23/02/2024 - Edição 525

Entrevista

O que é a desnutrição e por que ela voltou a assombrar o Brasil?

Com mais de 50% da população em insegurança alimentar, país retorna a um passado dramático de fome e carestia

Publicado em 08/02/2023 8:58 - Nara Lacerda - Brasil de Fato

Divulgação USP

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O início de 2023 no Brasil foi marcado pela comprovação em imagens dos dados que apontam para o crescimento da fome e da insegurança alimentar no país nos últimos anos. Cenas de indígenas Yanomami em estado de desnutrição profunda e histórias de famílias que voltaram a ter dificuldade de acesso ao básico tomaram o noticiário e as redes sociais.  

São casos que retratam um alerta feito pela sociedade civil e por organizações populares durante todo o governo de Jair Bolsonaro (PL). Em junho do ano passado, a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) divulgou o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (2º VIGISAN).  

O documento revelou que mais da metade da população brasileira vive algum grau de insegurança alimentar. Nessa lista estão pessoas que estão sem acesso a alimentos, dependem de doações para comer ou não têm certeza de como vão alimentar a si e à família em um futuro próximo.  

Mais de 33 milhões estão na primeira situação e passam fome diariamente, dados que levam o Brasil de volta aos patamares de carestia da década de 1990. A desnutrição entre crianças com menos de um ano se mantém em patamares preocupantes.

Desde 2017, o Brasil passou a contabilizar mais de 2,5 mil internações causadas pela desnutrição por ano, cenário que a partir de 2010 havia deixado de fazer parte do cotidiano do país. Informações reunidas pelo Observa Infância da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostram que, em 2021, a desnutrição atingiu o maior número de bebês em 13 anos. Foram mais de 2,9 mil casos e, em média, 8 internações por dia. No ano passado, o número foi de 2,7 mil. 

“Podemos colocar a desnutrição como uma doença de natureza clínica, social e multifatorial.  As raízes da desnutrição se encontram principalmente na pobreza e em um vazio de assistência por parte do poder público. Então a pobreza é o principal fator que desencadeia a desnutrição”, explica a nutricionista Maria Alvim, pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP). 

Ela afirma que conter o cenário atual envolve tratar as pessoas em estado grave e reunir soluções em diversas frentes para combater desigualdades estruturais.

 

O que é a desnutrição e que estágios ela atinge no corpo humano? 

Maria Alvim: Parece que é uma definição simples, mas não é. A desnutrição pode ser compreendida de várias formas, assim como a fome e a pobreza. Podemos colocar a desnutrição como uma doença de natureza clínica, social e multifatorial.  As raízes da desnutrição se encontram principalmente na pobreza e em um vazio de assistência por parte do poder público. Então a pobreza é o principal fator que desencadeia a desnutrição.

A desnutrição grave vai acometer vários órgãos da pessoa desnutrida, pode se tornar crônica e até levar a morte, caso não seja tratada de forma adequada.

Considerando a desnutrição como a doença, ela pode ser, principalmente, da deficiência proteico-calórica ou também da deficiência de diferentes micronutrientes. Então ela pode abarcar um pacote de deficiências nutricionais.

Existe uma classificação, usada nos atendimentos médicos, com alguns estágios, como leve, moderado ou grave. Para isso, existem faixas de deficiência em relação ao peso adequado que a pessoa deveria estar. Quanto mais longe, mais negativo, mais atrás de um peso ideal, podemos classificar entre desnutrição grave, moderada ou leve. Isso para adultos.

Para crianças usamos uma adequação a uma curva de crescimento. Observamos  a adequação da criança a uma curva em que acompanhamos o desenvolvimento da criança.

Para a desnutrição leve, a pessoa está de 10% a 25% abaixo do peso médio esperado ou peso médio considerado normal para a idade. Quem tem desnutrição moderada vai estar de 25% a 40% abaixo do peso ideal. Aquela pessoa que porta a desnutrição grave vai estar com mais de 40% de deficiência do peso considerado ideal.

As imagens de indígenas Yanomami em estágio avançado de desnutrição chocaram o país nas últimas semanas. São povos que convivem também com a destruição ambiental, a contaminação da terra e da água e surtos de doenças como a malária. Qual é o nível de impacto dessa realidade no tratamento da desnutrição?  

