20/06/2024 - Edição 540

Entrevista

Entrevista: ‘A expulsão dos nativos, sejam indígenas ou palestinos, não é um evento histórico, mas uma dinâmica estrutural permanente’

Bruno Huberman explica que no centro do massacre na Palestina há um velho conhecido nosso: o colonialismo, a disputa pela terra, dessa vez com um face neoliberal

Publicado em 03/06/2024 8:59 - Caio Almendra – Intercept_Brasil

Divulgação

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Essa semana boa parte das redes sociais foram tomadas com cenas de mulheres e crianças carbonizadas em mais um ataque israelense, desta vez em ao campo de refugiados na cidade de Rafah, ao sul da Faixa de Gaza.

O ataque ocorreu dois dias depois de a Corte Internacional de Justiça exigir o fim da violência contra refugiados. As imagens geraram indignação internacional, porém o genocídio continua.

O atual genocídio palestino começou em outubro de 2023. Porém, a situação de limpeza étnica começa com a Nakba de 1948, a expulsão de palestinos para formar o estado de Israel, e de ocupação e violações de direitos humanos seguem desde então.

Israel segue destruindo hospitais, escolas, universidades e matando mais de 40 mil pessoas, sendo mais de 10 mil crianças.

Em paralelo, os israelenses também intensificaram a ocupação na Cisjordânia e na Jerusalém Oriental, removendo palestinos de suas casas, destruindo seus bairros e construindo casas para israelenses no lugar.

Para entender melhor o contexto histórico da ocupação colonial de Israel, entrevistamos Bruno Huberman, professor de relações internacionais da PUC. Para ele, a colonização se dá, hoje, sob parâmetros neoliberais de estado mínimo: mais repressão, menos direitos dos trabalhadores, menos estado do bem estar social.

“As pessoas de diferentes religiões e etnias conviviam em harmonia em Jerusalém”, explica Huberman. “Com a ocupação israelense de Jerusalém em 1967 e anexação de Jerusalém Oriental em 1980, os palestinos se tornaram residentes permanentes, constituindo uma das facetas do apartheid israelense”.

Huberman faz parte do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais da PUC-SP e é autor do livro “A Colonização Neoliberal de Jerusalém”. Leia a entrevista a seguir:

 

Pode nos contar um pouco sobre sua trajetória acadêmica e profissional? O que inicialmente despertou seu interesse pela questão palestina e pela situação de Israel e, em especial, de Jerusalém?

O interesse surgiu depois de eu ir, em 2011, para uma viagem financiada por Israel para jovens judeus chamada “Taglit – Birthright Experience”. Eu já era um jovem envolvido em movimentos estudantis de esquerda, mas sionista alienado dessa minha identidade.

Isto é, ser sionista era parte da minha identidade judaica mas eu não tinha consciência disso. Sabia que Israel teria feito coisas erradas, mas não entendia nada. E nessa viagem, percebi a lavagem cerebral.

Nos dias seguintes ao programa, junto de outros colegas, fomos para o campo de refugiados de Deheishe, em Belém, e eu fiquei impressionado quando um palestino mostrou todo o mapa de Israel e disse que aquilo era a Palestina.

Desde então, acredito que o interesse por Jerusalém permaneceu e veio a se tornar o objeto de estudo do meu doutorado muitos anos depois.

Você poderia nos contar por que Jerusalém é uma cidade tão central no conflito israelo-palestino?

Jerusalém é importante por causa da Cidade Velha que hospeda os locais sagrados: Muro das Lamentações, Mesquita de Al-Aqsa e Igreja do Santo Sepulcro. A cidade sempre foi o centro político da vida palestina e importante local de comércio. As pessoas de diferentes religiões e etnias conviviam em harmonia na cidade.

O conflito começa com a ascensão do sionismo, particularmente durante o Mandato Britânico, que começa a expulsar o campesinato, empurrando-os para as cidades, onde se constituíam como trabalhadores precários. Isso foi criando animosidade até a Revolta de Buraq (o nome em árabe para o Muro das Lamentações), em 1929, pelo acesso ao local religioso entre sionistas e palestinos.

Depois da Nakba – quando há destruição de 500 vilarejos, expulsão de 800 mil palestinos em 1948-49 por forças paramilitares sionistas no processo de construção de Israel –, a cidade é dividida e a Cidade Velha fica sob o governo jordaniano, que queria manter soberania sobre os locais sagrados e, na prática, era contra a autodeterminação palestina.

