22/04/2024 - Edição 540

Legislativo

Negros, quilombolas, indígenas, comunidade LGBTQAI+ e trabalhadores perdem importante voz em MS

Morte de Amarildo Cruz foi duro golpe na defesa dos direitos humanos no Estado

Publicado em 20/03/2023 5:01 - Semana On

Divulgação ALEMS

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Dia 17 de março de 2023 silenciou uma das vozes dos negros, quilombolas, dos índios e dos trabalhadores representados na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS). Amarildo Cruz (PT) marcou seus discursos na tribuna e suas ações como deputado estadual em nome da resistência e do combate às desigualdades e discriminações racial e de gênero. Nas palavras do presidente da Casa de Leis, deputado Gerson Claro (PP), Amarildo foi um dos mais representativos políticos das lutas sociais e democráticas.

“Amarildo fez história no Parlamento Sul-Mato-Grossense. Foi referência na luta contra desigualdade, defendendo com veemência e fervor suas causas. Nós estamos consternados, não conseguimos entender sua morte prematura. Seu legado permanece e se torna símbolo para Mato Grosso do Sul”, destacou Gerson.

A morte do deputado causou grande mobilização em prol dos seus ideais. Diversos líderes de movimentos sociais, políticos, eleitores e amigos estiveram na ALEMS para dar o último adeus. Sob forte emoção e aplausos, o corpo de Amarildo foi recebido no saguão principal do Poder Legislativo. As bandeiras do Estado, do time do coração, o Corinthians, e do único partido – o PT – , as paixões que abraçaram Amarildo na despedida.

Pedro Kemp (PT), amigo de Amarildo há 40 anos, foi quem prestou a homenagem em nome dos 24 deputados estaduais e lembrou que o discurso em prol dos menos favorecidos persistirá no Parlamento. “A voz de Amarildo ainda ecoa nos corredores da Assembleia, pois aqui ele defendeu o que acreditava. Ele não passou por esta Casa de forma despercebida e seu trabalho não acaba aqui, nós vamos continuar a sua luta por justiça social, defendendo as minorias, combatendo o racismo e pelo meio ambiente. Amarildo entra para história, pois escolheu lutar pelas questões mais essenciais da vida. O que conforta os nossos corações é que ele está com Deus”, disse.

Mara Caseiro (PSDB) expressou profunda dor pela morte de Amarildo, a quem elogiou como parlamentar. “A responsabilidade legislativa, o respeito para com as pessoas e, sobretudo, a humildade são as marcas que Amarildo deixou”, falou. Para o deputado federal Geraldo Resende [PSDB], os princípios na atividade política fazem parte da memória deixada por Amarildo e perdurarão para sempre. “Ele não negociava princípios, tinha sua razão de viver. A política sul-mato-grossense fica mais pobre, que seu exemplo possa frutificar”.

Com a partida do deputado Amarildo, ficam o exemplo e as conquistas para as novas gerações. “Ele sabia trabalhar com as convergências em condições firmes. Um grande debatedor e um grande homem para nosso partido. Que muitos Amarildos possam nascer a partir do legado deixado por este amigo”, ressaltou o deputado federal Vander Loubet (PT).

O vereador Jamal Mohamed Salem (MDB) lembrou a trajetória de Amarildo e salientou sua importância para a formação da Democracia. Para o prefeito de Dourados, Alan Guedes (PP), o legado de Amarildo é a boa política. “Amarildo era amigo da minha família e tenho convicção que em todos os espaços que percorreu, ele fez a boa política e isso será lembrado para sempre”.

O amor de Amarildo pela tribuna e pelo debate foi lembrado por várias pessoas. O deputado João Henrique (PL) ressaltou a energia do colega como um bom tribuno. “Sempre tive uma relação boa com meus colegas parlamentares e sempre destaquei na tribuna a importância de termos bons tribunos, debatendo pontos divergentes. Vim prestar minhas homenagens a história de luta do deputado, minhas condolências, meu respeito a sua família e amigos”, disse o parlamentar.

Nas mídias sociais, vários parlamentares lembraram o legado de Amarildo e de sua atuação na vida pública, leia aqui. A Casa de Leis decretou luto de três dias, conforme consta no Ato 22/2023 da Mesa Diretora, publicado em edição extra do Diário Oficial do Parlamento. As bandeiras, na entrada da ALEMS, estão a meio-mastro (veja aqui).

Amarildo nasceu em 29 de julho de 1962, em Presidente Epitácio (SP). Mudou-se para Mato Grosso do Sul aos 18 anos, em 1981, quando foi aprovado em concurso público para o cargo de fiscal tributário estadual. Filiou-se ao PT em 1984, partido em que já exerceu os cargos de presidente e tesoureiro do Diretório Estadual. Conheça mais aqui a história e bandeiras do parlamentar.