A desnutrição vai comprometer não só o desenvolvimento e o crescimento das crianças, por exemplo, mas também em adultos vai comprometer a cognição e a imunidade. O sistema imune fica deficitário.

A pessoa que não tem todos as proteínas, calorias, micronutrientes necessários para um bom funcionamento do organismo, tem um comprometimento, pode ser acometida por doenças oportunistas e infecciosas, que vão piorar aquele quadro.

Podemos pensar a desnutrição como desnutrição primária – em que é uma privação de macro nutrientes, proteína, carboidrato, lipídio – e existe também a desnutrição secundária, resultado de uma doença infecciosa, câncer, uso de medicamento contínuo e até depressão.

Mas a desnutrição primária é mais alarmante e mais preocupante. Ela tem um fator social muito relevante, de (falta) de acesso ao alimento em quantidade e em qualidade adequadas.

Há um discurso predominante entre setores conservadores da política e da sociedade que diz que as informações sobre o crescimento da insegurança alimentar, da fome e da desnutrição no Brasil são falsas. É possível afirmar isso?  

Não dá para dizer que isso é mentira. Metade da população Brasileira tem algum grau de insegurança alimentar. É um diagnóstico feito a partir de dados de boa qualidade, produzidos por instituições e agências em que confiamos para poder assumir um problema dessa magnitude.

É muito relevante percebermos que é um problema nacional. A questão Yanomami é uma lupa. É muito agudo, muito grave, muito chocante visualizar aquelas imagens e conseguir dimensionar a gravidade do que aquela população está enfrentando.

Não tem como ignorar os fatos. É relevante demais percebermos que essa é uma situação urgente e gigantesca a ser enfrentada. Não à toa é uma das bandeiras do governo atual e isso é extremamente importante. Desperta um certo otimismo percebermos que existe uma preocupação genuína em tentar reverter esse quadro.

O principal ponto para resolvermos o problema é identificá-lo e dimensioná-lo. Não é uma situação que vai ser resolvida da noite pro dia, mas acho que é muito importante contar com a ciência, que vai não só dar um diagnóstico, vai dar a dimensão da questão, o Sistema Único de Saúde (SUS) e esse arcabouço de pessoas, políticas, instituições, para tentar juntos solucionar essa questão, que é multifatorial e de uma gigantesca complexidade.

Quais são os caminhos para tratar a desnutrição e reverter esse prejuízo.

Eu poderia responder a essa pergunta de duas formas. Primeiro falamos da situação mais aguda. Temos pessoas desnutridas, graves. Como recuperar esses pacientes? Vai precisar de um tratamento hospitalar.

Existem protocolos que, obviamente, vão ser específicos para cada indivíduo, se é uma criança, um idoso, é um adulto, quais são as doenças oportunistas que vêm junto com esse quadro. Não é invariável, mas existe um protocolo que passa por várias etapas. Você vai tratar a hipoglicemia da pessoa, se está com uma glicemia muito baixa, regular a temperatura corporal, regularizar os macro e micronutrientes.

Depois de restabelecer um quadro em que risco o de morte iminente é estabilizado, vai se restabelecer uma alimentação próxima à alimentação normal, mas é preciso tratar aquele quadro agudo. Inclusive, se for mal manejado o socorro ao paciente grave, ele pode sofrer a síndrome da realimentação, uma complicação que ocorre depois de um jejum muito prolongado.

Não pode simplesmente entregar uma marmita para um paciente em estado grave de desnutrição. Isso pode acarretar uma espécie de choque no organismo. É tudo muito comedido no cuidado com essa pessoa.

Mas isso é para quadros agudos, temos que pensar em uma situação macro.  Metade do Brasil, pelo menos, sofre com insegurança alimentar em alguma medida. É uma questão muito relacionada à distribuição do alimento, à pobreza, é uma questão em que os problemas sociais devem ser tratados com política pública.

Coisas como saneamento básico, estabelecimento de uma renda mínima, redistribuição de terra, demarcação de terras indígenas. Têm que ser feitas políticas públicas transversais, de diferentes arcabouços do governo, para poder dar conta dessa problemática.


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