25/04/2024 - Edição 540

Entrevista

“Motociatas foram exercício para mobilização golpista”, diz a antropóloga Isabela Kalil

Pesquisadora alerta para risco de radicalização do movimento de cunho golpista que foi às ruas por intervenção militar e avalia que Bolsonaro preparou a mobilização ao longo de dois anos

Publicado em 14/11/2022 8:32 - João Pedro Soares - DW

Divulgação Reprodução

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A derrota de Jair Bolsonaro (PL) na eleição expôs a face mais radical da base de apoio do presidente. O movimento de extrema direita que fechou estradas e clamou por intervenção militar despertou preocupações sobre a estabilidade da democracia brasileira nos próximos anos.

Ainda que a mobilização tenha retraído, sobretudo após o reconhecimento ambíguo da derrota eleitoral por Bolsonaro, observa-se uma tendência de radicalização crescente. A análise é da antropóloga Isabela Kalil, coordenadora do Observatório da Extrema Direita (OED).

“Passada a reação inicial à vitória de Lula, há um número menor de pessoas mobilizadas em torno dessa agenda, o que é uma boa notícia. Por outro lado, vemos certos grupos, ainda que poucos, tornando-se mais radicais. Os dois processos acontecem simultaneamente”, afirma, em entrevista à DW Brasil.

Durante um ano e meio, ela coordenou a pesquisa “Democracia sitiada e extremismo no Brasil: 18 meses de manifestações bolsonaristas”, do Núcleo de Etnografia Urbana e Audiovisual da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (NEU-FESPSP). Ao todo, foram mapeadas 45 manifestações entre março de 2020 e setembro deste ano, em que o bolsonarismo atuou por meio do que os pesquisadores classificaram como “extremismo estratégico”.

A pesquisadora define os atos que ficaram conhecidos como “motociatas” como um laboratório de Bolsonaro para o movimento de cunho golpista que sucedeu o resultado eleitoral. Por essa razão, a pesquisadora avalia que a mobilização em rodovias e em frente a quartéis não teve origem espontânea, mas foi o resultado de uma preparação de quase dois anos.

“As motociatas podem ser entendidas como um exercício para a mobilização pós-eleitoral. Houve uma espécie de treinamento, com a participação do presidente Bolsonaro muitas vezes, inclusive, para mobilizar essas bases”, diz.

“Não foi preciso haver um comando organizado, que desse a senha para isso acontecer. Esse comando tem sido dado ao longo do último ano e meio, principalmente”, acrescenta.

 

O movimento de extrema direita que fechou estradas e fez protestos por intervenção militar ameaça a estabilidade do novo governo?

Essa questão vai depender muito de quais respostas institucionais o Brasil vai dar para essas manifestações. Por isso esse período do pós-eleitoral até o início do governo Lula é tão crítico, tão importante. A depender de como essas mobilizações forem tratadas nesse período, isso vai ditar pelo menos os próximos quatro anos do governo Lula-Alckmin. Se houver a responsabilização judicial para colocar limites nessas manifestações golpistas, a gente passa a ter esse exemplo de que existe uma tolerância pequena em relação a esses atos antidemocráticos. Agora, se nesse período a gente não tiver posições que mostrem os limites, assistiremos a uma repetição desses eventos, que se tornarão uma coisa comum e podem inclusive aumentar. Esse período vai determinar o futuro da política brasileira, no sentido da mobilização da sociedade civil. Passada a reação inicial à vitória de Lula, há um número menor de pessoas mobilizadas em torno dessa agenda, o que é uma boa notícia. Por outro lado, vemos certos grupos, ainda que poucos, tornando-se mais radicais. Os dois processos acontecem simultaneamente. As pessoas que continuarem nessas performances podem se radicalizar mais.

Quais são as raízes dessa mobilização antidemocrática?

Muitos desses grupos vêm de um processo em que apoiaram Bolsonaro antes de se tornar presidente, porque tinham a expectativa de uma radicalização da política e de um processo muito mais autoritário do que a gente assistiu. Algumas pautas são especialmente caras a esses setores da base antidemocrática do presidente, como o fechamento do Congresso e da Suprema Corte, ou mesmo um golpe de Estado. Como nenhuma dessas coisas se realizou, eles se sentem frustrados. Alguns desses apoiadores vêm esperando isso desde 2017, ou seja, imaginavam que no primeiro ano de governo Bolsonaro isso iria acontecer. E ele, de fato, havia prometido isso, essa radicalidade, essas rupturas políticas. Ele, inclusive, fez acenos piores. A gente tem manifestações do presidente, ao longo das últimas décadas, falando sobre morte de adversários.

Como Bolsonaro frustrou essa expectativa no primeiro ano de governo, em 2019, havia um discurso de que ele precisava de mais tempo. De certa maneira, ele acabou conseguindo lidar com esses grupos baseado nessa ideia de que era muito recente, mas que ele ia se colocar contra a “velha política”, como ele se refere. Durante a pandemia, Bolsonaro conseguiu entregar parte dessa radicalidade, seja pelo desprezo ao número de mortos pela covid, seja por sua atuação muito contrária aos governadores e à Suprema Corte, em uma espécie de guerra. Em parte, a postura adotada por Bolsonaro na pandemia tinha como objetivo responder a essa sua base que pedia mais radicalidade.

