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Mato Grosso do Sul
Com trecho final de pavimentação em execução e Ponte da Bioceânica em fase avançada, conexão rodoviária entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile promete transformar a dinâmica do comércio internacional e fortalecer a integração sul-americana
Publicado em 16/12/2024 9:28 - Semana On
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A integração física da América do Sul, um antigo sonho geopolítico, ganha contornos concretos com os avanços da Rota Bioceânica, uma megaestrada que conectará o Brasil ao Chile, passando por Paraguai e Argentina. A obra não apenas promete encurtar distâncias logísticas e comerciais, mas também simboliza uma nova era de cooperação regional.
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O último trecho ainda não pavimentado da Rota, que liga Mariscal Estigarribia a Pozo Hondo, no Paraguai, já atingiu 16% de execução. São 224,8 quilômetros que estão sendo preparados pelo Ministério de Obras Públicas e Comunicações (MOPC) do Paraguai. No momento, as atividades incluem desmatamento, conformação de aterros e instalação de cercas, além da provisão de água potável para comunidades indígenas da região.
A ordem de serviço foi emitida em agosto de 2024, e o projeto conta com um aporte financeiro de US$ 354,2 milhões, financiado pelo Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata). Mais de 1.000 trabalhadores estão diretamente envolvidos nas obras, cuja conclusão beneficiará cerca de 225 mil pessoas de forma indireta.
A Ponte da Bioceânica: uma obra de engenharia monumental
Outro pilar fundamental do projeto é a Ponte da Bioceânica, que conectará Porto Murtinho (Brasil) a Carmelo Peralta (Paraguai), atravessando o rio Paraguai. Com 1.294 metros de extensão e uma impressionante seção estaiada de 632 metros, a estrutura terá um vão central de 350 metros e pilares de 130 metros de altura.
A construção, que está a cargo da administração paraguaia da Itaipu Binacional, já atingiu 63,91% de execução, e a previsão é de que seja concluída até março de 2026. As estruturas de concreto armado dos viadutos de acesso estão finalizadas, e a próxima etapa será a montagem das aduelas — componentes que formarão o tabuleiro da ponte — utilizando tecnologia de carros de avanço fornecidos por empresas de São Paulo. Este método construtivo, amplamente utilizado em pontes de grande porte, permite maior precisão e segurança nas operações em altura.
O custo total da obra é de R$ 575,5 milhões, um investimento estratégico que reflete a aposta na integração logística e no fortalecimento das cadeias de exportação.
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Obras no lado brasileiro: integração física e econômica
Do lado brasileiro, o governo também acelera os preparativos para a conexão com a Rota Bioceânica. A construção do acesso entre a BR-267 e a nova ponte, obra orçada em R$ 427 milhões, está sendo executada pelo Consórcio PDC Fronteira com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
O projeto prevê a construção de uma alça rodoviária de 13,1 quilômetros, incluindo o contorno rodoviário de Porto Murtinho e o centro aduaneiro, que será responsável pelo controle fronteiriço. As obras começaram em 20 de setembro e têm prazo de conclusão de 26 meses. No momento, as atividades de limpeza e isolamento do traçado já estão em andamento.
Impacto estratégico e geopolítico da Rota Bioceânica
Mais do que uma simples obra de infraestrutura, a Rota Bioceânica é uma peça-chave na geopolítica regional e no comércio internacional. Quando finalizada, a estrada conectará o Atlântico ao Pacífico, criando um corredor logístico que atravessa quatro países: Brasil, Paraguai, Argentina e Chile.
Essa integração encurta as rotas de exportação brasileiras para a Ásia. De acordo com a Empresa de Planejamento e Logística (EPL), o corredor poderá reduzir em até 9,7 mil quilômetros o percurso marítimo de exportações, permitindo um ganho de 23% no tempo de transporte, o que equivale a cerca de 12 dias a menos no trajeto. Para o agronegócio brasileiro, um dos grandes beneficiados pela obra, o impacto será significativo.
“Essa rota colocará o Brasil em uma posição muito mais competitiva no comércio internacional, especialmente para os mercados asiáticos”, afirmou José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), em entrevista recente. Segundo ele, o agronegócio será o maior beneficiário da obra, mas outros setores também serão impactados positivamente.
O papel geopolítico e a integração regional
A Rota Bioceânica também se insere em uma perspectiva de integração política e geoestratégica entre os países sul-americanos. Desde os anos 1990, projetos de integração física foram propostos no âmbito da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), mas muitos ficaram no papel. A Rota Bioceânica, porém, avança como um dos projetos mais emblemáticos dessa agenda.
Para o professor Luiz Fernando de Paula, especialista em economia internacional pela UFRJ, a obra simboliza um marco no fortalecimento da integração regional. “A Rota Bioceânica é um exemplo de como os países da América do Sul podem reduzir sua dependência de rotas comerciais tradicionais, como os portos do Sudeste brasileiro, e abrir novas possibilidades de inserção no mercado internacional”, destaca.
Além disso, o corredor de transportes contribui para uma maior autonomia regional, pois diminui a dependência de portos controlados por grandes operadores internacionais. Isso permite uma maior margem de manobra para os países sul-americanos em negociações comerciais globais.
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Desafios e perspectivas futuras
Ainda que os avanços sejam inegáveis, a Rota Bioceânica enfrenta desafios típicos de obras de grande porte. O impacto ambiental e a proteção das comunidades indígenas são questões delicadas, especialmente no trecho entre Mariscal Estigarribia e Pozo Hondo, no Paraguai. A provisão de água potável para essas comunidades já está sendo feita, mas organizações de direitos humanos mantêm a atenção voltada para o tema.
Outro desafio é a cooperação multilateral para garantir que as obras sejam concluídas no prazo. Embora a participação de instituições como Fonplata e Itaipu Binacional garanta parte dos recursos, o histórico de atrasos e paralisações em obras do PAC no Brasil levanta preocupações sobre a regularidade do cronograma.
De todo modo, o simbolismo da obra vai além dos desafios logísticos. Ela representa uma oportunidade única para a América do Sul mostrar ao mundo sua capacidade de coordenação e planejamento estratégico. Como disse o sociólogo e ex-presidente do Chile, Ricardo Lagos, em conferência sobre a integração latino-americana, “não basta sonhar com integração; é preciso construí-la, estrada por estrada, ponte por ponte”.
É exatamente isso que a Rota Bioceânica está fazendo: construindo uma nova realidade para a América do Sul, um bloco que, por tanto tempo, foi tratado apenas como promessa. Desta vez, a promessa está saindo do papel e tomando forma no asfalto, no concreto e na geopolítica.
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