A reunificação de Jerusalém sob a ocupação israelense, em 1967, e a anexação de Jerusalém Oriental, em 1980, não significou cidadania e democracia para os residentes palestinos. Os palestinos se tornaram residentes permanentes, constituindo uma das facetas do apartheid israelense. Essa residência pode ser revogada a qualquer momento, por exemplo, e é bem mais limitada do que a cidadania.

Jerusalém Oriental está sob o governo civil israelense e o plano diretor municipal é utilizado pelo estado para construir assentamentos judaicos  – são 12 assentamentos, com aproximadamente 500 mil colonos judeus.

E como são as políticas de repressão sob o neoliberalismo? 

O aumento da repressão pelo estado é visto como importante para conter a insatisfação popular diante de medidas econômicas duras que seriam racionalmente necessárias para uma transformação social capaz de promover o verdadeiro desenvolvimento e assegurar a liberdade individual.

Isso é possível de ser visto na repressão no Chile de Pinochet, que assegurou o neoliberalismo no país décadas depois; na ocupação americana do Iraque; no governo de Margaret Thatcher para fazer o “Reino Unido grande novamente”; e hoje na Argentina de Javier Milei.

Em Israel, a privatização das indústrias militares é uma dinâmica de neoliberalismo autoritário, que faz da guerra permanente uma fonte de lucro extraordinário. O EUA investiu pesado no complexo industrial-militar israelense, que é a origem da indústria high-tech do país e até hoje há muita proximidade entre desenvolvimento de tecnologia militar e civil.

E a figura racista do “terrorista islâmico” justifica a continuidade das guerras imperialistas no Oriente Médio em favor dessa indústria bilionária.

Seu livro aborda um grande conjunto de contradições na vida política de Jerusalém. Há uma pressão por cortes de gastos e de serviços. Mas há uma necessidade de controle sobre a população palestina. Podemos começar o entendimento dele por aí.

O livro aborda como o controle da população palestina em Jerusalém Oriental não vai se dar mais somente por medidas de exclusão e vigilância, mas também através de políticas de inclusão, de característica neoliberal.

Argumento que a inclusão neoliberal não resulta em desenvolvimento e não assegura direitos, embora alguns tenham a impressão que signifique, inclusive, a descolonização.

Ao responsabilizar os sujeitos pela sua própria inclusão através de programas de capacitação empreendedora e criação de oportunidades no mercado, Israel coloca os palestinos como responsáveis por seu sucesso e fracasso.

Pois, o neoliberalismo defende a igualdade de oportunidades. O resto é merecimento próprio. Dessa forma, o apartheid é reproduzido pelo mercado e você supostamente não poderia mais responsabilizar o estado pela segregação.

As estruturas racistas que constituem a desigualdade seriam normalizadas com a igualdade de oportunidades.

Essas políticas incentivam os palestinos a recorrer a estratégias individualistas de sobrevivência, que vai alterando as suas subjetividades na direção de formasisraelense e neoliberal.

Consequentemente, há um afastamento de formas coletivas de mobilização pela libertação nacional, que são vigiadas e reprimidas pelo estado. As formas empreendedoras passam a ser vistas como pragmáticas e racionais para assegurar os direitos e bem estar diante do entrave político que a libertação da Palestina se encontra.

Mas, os palestinos seguem encontrando formas alternativas de resistência e buscam combinar formas de sobrevivência econômica com mobilizações coletivas de resistência. Porém isso está se tornando cada vez  mais difícil.

A inclusão se torna uma alternativa de contrainsurgência para os israelenses diante da persistência da resistência palestina, uma vez que Jerusalém Oriental se tornou um dos principais locais de resistência.

Isso, somado à necessidade do capital israelense de exploração do trabalho barato, a pressão da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, para Israel diminuir a desigualdade social e o entendimento de que os palestinos precisam de um mínimo de bem estar para serem pacificados, motivou as políticas de inclusão.

Apesar de elas não resultarem em nenhum bem estar coletivo, alguns indivíduos podem melhorar de vida, o que acaba por dinamizar a situação de subalternidade que os palestinos se encontram e auxilia na na manutenção da soberania colonial israelense.