Mais recentemente, em um período pré-eleitoral e eleitoral, Bolsonaro acabou inflando sua base, no sentido da narrativa de fraude nas urnas. Esses grupos acabaram acreditando que poderiam se mobilizar e que estariam à disposição para qualquer ação coordenada, principalmente por parte de Bolsonaro, em relação a um resultado eleitoral que não fosse satisfatório para eles. Em resumo, caso Bolsonaro perdesse as eleições, é porque teria havido fraude, já que seria evidente o número expressivo de apoiadores. O cálculo deles se baseia em fatores como as motociatas e a mobilização digital. Há uma base frustrada por ter sido colocada à disposição e não ter sido mobilizada no pós-eleitoral. Essa frustração pode resultar no descolamento desse segmento da base de apoio a Bolsonaro para outro tipo de insurgência mais radical ainda. Eles se colocam como mais radicais do que a própria posição de Bolsonaro.

Esse movimento já caminha com as próprias pernas ou ainda tem Bolsonaro como líder?

Bolsonaro é a grande referência. Estamos falando de um fenômeno de dissidência e radicalidade dentro do próprio bolsonarismo. Os processos sociais precisam de tempo, principalmente a formação de lideranças. Foi preciso quase 20 anos para que Bolsonaro se construísse como essa liderança que é hoje. A base de Bolsonaro ainda é muito forte e, provavelmente, vai continuar sendo assim, porque a gente não tem hoje no horizonte uma figura que possa substituir Bolsonaro. Não existe ninguém hoje com a capacidade de mobilização dele, que consiga responder a diferentes anseios e conectar diferentes grupos, desde religiosos até armamentistas. Com uma eventual saída de Bolsonaro da política, tende a haver uma base mais fragmentada. Por enquanto, ela ainda está com ele. Mas parte dessa dissidência, que é numericamente pequena, pode, sim, ganhar independência e ter posições e performances violentas o suficiente para vermos casos graves de insurgência.

Como essas mobilizações foram organizadas?

Parte desses bloqueios nas estradas já estavam sendo convocados para o período entre o primeiro e o segundo turno. Inclusive, com o apoio de empresários locais. Havia uma mobilização, principalmente no Telegram, de organização desses eventos. Isso demonstra que esses atos não foram exatamente espontâneos, orgânicos. Se a gente olhar a atuação do presidente Bolsonaro, é algo que vem sendo construído nos eventos, nas chamadas motociatas. Como exercício de pesquisa, nossa equipe tem feito uma análise dessas mobilizações desde 2020, acompanhando essas mobilizações no interior do país e principalmente o engajamento digital em torno dessas mobilizações, que têm sido chamadas de motociatas, mas vão além. Há eventos que são mobilização de tratores, de jegues, você tem “tratoratas”, “jegueatas”, “lanchaciatas”, “jet-skiciatas”.

As motociatas podem ser entendidas como um exercício para a mobilização pós-eleitoral. Houve uma espécie de treinamento, com a participação do presidente Bolsonaro muitas vezes, inclusive, para mobilizar essas bases. Isso se deu no país inteiro. Exatamente por conta desses exercícios, nos últimos dois anos de mobilização em torno dos atos antidemocráticos e, mais recentemente, das motociatas, não foi preciso haver um comando organizado, que desse a senha para isso acontecer. Esse comando tem sido dado ao longo do último ano e meio, principalmente. Não dá para dizer que é uma mobilização espontânea por causa disso.

Qual é o papel dos aplicativos de conversa privada na articulação desses grupos?

Quando a gente tem postagens públicas, por exemplo, é mais fácil conseguir acompanhar, inclusive fazer denúncias. Em grupos mais ou menos restritos no Telegram e WhatsApp, grandes grupos radicalizados conseguem mobilizar ações, pessoas e recursos, por exemplo, pelo envio de dinheiro via PIX. Desmobilizar o digital é fundamental. Parte importante do que a gente está vendo sobre o fenômeno da extrema direita está ligado ao contexto da comunicação. Não foi a internet que inventou a extrema direita, mas, por outro lado, as redes digitais e a comunicação digital permitem que essas pessoas se reúnam, se organizem, mobilizem recursos e pessoas, coordenando ações. Além disso, cria-se essa situação de dissonância cognitiva, com mensagens e narrativas infundadas, ou teorias conspiratórias que vão mobilizando as pessoas. É fundamental que o Brasil passe por um processo de desradicalização desses grupos, que a gente enfrente isso como sociedade, em diferentes âmbitos, seja ele jurídico, seja pela atuação da sociedade civil, seja no campo da educação. O grande desafio para a manutenção do espaço democrático e da política é a questão da desinformação.


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