Legado de Amarildo foi exaltado em cortejo de despedida emocionada na ALEMS

Em nome dos deputados da 12ª Legislatura, Junior Mochi (MDB) relembrou do amigo. “O Amarildo foi um extraordinário parlamentar, um cidadão combativo, mas sensato, equilibrado, que buscava o consenso. Iniciei junto no Parlamento com ele. Lembrei que já percorremos o estado juntos por duas vezes em audiências públicas e na CPI da Saúde. Ele deixa um legado muito grande, uma referência como ser humano, como amigo, pessoa que sempre procurou com suas atitudes levar o bem. Nesse momento, mesmo com toda a tristeza, é preciso relembrar a vida e agradecer a Deus pelo privilégio da sua presença. Ele com certeza terá um lugar entre os justos”, disse Mochi.

A despedida final foi acompanhada pelo o governador Eduardo Riedel (PSDB). “Pessoa que sempre priorizou pelo diálogo, consenso, defendendo aqueles que mais precisam e fazia com que prestássemos atenção nas políticas públicas para atendê-los de fato. Ele vai deixar muitas saudades, primeiro pela sua defesa ao social, segundo pela sua capacidade de construir pontes, naquilo que ele defendia, política pública na prática, às pessoas que tinham esperança nele de dias melhores. Vai fazer muita falta, como canal de voz ativa na Assembleia. Deixa todo um protagonismo que tinha e conversamos muito no último dia antes dele internar, sobre projetos animados. Vai fazer falta insubstituível à família, eu peço a Deus que os conforte”, rogou.

Antigo colega de Parlamento, agora membro do Executivo, o secretário de Estado da Casa Civil, Eduardo Rocha (MDB) falou da sensibilidade de Amarildo. “A paixão e a garra pelas pessoas que estão lá na ponta, lá estava o Amarildo. Um homem honrado e correto, muito trabalhador. Uma morte repentina que nos pega de tristeza. Mato Grosso do Sul vai lembrar daquele Amarildo combativo, mas muito respeitoso. Tinha amizade com todo mundo, lutava pela sua corrente partidária, mas sabia fazer a boa política”, considerou.

Em homenagem da TV ALEMS, Amarildo falou sobre sua paixão pelo ofício parlamentar. “Eu sempre me doei muito, porque eu sempre encarei com muita responsabilidade o exercício da representatividade. Uma coisa é você trabalhar em uma função, todas são dignas e extremamente importantes, mas a questão da representatividade eu levo isso muito a sério. É muito forte quando a pessoa vai numa urna e tem 200 opções e diz: ‘vou escolher aquela’. Ao mesmo tempo em que ela está te elegendo, ela está te dando uma responsabilidade imensa de fazer o melhor. E entregar o melhor de mim é o mínimo que eu posso fazer”.

Há um mês ele reforçou quais bandeiras iria defender no quinto mandato e no Programa Vida Pública ele contou sobre sua história de vidaEm seu último discurso na tribuna, dia 14 de março, o deputado defendeu a liberdade, a não banalização do mal, do ódio e das fake news. Na noite do mesmo dia, o parlamentar foi internado no Proncor, em Campo Grande, falecendo dia 17, após três paradas cardíacas durante toda hospitalização. O mandato que amplificou a voz de negros, quilombolas, indígenas e trabalhadores, silenciou. Na nota oficial de luto, o Site ALEMS reuniu parte do vasto trabalho de Amarildo por Mato Grosso do Sul.

Amigos destacam qualidades de Amarildo Cruz: sensível, respeitoso e combativo

Sensível às causas sociais, respeitoso, humano, combativo e muito estudioso. Essas são algumas qualidades de Amarildo Cruz, conforme destacaram amigos e pessoas próximas do parlamentar. Amarildo, que ocupou o posto de deputado estadual por cinco mandatos, teve como importantes bandeiras o enfrentamento ao racismo, defesa do meio ambiente, democracia e a luta pelos direitos humanos.

“O Amarildo se preocupava demais com a justiça social e com as pessoas”, disse Jaqueline dos Santos, assessora de comunicação do parlamentar. “Como militante do Partido dos Trabalhadores, ele não cansava de lutar por mudanças na sociedade. E até mesmo as melhorias dentro do próprio partido”, acrescentou. Ela também enfatizou sua qualidade como pai e atuação no Movimento Negro. “Eu estive muito próximo dele e tive muito acesso à família. Ele sempre foi um pai muito bom. Estar junto do Amarildo e junto das pautas raciais pra mim foi fundamental como pessoa. Eu cresci muito estando do lado dele. Aprendi muito com ele”, finalizou.

