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Entrevista

‘Governabilidade na Bolívia depende do povo, não das elites’, afirma pesquisadora

Tatiane Watanabe afirma que manifestantes não querem golpe, mas manutenção de direitos conquistados

Publicado em 28/05/2026 8:22 - Tatiana Carlotti – Opera Mundi

Divulgação Reprodução

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A Bolívia completou três semanas de intensas mobilizações sociais. Embora protagonizados por diferentes setores, com agendas específicas, as mobilizações em sete dos nove departamentos do país apontam para um rechaço generalizado contra a guinada neoliberal do governo Rodrigo Paz. Segundo Tatiane Anju Watanabe, doutoranda em Economia Política Mundial pela Universidade Federal do ABC (UFABC), a gestão direitista está ameaçando conquistas históricas, consolidadas ao longo das últimas décadas dos governos socialistas no país.

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Pesquisadora do Grupo de Estudos e Análises da América Latina Contemporânea (GEALC), Watanabe disse a Opera Mundi, que, historicamente no país, é o apoio popular que garante a governabilidade. “Na Bolívia, é o povo que mantém os presidentes”.

Para Watanabe, os bolivianos são mais politizados do que os brasileiro, afirmando que o país vizinho “é de muitas lutas e vitórias”, mencionando que os setores que estão nas ruas se formaram nas lutas e conquistas da Revolução Nacional de 1952 e do Estado Plurinacional instaurado pelo ex-presidente Evo Morales, em 2006.

Ela também frisa que, ao contrário do que alega a direita boliviana, Evo apoia as manifestações, mas não está por trás delas, muito menos planeja um golpe de Estado, do qual foi vítima em 2019. A causa da insurreição popular, destaca a pesquisadora, é o próprio desmonte de conquistas históricas perpetrado pelo atual governo.

 

Tatiane, o que está motivando as mobilizações na Bolívia?

Os bolivianos estão protestando contra as medidas que o presidente do país, Rodrigo Paz Pereira, tomou ao longo desses seis meses de governo. Estamos na terceira semana de um levante popular, o maior desde a insurreição do início deste século. A primeira onda ocorreu no segundo mês do governo, iniciado em novembro de 2025, quando Paz anunciou um pacote econômico fortemente neoliberal, incluindo o decreto 5503 que eliminou os subsídios aos combustíveis, implementados pelo governo Evo, que congelava os preços dos combustíveis por quase 20 anos. O presidente alegou que os subsídios prejudicavam o Estado e que era preciso eliminá-los.

Em seu programa de governo, na época das eleições, ele já colocava muito claramente uma concepção de Estado como uma empresa, acenando políticas neoliberais, como abertura às exportações e o fomento de iniciativas privadas e público-privadas. Assim que anunciou as medidas de seu governo, o presidente boliviano encontrou forte resistência, grandes mobilizações tomaram as ruas bolivianas por quase um mês. Ele voltou atrás em várias questões, mas manteve a eliminação dos subsídios aos combustíveis, o que promoveu um aumento de 86% da gasolina e de mais de 160% do diesel, gerando um forte aumento do custo de vida.

Agora, os motoristas estão mobilizados, além de outros setores como os estudantes e professores que fizeram uma grande manifestação em El Alto, onde ocorreu a Guerra do Gás. São diversos setores mobilizados porque o aumento dos combustíveis afeta a vida de todos.

Os povos indígenas também estão mobilizados, quais as principais reivindicações? 

Outra questão que vem mobilizando a população foi a tentativa do governo de emplacar uma lei que permite transformar pequenas propriedades em propriedades médias, incluindo a hipotecagem das terras, permitindo que elas virem ativo financeiro. A Bolívia teve uma das maiores reformas agrárias visando impedir a concentração de terras. A lei permitiria transformar as pequenas em médias propriedades, abrindo inclusive essa possibilidade nos territórios indígenas. Então, os povos indígenas e os campesinos deram início a uma marcha rumo a La Paz e conseguiram fazer o governo recuar nesta proposta.

Também entrou nas manifestações um grupo muito importante que são os Ponchos Rojos, a milícia armada de guerreiros do povo aimará. Eles tiveram uma atuação extremamente importante na Guerra do Gás, em 2003, que derrubou o governo neoliberal de Gonzalo Sánchez de Lozada.

