25/05/2024 - Edição 540

Entrevista

Entrevista: Rodrigo de Paula Aquino – Diretor-presidente da Fundação de Serviços de Saúde de Mato Grosso do Sul (Funsau)

Publicado em 09/11/2013 12:00 -

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O Hospital Regional Rosa Pedrossian tem cerca de 1.800 colaboradores – entre eles 350 médicos -, 320 leitos, faz cerca de 1.300 internações por mês, atende uma média de 100 pessoas por dia no pronto-socorro e serve mais de 70 mil refeições a cada trinta dias. Administrando esta cidade há pouco mais de três meses o diretor-presidente da Fundação de Serviços de Saúde de Mato Grosso do Sul (Funsau), Rodrigo de Paula Aquino – que assumiu a vaga de Ronaldo Perches Queiroz, que foi exonerado do cargo após divulgação de escutas telefônicas na Operação Sangue Frio, da Polícia Federal – aposta em um choque de gestão para otimizar o atendimento no hospital, mas alerta: “Estamos assumindo uma demanda que é do município de Campo Grande no atendimento de baixa complexidade”. 

Por Victor Barone

O Hospital Regional (HR) tem observado nos últimos meses um substancial aumento no atendimento. O que está originando isso?

É verdade. Não acredito que nossa população esteja mais doente. Hoje em dia todo mundo se cuida, se alimenta da melhor forma possível, faz alguma atividade física. Em algum outro lugar há um gargalo, provavelmente na rede básica de saúde, que é de atribuição do município. Este gargalo pode significar falta de atendimento, de médico, de equipamento. Internamos em outubro 1.390 pacientes. Em janeiro foram 1197. Não é um crescimento pontual, mas constante e progressivo. Em outubro tivemos 872 atendimentos no pronto-socorro, em clínica médica. É Unidade Básica de Saúde (UBS) que está parada. Foram 699 pacientes de pediatria. Se a criança está chegando aqui, é porque, provavelmente, não esta tendo atendimento lá na UBS.

O pronto-socorro do HR recebe em media 100 pacientes por dia. São 3 mil atendimentos por mês. É um número importante para o sistema de saúde municipal.

Muito importante. No pronto-socorro do HR temos a classificação de risco. O paciente vermelho, de urgência, vai para uma sala equipada, com médicos à disposição e recebe um atendimento imediato. As salas amarela e verde são para observação, monitoramento de pacientes menos graves. E temos, finalmente, o atendimento azul, que podemos encaminhar para a rede municipal. Como somos um hospital de média e alta complexidade é recomendável que esclareçamos a estes pacientes que a prioridade são as urgências. Por isso nós informamos ao paciente que ele será atendido após as urgências e emergências, mas que ele tem a opção de se dirigir a rede municipal, a rede básica. No entanto, via de regra, este paciente opta por esperar o atendimento aqui. Quando a população procura uma unidade hospitalar para atendimento é porque a rede básica ou as unidades 24h do município não estão funcionando bem. Ou não tem atendimento ou é de má qualidade. Não tem outra explicação.

Esta não é a função do Hospital Regional…

Não, não é. Uma medicina hospitalar é cara demais. Manter uma unidade como esta, complexa, para fazer atendimentos que poderiam ser feitos em outro local é muito ruim para o sistema de saúde do município. O HR deveria ser reservado para urgência, emergência e atendimentos de alta complexidade, e principalmente para atender aos municípios do Estado, que demandam esta alta complexidade. No entanto, hoje, 90% dos pacientes que chegam ao pronto-socorro são de Campo Grande. Apesar disso, quem aqui chega é atendido. Não tem esta história de cartão do SUS, de encaminhamento. Chegou à porta do pronto-socorro vai ser atendido.  

Quando a população procura uma unidade hospitalar para atendimento é porque a rede básica ou as unidades 24h do município não estão funcionando bem. Ou não tem atendimento ou é de má qualidade. Não tem outra explicação.

A burocracia é um dos grandes problemas do país. Como ela está sendo combatida no HR?

A burocracia é um entrave sempre e acho que estes processos todos, apesar de serem necessários, atrapalham muito. Por exemplo: o HR tem condição de dar iniciar um tratamento oncológico de forma imediata. No entanto, se o paciente não tem cartão do SUS não posso atender. Outro fator é o seguinte: somos um município sob a gestão plena na saúde. Apesar de ser o Governo Federal e o Governo do Estado quem mantém o hospital financeiramente, as prestações de contas e regulamentações são com o município. Para que eu inicie o tratamento preciso que um auditor do município autorize. O município deveria colocar auditores em todas as unidades para acelerar este processo. Mas isso não ocorre. Preciso mandar a autorização ao município para que ele faça esta devolutiva. Isso leva dois meses.

Como está a relação entre o Hospital Regional e a Prefeitura de Campo Grande?

Praticamente todas as vezes em que nos relacionamos, o gestor municipal não criou nenhuma facilidade para o HR. Ao contrário. Nas diversas necessidades foram criadas mais formalidades e obstáculos. Não há uma tratativa no sentido de criar instrumentos que facilitem a administração do hospital. Até por isso foi criado recentemente um fórum de discussão dos gestores hospitalares, em busca de tratamento uniforme e simplificado. Este é um sentimento generalizado: o município esta sobrecarregando o HR.

