Paulo, por exemplo, a emergência sanitária relacionada à dengue foi decretada quando a incidência ultrapassou 300 casos por 100 mil habitantes — patamar considerado muito alto. Em Mato Grosso do Sul, a chikungunya já alcança 351,1 casos por 100 mil habitantes.
Apesar disso, a SES-MS afirma que a incidência isoladamente não define uma epidemia estadual. Em nota, a secretaria afirma que o indicador é relevante para medir a intensidade da transmissão, sobretudo em âmbito municipal, mas ressalta que outros fatores são considerados na avaliação epidemiológica.
Entre os critérios apontados pela pasta estão o crescimento sustentado dos casos em relação à série histórica, a disseminação da doença entre os municípios, a confirmação da circulação viral, a pressão sobre os serviços de saúde e a ocorrência de casos acima do esperado para determinado período e território.
Os números mais recentes reforçam a velocidade da propagação. Apenas entre os dias 18 e 25 de abril, Mato Grosso do Sul registrou mais 1.295 casos prováveis de chikungunya, um aumento de 17% em apenas sete dias. A SES reconhece que os dados atuais representam os maiores já registrados na série histórica do Estado, com circulação viral presente em praticamente todas as cidades sul-mato-grossenses.
“Os critérios adotados seguem parâmetros nacionais e internacionais, especialmente os estabelecidos pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde, sempre considerando a realidade epidemiológica local”, afirmou a secretaria, em nota.
Vacinação
Diante da rápida disseminação da chikungunya no sul de Mato Grosso do Sul, o governo estadual intensificou nesta semana a estratégia de vacinação em Dourados, Itaporã e comunidades indígenas da região. A nova etapa da força-tarefa mobiliza equipes da SES (Secretaria de Estado de Saúde), municípios e os DSEIs (Distritos Sanitários Especiais Indígenas), com apoio logístico dos chamados Vacimóveis — unidades itinerantes utilizadas para ampliar o alcance da imunização.
Um veículo foi direcionado para cada frente de atuação: Dourados, Itaporã e Saúde Indígena. Equipados para armazenamento e transporte adequado dos imunizantes, os Vacimóveis passaram a funcionar como estrutura de apoio às equipes em campo, especialmente em localidades mais afastadas e com limitações de acesso à rede convencional de saúde.
A estratégia ocorre em meio ao agravamento do cenário epidemiológico da chikungunya no Estado e concentra esforços justamente nas áreas classificadas como prioritárias pela elevada circulação viral e maior vulnerabilidade social.
Inicialmente, a SES encaminhou 9 mil doses da vacina, sendo 3 mil destinadas diretamente a Dourados e outras 6 mil ao Núcleo Regional de Saúde, responsável pela redistribuição aos municípios da região conforme a capacidade local de armazenamento na rede de frio.
Com o avanço da doença para outras cidades do sul do Estado, a campanha foi ampliada para Amambai, Batayporã, Douradina e Sete Quedas. Segundo a secretaria, a definição dos municípios contemplados levou em consideração critérios técnicos e indicadores epidemiológicos.
A expansão da vacinação também provocou um rearranjo na distribuição das doses. Parte dos imunizantes inicialmente reservados para Dourados será remanejada para atender os novos municípios incluídos na estratégia. Nesta fase, a previsão é de que 14,4 mil doses sejam distribuídas proporcionalmente à população de cada cidade, com retirada organizada por meio do Núcleo Regional de Saúde de Dourados.
Além do transporte das vacinas, os Vacimóveis passarão a atuar de forma itinerante nos municípios incorporados à nova etapa da campanha, reforçando tanto o suporte logístico quanto a aplicação descentralizada das doses.
Durante as ações realizadas nas aldeias indígenas, equipes estaduais acompanharam não apenas a vacinação, mas também iniciativas sociais e educativas voltadas à prevenção de doenças e promoção da saúde. A atuação integrada entre diferentes esferas da administração pública é tratada pelo governo como peça central para tentar conter o avanço da chikungunya nas regiões mais afetadas.
A secretária-adjunta estadual de Saúde, Crhistinne Maymone, afirmou que o uso dos veículos equipados permite ampliar a capacidade de resposta diante da epidemia. Segundo ela, os Vacimóveis tornam possível alcançar os territórios prioritários com mais rapidez e eficiência, fortalecendo as ações de proteção da população.