Em 2024, durante o governo Arce, eles também se mobilizaram e agora voltaram à cena com o lema de guerra civil. Daí essas cenas de confronto mais violento. Eles são importantíssimos para as mobilizações.

Há algum comando ou unidade nessas mobilizações?

Não há nenhum movimento que unifique essas lutas, como foi o Movimento ao Socialismo (MAS). O que existe é uma grande pauta de resistência aos ataques neoliberais. No início do século 21, havia uma agenda em prol do Estado plurinacional e da nacionalização. Era uma pauta mais propositiva. Agora, esses movimentos pressionam pelo recuo de Paz nas leis ou sua renúncia, algo que eu não vejo acontecer, mas conforme as mobilizações se espalham, é possível que esse cenário mude.

A eleição de Evo Morales, em 2006, construiu algo muito importante para os movimentos e, em particular, para os povos indígenas, que foi a defesa da via institucional. Eles não estavam, naquele momento, mobilizados para realizar um golpe, mas sim para ter uma eleição e colocar seu representante no poder.

Em 2008, quando a direita se mobilizou contra o Evo, a solução foi a realização de um referendo revogatório, para definir se a maioria da população queria que ele continuasse no poder. Isso foi feito e mais de 61% da população votou pela continuidade do seu governo. O voto sempre foi o caminho para o povo boliviano. É uma postura muito diferente do que a direita hoje alega sobre esses movimentos. Eles não querem um golpe contra o governo Paz. Eles querem uma forma legítima para solucionar essa crise e a maioria da população quer que seja pela via democrática.

Quais as soluções possíveis neste sentido?

Seria o presidente Paz voluntariamente renunciar. Há, também, o chamado referendo revogatório de meio de mandato, usado por Evo em 2008. A Constituição boliviana prevê, no meio do mandato, um referendo para as pessoas votarem novamente. Aí se o presidente tiver maior rejeição do que os votos recebidos na eleição, ele cai. Mas esse referendo tem de ser demandado e é preciso uma mobilização para isso, via institucional.

O governo boliviano vem culpando o Evo pelas manifestações, como você avalia isso?

As mobilizações não estão ligadas diretamente a Evo. É uma coisa do país, ele não é uma figura central nisso. Ele tem uma grande base, nas eleições conseguiu quase 20% dos votos nulos ao dizer “votar nulo é votar em mim”, para deslegitimar a eleição. Mas, o Evo ganhava eleições com mais de 50%. Inclusive, com mais de 62%.

Ele vem sendo acusado desde o governo Arce, quando teve o primeiro mandado de prisão decretado, por tráfico de menor, exploração infantil, tráfico de influência e terrorismo, por ter bloqueado estradas. Mas Arce nunca colocou a polícia para prendê-lo, primeiro, porque Evo está na região do Chapare, onde tem sua base mobilizada para defendê-lo; segundo porque prendê-lo seria torná-lo um mártir.

Mas Paz está dizendo que ele está querendo implementar um golpe e derrubá-lo. Isso cai por terra porque as mobilizações estão acontecendo mais em La Paz. Evo está apoiando as mobilizações, mas não é mais o grande líder que foi.

Paz foi eleito no ano passado com Evo, como você mencionou, puxando o movimento pelo voto nulo. Quem foram esses eleitores do Paz?

Durante as eleições, Paz conseguiu se vender com um discurso de renovação, como alguém fora da política, e parte dos eleitores do MAS votaram nele, acreditando que ele não mexeria nos direitos e melhoraria a situação econômica do país. Para eles, trata-se de uma traição. Foi eleito pelas pessoas que rechaçaram o retorno da velha direita, que retirou direitos e aumentou a desigualdade social, e foi representada nas eleições pelo [Jorge] Tuto Quiroga e [Samuel Doria] Medina.

Agora, quando olharmos o programa de governo, o lema defendido pelo Paz era “capitalismo para todos”, ou seja, havia o aceno de que se tratava de um candidato neoliberal. No discurso, porém, Paz defendeu pautas de centro-direita, como políticas sociais, direito às mulheres, à população LGBTQIA+, mas ao assumir o governo ele atua como direita.

É um mandato fortemente neoliberal e, na Bolívia, a direita não traz estabilidade, porque o povo boliviano sempre irá nas ruas para se mobilizar contra os ataques que sofre. É um povo muito mais politizado do que nós [do Brasil]. É um país de muitas lutas e eles conseguiram muitas vitórias.

