20/06/2024 - Edição 540

Entrevista

“Não ser único afetado é fator protetor no trauma coletivo”, afirma psicólogo

Especialista em trauma e estresse pós-traumático, Christian Haag Kristensen explica os impactos das enchentes no RS na saúde mental e como as pessoas e comunidades podem se fortalecer para enfrentar o momento

Publicado em 20/05/2024 8:55 - Valentina Gindri – DW

Divulgação PUC RS

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Quando a água arrastou casas e ceifou vidas no Rio Grande do Sul, quando subiu até o teto e impediu pessoas de trabalharem ou desfrutarem da segurança do lar, ela também provocou impactos profundos na saúde da mente. Muitas pessoas viram suas memórias afetivas e os frutos de anos de esforço desfazerem-se em poucos dias. Milhares estão desalojados ou desabrigados, sem saber quando vão poder retornar às suas casas e, muitas vezes, sem recursos para recomeçar.

“Para algumas pessoas, é muito mais do que algo material, é como se fosse a representação da sua vida. É como se a minha vida, as minhas memórias materiais, as lembranças dos meus filhos, dos meus nascimentos, tudo tivesse sido levado embora; e tudo foi, de alguma forma, levado embora”, afirma o psicólogo Christian Haag Kristensen, coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trauma e Estresse da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (NEPTE/PUC-RS).

O grupo capacita e orienta voluntários que prestam os primeiros socorros psicológicos às vítimas da enchente em diferentes abrigos na cidade de Porto Alegre e na região metropolitana.

Em diferentes medidas, a catástrofe tocou todos os gaúchos, que lidam agora com os sentimentos de ansiedade, impotência e angústia. 

Em entrevista, Kristensen explica os impactos da tragédia na saúde mental, as dimensões de um trauma coletivo, e como as pessoas e comunidades podem se fortalecer para enfrentar o momento. 

 

Que efeitos na saúde mental um estresse traumático do nível das enchentes no Rio Grande do Sul pode causar?

No curto prazo, temos um grande evento estressor considerado primário: a ameaça à vida, o ser arrastado pela correnteza, o ferimento, ficar sem água, sem luz, sem comida. Mais adiante, ocorre um segundo impacto, um estressor secundário, que é a pessoa querer voltar para casa, mas não ter mais casa, não ter mais trabalho. Na dinâmica de eventos estressores climáticos extremos, um se soma ao outro.

O que vimos nas pessoas nessas primeiras semanas foram reações agudas de estresse que são até esperadas, como reações emocionais intensas; reações cognitivas como confusão mental e dificuldade em tomar decisão; reações físicas intensas como cansaço, fadiga, tensão muscular, além de um impacto nas relações interpessoais. Essas reações, que são até, digamos, normais para o momento, vão diminuir com o passar do tempo para a maior parte das pessoas, que aos poucos recuperarão seu funcionamento saudável. A maior parte das pessoas não vai adoecer.

Que emoções ou sintomas, se não receberem o devido cuidado, podem se agravar ou transformar-se em quadros crônicos?

Uma parte das pessoas vai manter reações muito intensas por muito tempo. E aí nós podemos já estar falando de sinais e sintomas que vão configurar transtornos mentais mais adiante. O que é mais comum em um médio prazo – daqui a 12 meses, aproximadamente – é um aumento nos quadros de ansiedade e transtorno de ansiedade.

Além disso, algumas pessoas já estão precisando de um nível de atenção em saúde mental especializado por estarem tendo quadros psicóticos, quadros dissociativos – que é quando a pessoa tem um certo rompimento com a realidade –, ou por estarem começando a fazer uso de substâncias como o álcool para lidar e aclamar o fator estressor, o que pode virar um problema crônico.

É importante lembrar que uma parte muito grande das pessoas já tinham problemas psicológicos prévios que agora se agravaram. Isso pode ocorrer até mesmo com aquelas que não foram diretamente afetadas pelas enchentes, mas estão em contato com as notícias e com o sofrimentos dos outros.

Que estratégias de enfrentamento ao trauma as pessoas podem usar? Tanto as que passaram diretamente pelos impactos das enchentes, como quem tem amigos que estão nessa situação crítica?

O primeiro passo é normalizar a resposta. É entender que eu passei, ou meu amigo passou, por algo muito grave, que representou um risco à vida, à integridade física, que já está promovendo um prejuízo imenso do ponto de vista de estrutura. Então, é normal que, frente a uma ameaça, eu possa ter pesadelos, pensamentos intrusivos; possa me sentir ansioso quando começa a chover, por exemplo, já que ativa uma memória dolorosa. Tudo isso é esperado. É importante dizer, até para si mesmo: olha, eu te entendo, está bem se sentir assim, a maioria das pessoas se sente assim nesse momento.

Outro ponto importante seria poder ter uma rotina – se não for a sua rotina de antes, alguma rotina. E também, aos poucos, poder ter alguma atividade física. Além disso, é fundamental se reconectar com o seu grupo de apoio: familiares, círculo de amigos, grupo da igreja, líder comunitário, etc. Também é benéfico não ficar exposto de forma excessiva a notícias e mídias sociais, vendo imagens da enchente. A memória que fica da situação traumática não precisa ser reativada o tempo todo, especialmente fora de um contexto terapêutico.

E como lidar com o sentimento de incerteza, já que muitas pessoas estão em abrigos e não sabem até quando vão ter de ficar lá?

A pessoa que passa por uma situação desse tipo fica com uma necessidade aumentada de segurança. E ela busca por certezas, e às vezes busca na relação com o voluntário ou o socorrista. Uma das piores coisas que se pode fazer na tentativa de ajudar o outro é prometer algo que você não pode cumprir, porque você não sabe o que vai de fato acontecer.

