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Legislativo

Avanço do eucalipto na Costa Leste gera debate sobre água, biodiversidade e desenvolvimento

Comissão vai levar documento com conclusões à direção nacional do Ibama e ao Ministério do Meio Ambientes

Publicado em 12/03/2026 7:35 - Semana On

Divulgação ALEMS

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A expansão das plantações de eucalipto e os impactos da cadeia da celulose na Costa Leste de Mato Grosso do Sul foram debatidos na tarde de quarta-feira (11) pela Comissão de Desenvolvimento Agrário, Assuntos Indígenas e Quilombolas da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul.

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A reunião, que ganhou dimensão de audiência pública, teve a participação de pesquisadores das universidades públicas, representantes do setor produtivo, Ministério Público, vereadores e lideranças de comunidades impactadas no Vale da Celulose, concentrado em municípios da Costa Leste. O plantio de eucalipto ocupa aproximadamente 2 milhões de hectares. Mato Grosso do Sul já é um dos principais polos nacionais da produção florestal.

As conclusões da reunião serão levadas na próxima segunda-feira pelo deputado Zeca do PT, presidente da Comissão, ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em Brasília.O objetivo é abrir diálogo com os órgãos federais para avaliar medidas relacionadas aos impactos ambientais da expansão do eucalipto na região. Zeca defendeu que a monocultura do eucalipto seja analisada com mais rigor diante de relatos do comprometimento de nascentes, baías e cursos d’água, além de preocupações relacionadas ao uso de defensivos nas áreas de plantio.

Presidente da Comissão de Desenvolvimento Agrário, Zeca do PT

Apesar das críticas, o parlamentar garantiu que não é contra o desenvolvimento econômico e lembrou que, quando governou o Estado, entre 1999 e 2006, participou da articulação que levou a empresa International Paper a se instalar em Três Lagoas, marco inicial da indústria de celulose na região. Como alternativa para reduzir impactos ambientais, Zeca sugeriu ao representante do setor produtivo, Benedito Ramão, a criação de ilhas de árvores nativas e frutíferas dentro das áreas de eucalipto, que poderiam funcionar como refúgios ecológicos e oferecer alimento para a fauna silvestre.

Promotor Luciano Loubet, defendeu novos critérios para licenciamento 

O promotor Luciano Loubet alertou que o avanço da silvicultura exige atenção do ponto de vista ambiental já que desde 2007, o Governo do Estado dispensou o licenciamento para a expansão do plantio de florestas comerciais, assim como para qualquer exploração agropecuária (seja agricultura ou pecuária).

“A consequência deste afrouxamento das regras, faz com que por exemplo, numa área de 20 mil hectares, basta o proprietário conservar os 20% de reserva legal, neste caso 4 mil hectares, que os 16 mil hectares remanescentes estão livres para o plantio, quando na avaliação de Loubet, seria necessário adotar algumas medidas mitigadoras, como a criação de corredores ecológicos, exatamente para garantir sustentabilidade com a preservação da fauna, além de evitar que nascente acabem secando.  A consequência da existência de grandes blocos de monocultivo é a fragmentação da vida silvestre, levando a situações onde há o plantio se estende por 15 quilômetros de largura por 20 quilômetros de extensão, dificultando a conexão entre habitats naturais, impedindo a circulação da fauna e a manutenção da biodiversidade.

O subsecretário de Meio Ambiente de Selvíria, Valcitinez Santiago, também apresentou preocupações durante a audiência. Segundo ele, imagens de satélite mostram nascentes comprometidas pelo avanço do eucalipto em áreas próximas a assentamentos rurais. Em uma das apresentações, o gestor exibiu fotografias que indicariam três nascentes impactadas pela atividade, com redução da área úmida e avanço do plantio até áreas sensíveis. “Essas fotos mostram claramente as nascentes que estão sendo comprometidas pela atividade”, afirmou.

O pesquisador da área de climatologia Mario Henrique, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), afirmou que a região do Bolsão enfrenta uma situação preocupante do ponto de vista ambiental. Segundo ele, há sinais de mudanças no regime de chuvas, especialmente em Três Lagoas, onde o volume anual de precipitação passou a registrar menos de 1.100 milímetros em alguns períodos desde 2010. O professor também destacou que, do ponto de vista científico, plantações de eucalipto não podem ser classificadas como florestas, mas sim como monocultivos. Ele alertou ainda para a existência de fragmentos de vegetação nativa confinados entre grandes áreas de eucalipto, que acabam perdendo qualidade ecológica por falta de conexão com outros ecossistemas.

Outra preocupação levantada durante o debate foi o impacto da mudança no uso do solo sobre atividades tradicionais da região. Segundo a professora de Geografia, Marine Dubos, do campus de Três Lagoas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), a empresa Suzano investiu R$ 1 milhão na implantação de um laticínio como medida compensatória associada à instalação da indústria de celulose. No entanto, de acordo com a docente, a unidade estaria funcionando com apenas cerca de 30% da capacidade, em razão da queda na produção leiteira local. A docente se mostrou convencida de que indústrias do segmento de celulose como a Suzano, tem feito “muito mais marketing”, que propriamente fazendo investimentos em medidas compensatórias que de fato contribuam para melhorar a qualdiade de vida das populações diretamente impactadas pelos empreeendimentos.

O ex-prefeito de Ribas do Rio Pardo, João Alfredo, também manifestou preocupação com a expansão da atividade no município. Segundo ele, cerca de 40% do território local já está ocupado por eucalipto. Em 5 anos, a área plantada saltou de 160 mil para aproximadamente 400 mil hectares, expansão favorecida pelo baixo custo da terra na região onde uma empresa vinculada à Suzano teria adquirido terras por cerca de R$ 6 mil por hectare, em uma área aproximada de 170 mil hectares.  Ele também demonstrou preocupação com a situação ambiental do Rio Pardo, onde a Suzano faz a captação de água para uso industrial.  Ele ainda criticou a falta de transparência na aplicação da compensação ambiental de R$ 75 milhões que o Governo do Estado teria cobrado da empresa, mas só R$ 10 milhões teriam sido reaplicados no muncípio.

Representando o setor produtivo, Benedito Mário Lázaro afirmou que as empresas seguem critérios técnicos e ambientais e que grande parte das áreas utilizadas para o plantio já estava degradada antes da implantação da atividade. Segundo ele, a silvicultura trouxe investimentos, empregos e melhorias na infraestrutura regional. Lázaro afirmou ainda que as empresas realizam manejo de solo e de recursos hídricos, mantêm estrutura de prevenção e combate a incêndios florestais e realizam a pulverização de defensivos dentro das normas e da legislação vigente. “Queremos paz para trabalhar. A silvicultura transformou a região”, declarou.

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