Gerente de Imunização da SES, Frederico Moraes destacou que o trabalho articulado entre Estado e municípios busca garantir maior velocidade na distribuição das doses, aliando logística, equipes técnicas e infraestrutura adequada para ampliar a cobertura vacinal.
Itaporã foi o primeiro município sul-mato-grossense a iniciar a vacinação contra chikungunya. A imunização começou em 18 de abril e, nesta etapa, contempla exclusivamente pessoas entre 18 e 59 anos sem comorbidades. Em Dourados, a aplicação das doses teve início em 27 de abril, alcançando tanto a área urbana quanto as comunidades indígenas.
Mato Grosso do Sul já recebeu 20 mil doses da vacina, embora a previsão total seja de 46,5 mil imunizantes. Deste volume, 7 mil doses foram destinadas ao núcleo regional de Dourados. A SES afirma que a distribuição ocorre de maneira fracionada para respeitar os limites de armazenamento da rede de frio e assegurar a conservação adequada das vacinas.
A campanha, no entanto, possui restrições de público definidas pelas orientações da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Não podem receber o imunizante gestantes, lactantes, pessoas imunossuprimidas, pacientes em tratamento oncológico, transplantados recentes e indivíduos com doenças autoimunes ou determinadas condições crônicas associadas. Também há contraindicação para pessoas com febre ou que tenham recebido recentemente outros tipos de vacina.
Sequelas permanentes
Autoridades sanitárias e especialistas reforçam que o combate à doença depende tanto da eliminação dos focos do mosquito quanto da identificação precoce dos sintomas. A recomendação é que qualquer pessoa com febre repentina e dores intensas nas articulações procure atendimento médico imediatamente, sobretudo idosos e crianças, considerados mais vulneráveis às formas graves da infecção.
Transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, a chikungunya costuma provocar febre alta e dores incapacitantes nas articulações. Em muitos casos, os sintomas surgem de maneira abrupta, comprometendo rapidamente a capacidade física do paciente.
Presidente da Sociedade Sul-Mato-Grossense de Infectologia, a médica Andyane Tetila, que atua no HU-UFGD (Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados), afirma que o atual cenário epidemiológico exige atenção redobrada da população e dos profissionais de saúde.
“Ao menor início de febre e dor nas articulações de forma súbita, hoje, no nosso Estado, é chikungunya até que se prove o contrário”, alerta a infectologista.
Segundo ela, os primeiros sinais geralmente aparecem de forma inesperada, muitas vezes durante a madrugada. “O início é bastante súbito. A pessoa dorme bem, mas, no meio da noite, acorda com uma dor bastante importante nas articulações”, explica.
Além do quadro clássico de febre entre 38°C e 40°C associado às dores nas chamadas “juntas”, o vírus também pode desencadear complicações graves. O Ministério da Saúde alerta para a possibilidade de doença neuroinvasiva relacionada à chikungunya, condição que pode atingir o sistema nervoso central.
Entre os agravos neurológicos associados à infecção estão encefalite, mielite, meningoencefalite, síndrome de Guillain-Barré, síndrome cerebelar, paresias, paralisias e neuropatias. As complicações são consideradas mais frequentes em grupos de risco, especialmente bebês, idosos e pessoas com condições de saúde preexistentes.
Outro fator que preocupa especialistas é a persistência dos sintomas após a fase aguda da doença. Mais da metade dos pacientes infectados pode continuar apresentando dores articulares e limitações físicas por meses ou até anos, o que transforma a chikungunya também em um problema crônico de saúde pública.
Diante do aumento da circulação viral, o Ministério da Saúde reforça medidas preventivas voltadas à eliminação de criadouros do Aedes aegypti, principal forma de reduzir a transmissão da doença. As orientações incluem cuidados domésticos simples, mas considerados decisivos para impedir o acúmulo de água parada.
Entre as recomendações estão manter piscinas tratadas, esticar corretamente lonas utilizadas para cobrir objetos e evitar formação de poças, armazenar garrafas e recipientes virados para baixo e descartar embalagens sem uso.
Também é indicado colocar areia nos pratos de vasos de plantas, armazenar pneus em locais cobertos, manter sacos de lixo bem fechados e limpar regularmente caixas d’água, tonéis e outros reservatórios.
O Ministério ainda orienta a limpeza periódica de calhas, lajes, ralos, bandejas de ar-condicionado e geladeiras, além da eliminação de água acumulada em purificadores e recipientes domésticos. A recomendação é evitar qualquer ambiente que possa servir de criadouro para o mosquito transmissor.
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