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Mato Grosso do Sul

Anotações de Flávio Bolsonaro apontam venda de candidaturas no PL em MS

Pollon e Gianni teriam pedido milhões para não concorrerem ao Governo e ao Senado

Publicado em 26/02/2026 9:01 - Semana On

Divulgação

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Anotações manuscritas do senador Flávio Bolsonaro (PL) indicam que dois aliados em Mato Grosso do Sul — o deputado federal Marcos Pollon e a vice-prefeita de Dourados, Gianni Nogueira — teriam pedido, respectivamente, R$ 15 milhões e R$ 5 milhões para desistirem da disputa ao Senado. Os registros, revelados com exclusividade pela Folha de S.Paulo na quarta-feira (25), expõem um bastidor que, se confirmado, configura indício grave de mercantilização de candidaturas e possível corrupção política no interior do partido.

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O rascunho, escrito em uma folha intitulada “situação nos estados”, lista cenários eleitorais e traz comentários manuscritos feitos durante reunião da cúpula do PL. Ao lado do nome de Pollon, lê-se: “Pollon (pediu 15 mi p/ não ser candidato)”. Ao lado de Gianni Nogueira: “Mulher Rodolpho (pediu 5 mi)”. Ambos negam qualquer pedido financeiro.

Flávio Bolsonaro, embora tenha confirmado a autoria das anotações, afirmou que os supostos pedidos “nunca aconteceram” e que teria registrado comentários ou impressões ouvidas na reunião. Segundo ele, a imprensa estaria “distorcendo” o conteúdo ao sugerir que houve negociação real. A explicação, no entanto, agrava a controvérsia: se não houve pedido, por que registrar valores específicos? E por que o registro foi feito no contexto de articulação de chapas ao Senado?

O episódio ocorre em meio às articulações conduzidas por Flávio sob orientação do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso na Papudinha, em Brasília, e ainda figura central nas decisões estratégicas do partido. A definição das candidaturas ao Senado tornou-se peça-chave para o projeto nacional da extrema-direita, que busca ampliar presença na Casa.

Negativas e contradições

Marcos Pollon afirmou que a anotação “não faz o menor sentido” e classificou o episódio como “campanha de assassinato de reputação”. Disse ainda: “Quem trabalha com militância não precisa de dinheiro. Isso é uma campanha de assassinato de reputação porque sabem que não estou à venda e não me dobro a acordos”.

Gianni Nogueira, mencionada como “Mulher Rodolpho” nas anotações — referência ao deputado federal Rodolfo Nogueira (PL) — também negou qualquer pedido. O marido declarou que não houve negociação financeira e que ela teria apoio do ex-presidente Bolsonaro para eventual candidatura.

A retórica pública, porém, contrasta com declarações anteriores de Pollon. Em entrevista recente, o deputado afirmou que poderia disputar o Senado “se Bolsonaro pedir”. “Se o presidente Bolsonaro me imputar essa missão, não tem como dizer não”, declarou. A frase explicita a lógica verticalizada que rege as decisões do grupo: candidaturas não decorrem de construção partidária institucional, mas de vontade pessoal do líder.

Histórico de radicalização

Eleito em 2022 com forte discurso armamentista, Pollon construiu notoriedade defendendo ampliação do acesso a armas de fogo. No Congresso, apresentou propostas como o projeto “Minha Primeira Arma”, que busca criar incentivos para facilitar a aquisição do primeiro armamento por cidadãos — iniciativa que especialistas em segurança pública criticam por ignorar evidências sobre aumento de circulação de armas e violência letal.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que o número de armas registradas para civis no país mais que dobrou entre 2019 e 2022, período em que o governo Bolsonaro flexibilizou regras de aquisição. Em seu Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023, o Fórum aponta que a ampliação do arsenal civil ocorreu paralelamente a aumento da circulação de armas ilegais e da dificuldade de rastreamento — um debate central que Pollon sistematicamente minimiza.

O parlamentar também é investigado pelo Conselho de Ética da Câmara após participar, em 2025, de um motim promovido por deputados bolsonaristas que ocuparam a Mesa Diretora e bloquearam o funcionamento do plenário como forma de pressionar pela votação do projeto de anistia a envolvidos em atos golpistas. A representação aponta possível quebra de decoro parlamentar. Entre as sanções possíveis estão advertência, suspensão e até perda de mandato, embora esta última seja considerada improvável.

Outro episódio controverso envolve a destinação de cerca de R$ 1 milhão, via emenda parlamentar do tipo conhecido como “emenda Pix”, para a cidade de São Paulo — fora de sua base eleitoral em Mato Grosso do Sul. A prática foi alvo de questionamentos no debate nacional sobre transparência e critérios de distribuição dessas verbas. O Supremo Tribunal Federal (STF) tem reiteradamente imposto limites à execução dessas emendas sem critérios objetivos e mecanismos claros de rastreabilidade.

O problema estrutural

Ainda que os pedidos milionários não tenham ocorrido, como alegam os envolvidos, a simples existência das anotações revela uma cultura política marcada por informalidade, personalismo e ausência de institucionalidade nas decisões partidárias. Em democracias consolidadas, negociações eleitorais seguem critérios partidários transparentes. Quando passam a envolver cifras milionárias — ainda que como rumor — o dano institucional é inevitável.

O cientista político Fernando Limongi, professor da FGV, tem reiterado em estudos sobre o sistema político brasileiro que a fragilidade partidária e o personalismo são traços estruturais que dificultam a consolidação de programas e favorecem barganhas individuais. Limongi aponta que a dinâmica de coalizões no Brasil frequentemente se apoia mais em acordos pragmáticos do que em alinhamentos programáticos — cenário que se agrava quando a liderança partidária se concentra em uma figura carismática e polarizadora.

No caso em questão, o que está em jogo não é apenas a veracidade de um pedido financeiro, mas a naturalização da lógica de mercado aplicada à política. Se candidaturas podem ser retiradas mediante compensação financeira, o processo eleitoral deixa de ser expressão de vontade popular e passa a operar como ativo negociável.

Silêncio institucional

Até o momento, não há anúncio de investigação formal sobre o conteúdo das anotações. O caso permanece restrito ao embate retórico entre imprensa e parlamentares. No entanto, especialistas em direito eleitoral lembram que a compra ou venda de apoio político pode configurar ilícitos eleitorais e até crimes, dependendo da comprovação de vantagem indevida.

A democracia brasileira já atravessou escândalos suficientes envolvendo compra de apoio parlamentar — do “mensalão” aos esquemas revelados na Lava Jato — para que qualquer indício de negociação financeira envolvendo mandatos e candidaturas seja tratado com máxima seriedade.

A anotação pode ser apenas um rabisco. Mas, em política, rabiscos revelam prioridades. E, neste caso, revelam uma engrenagem em que candidaturas parecem orbitadas por cifras, lideranças se submetem à vontade de um único comandante e a transparência cede espaço à informalidade.

A dúvida que permanece não é apenas se houve pedido de R$ 15 milhões ou R$ 5 milhões. É se o eleitorado aceitará que a disputa pelo Senado seja tratada como mesa de negociação privada.

DESCONFIANÇA


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