Aos poucos as incertezas vão diminuir – e para aqueles que não diminuir, é preciso aprender a tolerar a incerteza. Nós já praticamos isso constantemente nas nossas vidas. Nossa mente trabalha com ideias de futuro que não sabemos se de fato irão ocorrer.

Mas também é importante frisar que precisamos trabalhar no sentido de esperança: porque as coisas em algum grau irão, aos poucos, melhorar. Em algum grau, nós teremos reconstrução. Em algum grau, nós teremos um retorno a situações de normalidade.

E o sentimento de impotência, de querer fazer alguma coisa e sentir que não consegue ajudar, como lidar com a angústia que pode vir disso?

Eu acho que são três coisas: angústia, o senso de impotência, e a culpa. A angústia, em algum grau, nos move. E em um grau muito elevado, nos paralisa. Ter essa ansiedade de querer ajudar, que está na mesma direção de um desejo de ajudar o próximo, é uma das coisas mais importantes nesse momento.

Então, o que eu posso fazer? Talvez eu não vá até o Rio Grande do Sul entrar na água para socorrer pessoas, mas o que eu posso fazer? Uma doação? Posso fazer isso à distância? Posso ajudar a disseminar informações de boa qualidade? Posso ligar para o meu amigo que está no estado e perguntar como ele está? Aí temos que lidar com os limites de cada um, e não se sentir culpado porque não está contribuindo de uma certa maneira.

Vale ressaltar que estamos vivendo uma fase aguda da catástrofe. Nós vamos ter um longo caminho pela frente e muitos meses para poder ajudar.

Como uma comunidade lida com um trauma que é coletivo?

Um aspecto muito relevante é que há um “fator protetor” nessa coletividade. Traumas de natureza interpessoal – aquele dano que uma pessoa faz à outra – tendem a provocar prejuízos maiores do ponto de vista da saúde mental. Situações traumáticas como essa que nós estamos vivendo são muito impactantes, mas a ideia de que eu não sou o único afetado por isso, isso não aconteceu por algo que eu fiz ou deixei de fazer, é um grande fator protetor.

Eu acho que esse senso de comunidade é a base na qual vai se dar a reconstrução e a superação, inclusive psicológica, desse trauma que tocou a todos. A perspectiva de superação também é coletiva.

São os grupos que vão se reorganizar, os líderes comunitários, os agentes de saúde que conhecem cada uma daquelas pessoas. E eles, dentro de uma perspectiva de gestão pública de saúde mental, serão decisivos.

São muitas as perdas e os lutos. Nas comunidades que foram realmente arrasadas, como lidar com a perda das referências, da memória, da própria identidade?

Temos cenários muito distintos. Vai ter aquela comunidade onde as pessoas vão, aos poucos, retornar aos seus lares, limpá-los. Isso vai ser um longo processo, mas a sua casa está lá, a loja onde trabalhava está lá, o posto de saúde está de pé. Mas algumas comunidades foram devastadas, só sobraram escombros. Aí a atenção para a saúde mental deve ser muito maior.

Para algumas pessoas, é muito mais do que algo material, é como se fosse a representação da sua vida. É como se a minha vida, as minhas memórias materiais, as lembranças dos meus filhos, dos meus nascimentos, tudo tivesse sido levado embora; e tudo foi, de alguma forma, levado embora.

Nesses casos que são muito extremos – e não são poucos –, vamos precisar dar um novo significado ao que está sendo construído, de que isso possa representar em algum grau a superação, o esforço individual e coletivo. Será necessário um esforço grande de ressignificação.

Como já tivemos uma tragédia grave de chuvas no estado em 2023, existem relatos de crianças que entram em pânico quando começa a chover. Como ajudar os pequenos a lidar com esses gatilhos?

Em primeiro lugar, é importante a criança estar em um contexto de segurança. E muitos abrigos estão muito bem organizados para propiciar certo lazer às crianças. Outro aspecto importante é poder explicar aquilo para a criança, dizer: “Olha, a chuva, assim como o sol, faz parte.” Mas quando a criança fica muito ativada, você pode até usar uma técnica de distração ativa, desfocar a atenção da criança para outro estímulo. E, eventualmente, até alguma técnica de relaxamento, como exercícios de respiração, adaptada de forma lúdica.

Historicamente, o Rio Grande do Sul é o estado com a maior taxa de suicídios do Brasil. De acordo com levantamento de 2020, esse número era de 12,4 mortes a cada 100 mil habitantes, o dobro da média nacional. Que medidas serão necessárias para cuidar da saúde mental no estado?

Nesse momento temos a centralização desse cuidado na Força Nacional do SUS, que está trabalhando junto com a Secretaria Estadual de Saúde e as coordenadorias regionais das áreas mais afetadas, capacitando o quadro técnico do ponto de vista de saúde mental e já dispondo de voluntários – que são profissionais de saúde do SUS – para ficarem localizados naquelas regiões. Isso já está em curso, o que é algo muito positivo. O grande desafio, na minha opinião, nem é tanto agora, mas no longo prazo. Como é que a gente reconstrói os dispositivos de saúde mental nas comunidades mais atingidas? Isso será fundamental.

Alguns desses quadros de estresse pós-traumático e transtornos depressivos estão muito associados ao risco de suicídio. Algo que contribui tanto para a ideação quanto para a tentativa de suicídio é a desesperança. Então é um momento de estar atento e dizer para as pessoas que nós podemos ter esperança, de que muitas dessas experiências emocionais negativas são transitórias.


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