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Entrevista
Preso em dezembro de 2023, Ahmad Muhanna dirigia o Al-Awda, único hospital e maternidade então em funcionamento na região
Publicado em 05/11/2025 8:49 - Leonardo Sakamoto - UOL
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Cinquenta mil mortos separaram o momento em que o médico Ahmad Muhanna, diretor do Al-Awda, o único hospital e maternidade então em funcionamento no norte de Gaza, foi levado pelo Exército de Israel, em 17 de dezembro de 2023, até sua libertação, mais de um ano e dez meses depois.
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Ele não viu a sua terra natal passar de 19 mil para 69 mil mortos. O que não significa que não sentiu na prisão os efeitos da invasão israelense. “Fomos mantidos em espaços superlotados, privados de necessidades básicas como alimentação adequada, água limpa e atendimento médico. Muitos de nós fomos vendados por longos períodos, negaram nosso contato com as nossas famílias e fomos submetidos a pressões psicológicas e físicas”, contou ao UOL. Não teve advogado ou notícias do mundo exterior.
Ele foi um dos libertados após a assinatura do cessar-fogo entre o governo Benjamin Netanyahu (que, segundo especialistas das Nações Unidas, pôs em curso um genocídio no território) e o Hamas (responsável pelo ataque terrorista de 7 de outubro de 2023, que deixou quase 1,2 mil mortos em Israel). Patrocinado por Donald Trump, o cessar-fogo está por um fio.
Muhanna confirmou ao UOL as denúncias de tortura de prisioneiros contra o governo israelense: “Presenciei casos de maus-tratos severos. Muitos detidos foram espancados, humilhados e negaram atendimento médico, mesmo quando estavam feridos ou doentes. Alguns prisioneiros foram retirados e nunca mais retornaram, e soubemos depois que morreram enquanto estavam sob custódia”.
E qual a razão de ter sido preso? “Nunca foi dada uma justificativa clara para a minha prisão”, explica. “Minha detenção foi parte de um padrão mais amplo de perseguição a profissionais de saúde e instituições, o que viola a lei humanitária internacional e a santidade do trabalho médico.” As Forças de Defesa de Israel acusavam os hospitais de esconderem membros do Hamas, o que é negado por ele antes e depois de ser preso.
Apesar de terem recebido ordens do Exército para que o Al-Awda, no norte de Gaza, fosse esvaziado e fechado logo após o início dos bombardeios, Muhanna e sua equipe resolveram ficar por conta da demanda. Essa unidade fica em Jabalia, onde também estava o maior campo de refugiados de Gaza, alvo de bombardeios.
Um dia antes de ser preso, ele havia me dado uma entrevista sobre o cerco que os militares mantinham sobre o hospital Al-Awda. A unidade hospital permanecia sitiada, com tanques e franco-atiradores posicionados ao redor. Impactos de mísseis já haviam destruído ambulâncias, causado danos ao edifício e ferido funcionários, quando eles estavam atendendo às vítimas dos bombardeios do campo de refugiados. A situação era de calamidade dentro da unidade, com a falta de medicamentos, de oxigênio, de eletricidade e de água.
Em 21 de novembro de 2023, a organização Médicos sem Fronteiras divulgou nota declarando-se horrorizada com a morte de dois médicos do grupo que atuavam no Al-Awda após um bombardeio. Um terceiro médico que não pertencia à organização também morreu.
Muhanna contou que a maioria das crianças sobreviventes dos bombardeios chegavam ao hospital com queimaduras, cortes na cabeça e ossos quebrados nas extremidades. Tudo em um mesmo paciente. O motivo é que, com as bombas, as paredes desabam sobre elas. Em um ato reflexo, colocam as mãos na cabeça para se protegerem.
Após sua prisão, não teve notícias suas por todo esse tempo. Colegas fizeram uma campanha nas redes sociais e junto a organismos internacionais pedindo a libertação do diretor e de outros membros do hospital detidos com ele.
“Médicos e enfermeiros estão trabalhando hoje sob uma pressão inimaginável, muitas vezes sem descanso, e muitos perderam suas famílias enquanto ainda servem aos outros”, afirma o médico à coluna. “Apesar dessas dificuldades, nossas equipes médicas continuam a mostrar coragem e dedicação extraordinárias no cuidado dos feridos e doentes.”
Por quanto tempo o senhor ficou preso?
Fui preso por cerca de um ano e dez meses.
Quais eram as condições nas quais o senhor e os outros prisioneiros foram mantidos? Como vocês foram tratados?
As condições eram extremamente duras. Fomos mantidos em espaços superlotados, privados de necessidades básicas como alimentação adequada, água limpa e atendimento médico. Muitos de nós fomos vendados por longos períodos, negaram nosso contato com as nossas famílias e fomos submetidos a pressões psicológicas e físicas. Apesar dessas dificuldades, tentei manter a esperança e a fé de que a justiça prevaleceria.
Recebemos relatos de tortura e mortes entre os prisioneiros detidos por Israel. Presenciou tais situações?
Sim, presenciei. Casos de maus-tratos severos. Muitos detidos foram espancados, humilhados e negaram atendimento médico, mesmo quando estavam feridos ou doentes. Alguns prisioneiros foram retirados e nunca mais retornaram, e soubemos depois que morreram enquanto estavam sob custódia. O que eu vi me confirmou que essas práticas violam os princípios básicos da humanidade e o direito internacional.
O senhor chefiava um dos maiores hospitais e maternidades ao norte de Gaza quando foi preso. Conversamos várias vezes até aquele ponto, e você reafirmou que continuaria trabalhando com sua equipe para garantir a qualidade de vida da população. Então, qual justificativa foi dada para a sua prisão?
Nunca foi dada uma justificativa clara para a minha prisão. Fui retirado do meu local de trabalho enquanto realizava minhas funções médicas e humanitárias. Como médico, minha única missão sempre foi salvar vidas e cuidar dos pacientes, independentemente de quem sejam. Minha detenção foi parte de um padrão mais amplo de perseguição a profissionais de saúde e instituições, o que viola a lei humanitária internacional e a santidade do trabalho médico.
Como avalia o estado atual da saúde no território?
O sistema de saúde está em condições extremamente críticas. Muitos hospitais e clínicas foram destruídos ou não estão mais funcionando. Há uma grave escassez de medicamentos, equipamentos médicos e combustível para geradores. Médicos e enfermeiros estão trabalhando hoje sob uma pressão inimaginável, muitas vezes sem descanso, e muitos perderam suas famílias enquanto ainda servem aos outros. Apesar dessas dificuldades, nossas equipes médicas continuam a mostrar coragem e dedicação extraordinárias no cuidado dos feridos e doentes.
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