O chefe de gabinete do Amarildo, Paulo Barbosa, afirmou que o parlamentar sempre foi atuante em causas sociais. “Logo depois que passou no concurso público aos 18 anos, ele ajudou a criar o sindicato de sua categoria. A partir daí, focou toda sua vida pública nas questões sociais”, lembrou. “E quando chegou ao Parlamento, toda sua ação como deputado sempre foi ligado mais às causas sociais, sobretudo em favor dos que mais necessitam da intervenção do poder público”, completou.

Paulo Barbosa mencionou outras qualidades de Amarildo. “Sempre foi muito focado, exigente e muito estudioso em tudo que fez. Todo assunto, toda bandeira, que defendia, sempre contribuía com muito conhecimento”, afirmou. Um dos destaques da atuação pública de Amarildo foi a moradia. “Quando foi secretário de Habitação, ele liderou um dos grandes projetos de Habitação do Estado. Naquele momento, ajudou bastante o déficit habitacional cair aqui no Mato Grosso do Sul e,  consequentemente, possibilitou que muitas pessoas que não tinham acesso à moradia própria passassem a ter. De todas as questões nas quais ele atuou como homem público, a que o deixou mais realizado foi o que fez no setor da moradia”, comentou o chefe de gabinete.  “Teve ao lado do pequeno produtor principalmente, da questão indígena, fez um trabalho muito forte na promoção racial. Enfim, o seu legado fez diferença, com certeza absoluta, para melhor aqui no Estado”, finalizou.

A subsecretaria estadual de Políticas Públicas para as Pessoas Idosas, Zirleide Silva Barbosa, que trabalhou com Amarildo por três mandatos, também disse que o parlamentar era muito estudioso e conseguia transitar em vários temas. “O Amarildo era muito especial por ser um deputado estudioso, um requisito fundamental para fazer o que ele fazia. Ele transitava por várias pautas e dava conta de discutir essas temáticas, inclusive uma delas era a questão ambiental, que eu trabalhei diretamente com ele”, falou.

Zirleide também enfatizou a capacidade de articulação do parlamentar. “Seu mandato conseguia chegar a diversos municípios. Era um deputado que tinha um olhar sensível. Além de conseguir atuar em várias pautas, fazia interlocução com prefeitos, vereadores, organizações, partidos. Sempre esteve no Partido dos Trabalhadores e defendia as pautas colocadas pelo partido de uma forma tranquila e conseguia chegar a diversas pessoas”, disse.

Também militante no Movimento Negro, Vânia Lúcia Baptista Duarte, subsecretária de Estado de Políticas Públicas de Promoção de Igualdade Racial, comentou que o parlamentar fez muito diferença no enfrentamento ao racismo. “O Amarildo Cruz era uma pessoa muito especial. Por muito tempo, o único deputado negro, uma pessoa que se ascendeu socialmente na questão da sua militância negra. Para nós, militantes do Movimento Negro, ele fez muita diferença. Não só por ser um negro, mas pela luta, pela militância, pela proximidade com essa população negra. E nós trazendo as nossas pautas e muitas delas, ele trazendo a resolução, os encaminhamentos. Estamos, sim, muito tristes, muito abalados. Mas ele deixa um legado, uma referência para nós, em sua forma de agir, como militante, como amigo. Que, neste momento, Deus fortaleça os amigos e familiares”, afirmou.

Último discurso e cerimônia fúnebre

As qualidades destacadas pelos amigos e companheiros de militância de Amarildo estão em sintonia com a fala do deputado em seu último discurso na ALEMS, na sessão de terça-feira (14). Ele usou a palavra para defender a democracia, a liberdade, o combate à desigualdade e promoção da dignidade a todos sem diferenças. “Senhor presidente, eu entendo que é meu papel como parlamentar eleito entre outras coisas é trazer para o Parlamento as minhas convicções, minha visão de mundo, as coisas que eu verdadeiramente acredito e, entre essas coisas, estão a democracia, o estado democrático de direito, a exaltação à liberdade, o combate a desigualdade, a criação de condições mínimas de dignidade para o ser humano indistintamente”, discursou pela última vez Amarildo.

Amarildo Cruz faleceu no início da tarde de sexta-feira (17) após não resistir a três paradas cardíacas. Ele estava internado desde terça-feira (14) no hospital Proncor, em Campo Grande. O deputado deixa três filhos e a esposa. O velório foi realizado no saguão Nelly Martins, na Casa de Leis. Depois, o corpo seguiu para Presidente Epitácio (SP), onde também foi velado e sepultado. Comissão, formada pelos deputados Junior Mochi (MDB), Pedro Kemp e Pedrossian Neto (PSD), acompanhou o cortejo até a cidade natal de Amarildo.

Amarildo Cruz era divorciado e deixa três filhos.


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