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Entrevista

Escolha do Nobel pode endossar ataque dos EUA à Venezuela, diz especialista

Para Pablo Uchôa, a possibilidade de uma intervenção militar na América do Sul é pavorosa

Publicado em 16/10/2025 8:57 - Leonardo Sakamoto - UOL

Divulgação Reprodução

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A decisão do comitê de Oslo de conceder o Prêmio Nobel da Paz à opositora venezuelana María Corina Machado é vista como uma escolha política e controversa por Pablo Uchôa, pesquisador e docente do Institute of the Americas da University College em Londres. Para ele, que se debruça há décadas sobre o país, a premiação ignora o passado antidemocrático da líder e pode até servir como um atalho para a influência de Donald Trump sobre a América Latina.

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Uchôa avalia que, ao destacar uma figura individual, o Nobel perdeu a chance de reconhecer a luta coletiva pela democracia na Venezuela e, pior, pode, contraditoriamente, acabar legitimando uma escalada militar dos EUA contra o país, algo que Corina Machado chegou a defender. O governo Donald Trump enviou navios de guerra ao Sul do Caribe, frente à costa venezuelana, com o argumento de combate o narcotráfico e, nesta semana, autorizou a CIA a intervir no país, escalando a crise á nível continental.

A homenagem à opositora ocorre em um momento em que o país segue com um governo autoritário e com crise de legitimidade. Estimativa de votos baseada em amostra estatisticamente representativa dos boletins de urnas realizada pelo grupo independente de pesquisadores, incluindo brasileiros, aponta que Edmundo González, da oposição, venceu Nicolás Maduro por 66% a 31% na Venezuela. Em julho do ano passado, o Conselho Nacional Eleitoral anunciou que Maduro havia vencido por 51% a 44%.

Desde que o resultado foi proclamado, o país viveu protestos, prisões de lideranças da oposição, busca por refúgio em embaixadas e guerra de versões. O Brasil ainda não reconheceu a vitória de Maduro, bem como a União Europeia e os Estados Unidos, entre outros. China, Rússia e Irã, por outro lado, parabenizaram-no pela reeleição.

Pablo Uchôa defende que teria sido mais oportuno um prêmio a uma organização da sociedade civil nos Estados Unidos que atuasse na luta pela democracia. “No ano em que o espectro do fascismo começa a se alastrar pelos Estados Unidos, o comitê do Nobel resolve premiar a sua maior aliada na América Latina”, avalia.

 

Como podemos analisar a escolha do comitê de Oslo de dar o Nobel da Paz este ano para María Corina Machado?

A escolha do Prêmio Nobel da Paz é sempre uma declaração política, e nem sempre essa decisão política enfatiza a moderação ou mesmo o papel dos galardoados em criar pontes entre as diferentes visões política. Fica implícito que a paz às vezes se alcança pelo conflito. Isto dito, tenho fortes reservas à escolha de María Corina Machado por causa do seu passado antidemocrático e adoraria ter sido uma mosca na parede para ouvir as deliberações do comitê.

Por um lado, creio que o Nobel procurou se esquivar da pressão de Donald Trump, cuja campanha para ser homenageado este ano foi notória. Seria uma imensa distopia se chegássemos ao ponto de outorgar o Nobel a Trump, mas isto sem dúvida explica uma parte do seu afã para tentar costurar o acordo Israel-Hamas para parar a guerra em Gaza. Por outro lado, destacar Corina Machado de forma singular é endossar uma liderança que seria um fortíssimo canal para as políticas de Trump na América Latina. Ou seja, suspeito que para evitar o dilema de impor Trump ao mundo, o Nobel resolveu mandá-lo para a América Latina via proxy.

Nesse processo, acho que o comitê perdeu uma grande oportunidade de destacar que a luta pela democracia não se faz por uma pessoa nem por um pequeno grupo, mas é um processo de construção coletiva. Mesmo se aceitarmos a orientação política do Nobel, faria muito mais sentido que a premiação tivesse sido dada à oposição venezuelana como um todo, da mesma forma que o Nobel já premiou organizações que representam a sociedade civil na Ucrânia e mesmo organismos como a União Europeia e a ONU.

Na verdade, teria sido muito mais oportuno que o prêmio tivesse sido concedido a uma organização da sociedade civil nos Estados Unidos que representasse a resistência contra a maior ameaça à democracia a nível global, que é o próprio Trump. No ano em que o espectro do fascismo começa a se alastrar pelos Estados Unidos, o comitê do Nobel resolve premiar a sua maior aliada na América Latina.

A concessão do Nobel da Paz para uma opositora venezuelana no momento em que os EUA apontam navios de guerra para Caracas e envolve a CIA no contexto pode ser usado como pretexto para uma ação militar, o que seria uma contradição à natureza do prêmio?

Sem dúvida, pois Corina Machado é uma das principais defensoras de uma intervenção na Venezuela. Em suas mais recentes declarações, há dois dias, ela disse que a Venezuela entrava em uma fase “resolutiva”. Isto coincide com a decisão de Trump de encerrar as negociações diplomáticas com o país, afirmando que a operação americana no Caribe transicionava de uma fase “marítima” para uma fase “terrestre”.

O prospecto de uma intervenção militar na América do Sul é pavoroso. A nossa experiência em termos de “promoção da democracia” por parte dos EUA é terrível e os riscos de criarmos um “Iraque” na região são palpáveis. Nesse contexto, ao destacar o papel de Corina Machado, o comitê do Nobel pode estar endossando um conflito internacional que a história não perdoará. E se isto ocorrer, todos os países da região serão afetados.

Qual a situação na Venezuela hoje após Maduro se manter à força no poder mesmo após observadores internacionais independentes apontarem que ele perdeu a eleição?

É uma situação difícil, mas que pode ser analisada de diversas formas. A contestação política não necessariamente se vê no dia a dia, embora seja muito comum ouvir críticas ao governo. Mas no seu dia a dia, as pessoas querem simplesmente viver sua vida, cumprir a semana de trabalho, comprar farinha de arepas para alimentar a família e desfrutar das suas horas de lazer.

Persiste uma cicatriz profunda do período 2017 a 2020, que foi extremamente difícil: o país vivia uma hiperinflação galopante, uma oposição intransigente e uma repressão pesada aos protestos de rua contra o governo, sanções draconianas de Trump ao setor petroleiro, uma fuga de migrantes para os países vizinhos, os EUA e a Espanha. Ninguém quer voltar a esse cenário apocalíptico. Passado esse momento e a pandemia, o país cresce já vários trimestres consecutivos.

Por outro lado, a legitimidade do governo após as eleições de 2024, se já era questionada, ficou ainda mais combalida. Porque eleição é eleição, e quem ganha tem de governar. O governo diz que ganhou, mas perdeu a narrativa. É impossível desconsiderar esse fator em qualquer análise política sobre a Venezuela.

O governo planeja introduzir em 2026 uma reforma constitucional para ampliar os poderes das comunas, que são uma instância de participação alinhada ideologicamente com o governo por definição. Segundo Maduro, isto melhoraria o diálogo entre o governo e as camadas populares, mas os problemas de canalizar a participação popular dentro de uma estrutura corporativista são óbvios.

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