Quanto custa manter o HR em funcionamento?

O Governo do Estado investe, em media, R$ 11 milhões em recursos humanos no HR, todos os meses. Corresponde a 64% das despesas do hospital. Nós giramos um custeio de cerca de R$ 6 a 7 milhões por mês com o restante da administração. Aqui é 100% SUS. Nossas fontes de receita são o Governo do Estado e o Governo Federal. O município de Campo Grande até poderia colocar recursos, mas não coloca. Não estamos deficitários. Os recursos financeiros alocados tem sido suficientes para custear o hospital. Mas é importante salientar que o crescimento no número de atendimentos e na demanda por novas tecnologias e medicamentos geram novos custos. Este é nosso principal desafio.

E o que está sendo feito para fazer frente a este desafio?

Temos que aperfeiçoar nossos processos de trabalho para diminuir o custeio, despesas e desperdícios. Discutimos estes processos de trabalho permanentemente, sem perder a qualidade do atendimento.

Campo Grande passou por uma crise na saúde, com denúncias de irregularidades em diversas unidades, especialmente no HU e no Hospital do Câncer. Como o HR saiu destes escândalos?

O importante para nós é que o HR, desde que surgiram os problemas que envolveram investigações policiais, nunca fechou nenhuma porta para a entrada de pacientes, nunca deixou de prestar nenhum serviço. Tivemos problemas no pronto-socorro do HU, aumentou o número de pacientes do HR. Tivemos problemas em cirurgia cardíaca no HU, assumimos a demanda. Não diminuímos o atendimento em momento algum.

Estes escândalos se deram, especialmente, na oncologia. Isso gerou um aumento na demanda do serviço no HR?

Sim, de fato a crise gerou um aumento significativo na oncologia do hospital. No pronto socorro saímos de 88 pacientes em agosto para 103 em outubro. Na internação saímos de 130 pacientes para 145. Na cirurgia, de 26 para 30. Se pegarmos o último relatório consolidado vemos que a oncologia adulta teve em janeiro 304 pacientes e em setembro 408. O setor de ortopedia ligado à oncologia pulou de 30 para 48 pacientes. Neste ano foram feitas 150 cirurgias na oncologia, mais 28 da ortopedia oncológica.

Como estes números impactaram nas despesas?

Em julho a oncologia consumiu, em insumos, R$ 217 mil. Em outubro foram R$ 438 mil. Isso significa que, apesar de verificarmos aumento de 30 a 40% no número de pacientes, este aumento é maior na hora de pagar a conta.

Há momentos em que terceirizar é mais barato. Por exemplo, na questão da anestesiologia. Em Campo Grande, todos os médicos anestesistas pertecem a um sistema cooperativado.

Segundo relatório do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Denasus), o HR foi a unidade hospitalar de Campo Grande que mais se preparou para um atendimento de qualidade na oncologia.

É verdade. Por isso o hospital foi contemplado com a distribuição de um dos três aceleradores que o Ministério da Saúde mandará para Mato Grosso do Sul. Nesta primeira fase ocorrerá a aquisição dos aceleradores por parte do ministério e a contratação de empresa para elaboração dos projetos básico e executivo e de fiscalização e execução de obra. Depois que forem feitos os projetos, o ministério vai lançar edital para a contratação da obra. Teremos um prédio de 1.400 metros quadrados e passaremos a realizar aqui todos os procedimentos oncológicos como a quimio e a radioterapia.

Como o HR enfrenta a questão das faltas nos plantões?

Temos necessidade de plantões e cargas horárias extras para fecharmos as escalas. Mapeamos as necessidades do hospital e as dividimos em valores. Cada diretoria tem sua cota financeira para administrar sua necessidade para fechamento de escalas. As diretorias desdobraram esta divisão por setores. Quando descentralizamos esta gestão temos uma melhor definição das planilhas de plantões e podemos identificar possíveis problemas. Cada chefe de setor deve gerir seu setor. Se determinado setor não cumpriu sua cota não recepciono a planilha de horas extras. Não temos enfrentado problemas nesta questão.

Outro ponto crítico, e bastante criticado na saúde pública em Mato Grosso do Sul, é a terceirização do serviço.

Há momentos em que terceirizar é mais barato. Por exemplo, na questão da anestesiologia. Em Campo Grande, todos os médicos anestesistas pertecem a um sistema cooperativado. Na última vez que fizemos concurso apareceu um inscrito. Foi aprovado e tomou posse. Não existe intenção dos anestesistas em participar de concurso e ficar vinculados a apenas um emprego, como servidores. No entanto, fizemos uma conta considerando nossa necessidade de anestesistas e vimos que gastaríamos cerca de R$ 650 mil por mês se ocupássemos todas as vagas necessárias com concursados. Hoje gastamos, em média, R$ 300 mil por mês com a contratação de uma empresa que presta o serviço. Em relação a equipamentos a situação é parecida. O HR tem um parque de equipamentos de R$ 30 milhões e paga cerca de R$ 500 mil por mês em locação. Devido à atualização permanente da tecnologia destes equipamentos é melhor a locação, com o quesito contratual que obriga o locador a manter os equipamentos atualizados. Acaba sendo mais eficiente.


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