A Bolívia passou pela Revolução Nacional de 1952 que levou à nacionalização dos recursos no país. Ali começa o Estado da nação da boliviana. Foi um movimento da pequena burguesia junto com a população, era muito mais operário e mineiro. Em 2006, quando Evo chega ao poder, os indígenas entram na cena institucional e no poder, de fato.

Os bolivianos nunca deixaram de lutar, inclusive, quando Evo fazia algo que não gostavam, eles iam para as ruas, por conta de todo esse histórico de lutas e conquistas. São setores políticos extremamente politizados porque participaram desses processos. Por isso eles enxergam a via institucional como a saída para avançar em seus direitos.

É importante termos em conta que estamos vendo nos jornais as maiores mobilizações, que ocorrem em La Paz, mas há bloqueios de estradas e manifestações em outros departamentos da Bolívia.

De modo geral, como você avalia essa agenda de mobilizações?

Embora exista uma resposta à conjuntura, as mobilizações vão muito além disso. Elas são para manter um modo de vida do Estado Plurinacional, aprovado no início de 2008 com a nova Constituição. É muito mais para demarcar e defender a continuidade do que já estava ali.

A Bolívia é um país de muitas nações, nacionalidades, povos e idiomas. Por muito tempo, os indígenas estiveram fora da política, mas a partir do momento em que foi aprovado, o Estado Plurinacional reconheceu os seus direitos, o bem-viver e a cosmovisão defendida pelos povos andinos. Eles reconhecem que os recursos naturais são um bem comum do povo e para o povo. Por isso, junto com o Estado plurinacional, foi aprovada a nacionalização dos seus recursos naturais. A plurinacionalidade é esse reconhecimento de povos diversos que sempre foi a Bolívia.

Como você analisa a proximidade do governo boliviano com os Estados Unidos?

Paz indicava essa reaproximação com os Estados Unidos no seu programa de governo. A Bolívia tinha cortado relações diplomáticas com os Estados Unidos em 2008, durante o governo Evo. Os Estados Unidos financiavam grupos opositores para desestabilizar o governo.

Ao chegar ao poder, uma das primeiras medidas de Paz foi retomar as relações diplomáticas. Agora ele faz parte da coalizão do Trump, o Escudo das Américas, com o presidente da Argentina, Javier Milei, enviando dois aviões ao país e dizendo tratar-se de ajuda humanitária. Os movimentos já estão denunciando que pode ter vindo armamento de repressão, porque em 2019, com o golpe contra Evo, aconteceu a mesma coisa. O então governo [Maurício] Macri enviou armamentos para reprimir o povo boliviano.

Paz Pereira sustenta o discurso de que é preciso modernizar o país. Ele fala em um Estado que “tranca a renovação” e que é necessário trazer empresas. Os governos do MAS, de Morales e Arce, apesar de ter suas diferenças, estavam priorizando os acordos com empresas chinesas e russas. Agora, eles querem abrir para empresas estadunidenses.

Como está a questão em torno do lítio?

O governo Paz está elaborando uma nova lei de lítio que deve sair ainda esse ano. Ele sempre afirma que o país não está conseguindo explorar o lítio, porque estava deixando os Estados Unidos de lado e que as empresas norte-americanas precisam do minério.

O plano do Evo Morales para o lítio era bem avançado. Ele propunha a industrialização: não somente explorar a matéria-prima, o lítio bruto, mas para construir plantas pilotos destinadas à fabricação de baterias elétricas. Era uma proposta visando agregar valor ao lítio e impedir que a Bolívia novamente se tornasse um país extrativista, ou seja, que extrai e exporta o lítio bruto para outro país que vai se industrializar com isso. Só que isso deu errado.

No governo Arce, houve muito pouca exploração de lítio. Agora, os contratos com as empresas chinesa e russa estão parados. O Arce tentou acelerar antes dele sair, mas isso não começou. O fato é que apesar de ser o país com a maior reserva de lítio, a Bolívia não produz quase nada. É uma produção muito irrelevante. O lítio é totalmente nacionalizado, a empresa estatal cuida de todas as etapas produtivas. Ainda vamos ver os desdobramentos disso, por ora, a questão está parada.

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