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Mato Grosso do Sul

Avanço das onças nas cidades expõe crise ambiental no Pantanal

Felinos em áreas urbanas revelam efeitos do desmatamento, seca e ocupação irregular em MS

Publicado em 15/05/2025 12:19 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A imagem de uma onça-pintada deslizando silenciosa por ruas periféricas de Corumbá não deveria causar surpresa. Ao contrário do que a narrativa urbana muitas vezes sugere, as fronteiras entre o selvagem e o civilizado nunca foram tão nítidas no Brasil. No coração do Pantanal sul-mato-grossense, esse encontro — ora majestoso, ora inquietante — evidencia um embate profundo: o avanço desordenado das cidades sobre a natureza e, por consequência, o avanço da natureza sobre as cidades.

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Corumbá, historicamente um entreposto de navegação e mineração, se vê hoje no centro de uma crise silenciosa. A cidade, que abraça o rio Paraguai e as planícies alagáveis do Pantanal, assiste à presença cada vez mais frequente de onças-pintadas em suas áreas urbanas. Avistamentos de felinos próximos à Polícia Rodoviária Federal, em bairros populosos como Dom Bosco e nas encostas calcárias à beira do rio, se tornaram episódios recorrentes. Não se trata de uma invasão, mas de uma resposta natural à pressão humana sobre o habitat desses predadores.

A falsa novidade do “conflito”

Especialistas como Gustavo Figueirôa, diretor da ONG SOS Pantanal, alertam para um fenômeno que é, antes de tudo, de percepção: “Não há aumento nos ataques ou aproximações das onças. O que existe é um aumento na visibilidade desses episódios. Com celulares em cada bolso e redes sociais funcionando como catalisadoras, situações que sempre existiram agora viralizam”.

Contudo, reduzir o problema à superexposição midiática seria simplista. O Pantanal vive, desde meados da década de 2010, um ciclo de degradação sem precedentes. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), as queimadas em 2020 destruíram aproximadamente 30% da área do bioma — o equivalente a mais de quatro milhões de hectares. Somam-se a isso sucessivos períodos de seca, provocados por alterações no regime hidrológico e agravados pelo avanço do agronegócio em áreas de recarga de aquíferos.

“Os animais precisam se movimentar mais para encontrar água e rotas seguras. Isso os leva, inevitavelmente, a cruzar áreas urbanizadas ou em processo de ocupação irregular”, explica Julio César de Souza, pesquisador da UFMS, em Aquidauana.

Ocupação precária: a outra face do conflito

Essa ocupação irregular não é fruto do acaso. Famílias sem-teto, excluídas das políticas públicas de habitação, encontram refúgio nas bordas frágeis da cidade, como a Cacimba da Saúde, onde a ausência de iluminação pública e infraestrutura básica cria um cenário propício para encontros indesejados com felinos. “As pegadas das onças são visíveis nos mesmos caminhos percorridos por crianças a caminho da escola ou em brincadeiras ao entardecer”, relata Cristina Fleming, diretora-presidente da Fundação de Meio Ambiente do Pantanal.

Diante desse cenário, as ações de orientação comunitária — como a distribuição de folhetos e buzinas de ar para espantar os animais — são paliativos importantes, mas insuficientes. A reativação do Centro de Atendimento Emergencial a Animais Silvestres e a construção do Centro de Reabilitação de Animais Silvestres do Pantanal, com investimento de R$ 5 milhões do Governo do Estado, representam passos estruturais mais consistentes. Contudo, como em todo processo de urbanização desordenada, a raiz do problema exige uma abordagem integrada, que passe pela regularização fundiária, infraestrutura urbana e políticas de conservação ambiental.

Simbolismos, mídia e mercado: a onça como ícone

Em meio ao cotidiano das comunidades ribeirinhas, uma outra narrativa sobre as onças-pintadas se desenvolve, mediada pela cultura pop e pelo mercado verde. Celebridades como o cantor Gilberto Gil, o jogador Richarlison e a influencer Lelê Burnier adotaram onças-pintadas do Pantanal em ações simbólicas promovidas pela ONG Onçafari. Com valores anuais de R$ 35 mil, as adoções financiam ações de monitoramento, pesquisa e conservação.

Gil, ao batizar sua onça de “Divino”, deu voz a uma visão onde a natureza é expressão sagrada da vida. Richarlison, por sua vez, adotou “Acerola”, nome inspirado em um personagem do filme Cidade dos Homens, criando uma ponte entre periferia urbana e vida selvagem. Ainda que simbólicas, tais iniciativas ampliam a visibilidade da causa, mas também evidenciam a distância entre o marketing da conservação e a realidade das famílias que convivem com o risco diário.

O Pantanal espremido: fronteiras ecológicas e sociais

O Pantanal, reconhecido pela UNESCO como Reserva da Biosfera e Patrimônio Natural da Humanidade, é o lar das maiores onças-pintadas do mundo, com machos chegando a 150 kg. Diferentemente das onças da Caatinga, que pesam em torno de 80 kg, os felinos pantaneiros representam um ápice ecológico — e também um desafio para a coexistência com o humano.

Segundo Diego Viana, coordenador do projeto Felinos Pantaneiros, “a presença das onças-pintadas é indicadora da saúde do ecossistema. Sua aproximação de áreas urbanas não deve ser interpretada como uma falha da natureza, mas como uma consequência das nossas escolhas”.

O que se desenha, portanto, é um cenário de fronteiras móveis: não apenas geográficas, mas também sociais e ambientais. As onças que cruzam as ruas de Corumbá são, ao mesmo tempo, vítimas e símbolos — da riqueza biológica do Pantanal e da precariedade das políticas públicas que deveriam garantir o direito à cidade e à natureza.

Coexistir é resistir

A coexistência entre seres humanos e grandes predadores não é utopia. Casos bem-sucedidos em outros biomas, como a convivência com lobos na Europa e ursos nos Estados Unidos, mostram que é possível estruturar protocolos de segurança, educação ambiental e planejamento urbano sensível à biodiversidade. Mas isso exige investimento, vontade política e uma mudança de paradigma: de uma lógica de dominação para uma ética de coexistência.

Fábio Paschoal, biólogo e guia de campo, sintetiza esse desafio: “O bioma sofre com as queimadas, mas isso não faz as onças atacarem humanos deliberadamente. O erro está em associar seres humanos à comida, em alimentar os animais ou invadir seus territórios sem gestão”.

O Pantanal não é apenas um santuário ecológico. É também um campo de disputas por espaço, direitos e narrativas. A onça-pintada, nesse contexto, emerge como símbolo de uma luta maior: pela preservação da biodiversidade, pela dignidade das populações vulneráveis e pela construção de uma relação mais justa e equilibrada entre sociedade e natureza.

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