Em que medida as políticas israelenses em Jerusalém afetam a vida cotidiana dos palestinos? Como a construção do muro em Jerusalém Oriental influenciou a demografia e a economia locais?

As políticas israelenses afetam todos os aspectos da vida dos palestinos, como por exemplo:

  • O currículo que se ensina na escola, se será isralenese ou palestino.
  • Se o consumidor pode parar o carro em frente à loja para comprar no atacado.
  • Se tem transporte público para chegar no trabalho ou na escola.
  • Se é possível se organizar coletivamente.
  • Se é possível construir uma nova casa em sua propriedade.
  • Se os turistas estrangeiros conseguem acessar os seus hotéis e lojas, entre outros.

Enfim, todos os aspectos da vida palestina são regulamentados pelo estado de Israel de forma a impor uma condição de vida precarizada que os force a deixar a cidade e ir morar em outro local da Cisjordânia.

É isso que especialistas de direitos humanos chamam de expulsão indireta.

Você menciona uma transição de políticas de bem-estar para políticas reguladas pelo trabalho. Poderia explicar isso mais detalhadamente?

O que quero dizer é que o estado deixa de regular a sociedade para assegurar a ordem capitalista não mais com medidas de bem estar social, como prover educação, saúde e moradia públicas para controlar as ambições revolucionárias da classe trabalhadora de obter a propriedade direta dos meio de produção, mas através do oferecimento de oportunidades de capacitação e de empreendedorismo que permitam o ingresso dos sujeitos no mercado.

E como já expliquei acima, isso retira a responsabilização do estado sobre o bem estar dos seus cidadãos e transfere essa responsabilidade para os próprios sujeitos, que devem obter estes direitos através do mercado.

Isso afeta até a colonização israelense: diante da dificuldade de Israel de trazer jovens judeus para morar em Jerusalém por razões nacionalistas ou oferecendo políticas de bem estar tradicionais, como casa e educação, o estado passa a oferecer condições para os jovens exercerem a sua liberdade criativa e empresarial em Jerusalém a partir de programas de capacitação, linhas de crédito, etc.

O objetivo é tornar Jerusalém uma cidade “bacana” e gerar a atração de mais jovens criativos de forma a tornar a cidade mais judia e economicamente ativa dentro das condições de desenvolvimento neoliberal de financeirização, turismo e indústrias high-tech civis e militares.

Após a rebelião popular contra a ocupação israelense entre 2000 e 2005, conhecida como a Segunda Intifada, alguns autores apontaram uma redução do uso de mão de obra palestina pela economia israelense, que teria optado por importar mão de obra do Sudeste Asiático. Como isso impacta Jerusalém?

Isso vem desde a Primeira Intifada ( que durou de 1987  até 1993), quando a greve de trabalhadores palestinos dos territórios ocupados significou uma pressão econômica sobre o capital israelense que constituía uma vulnerabilidade para a manutenção do colonialismo.

O apartheid sul-africano acabou, entre outras razões, por causa dessa mobilização do proletariado negro, e Israel foi pressionado a abrir negociações com a Organização para a Libertação da Palestina, a OLP, também por causa disso.

Consequentemente, Israel passou a importar mão de obra da Rússia e do sudeste asiático, como Filipinas, Indonésia, e mais recentemente da China, para diminuir a dependência em relação ao trabalho nativo.

Essas pessoas vão para Israel em regimes de trabalho temporário, característica do neoliberalismo. Em Tel Aviv, tem se formado comunidades de imigrantes marginalizados.

Há alguns anos, Israel impôs uma política de deportação desses imigrantes que desejavam permanecer por mais tempo do que os seus contratos permitiam, revelando que as dinâmicas racistas do estado não são somente em relação aos palestinos, mas em relação a manutenção de uma maioria demográfica judaica.

Mas o capital israelense tem demandado por mão de obra  palestina por diferentes razões. Por exemplo, na área de TI e a importação de trabalhadores do leste europeu possui alto custo.

Isso leva o capital a pressionar o estado a afrouxar restrições sobre os palestinos e promover políticas de inclusão para formar engenheiros de informática palestinos mais baratos que a mão de obra importada.

As tensões ligadas à mesquita de Al-Aqsa e o bairro de Sheikh Jarrah são centrais para entender tanto o 7 de outubro como o genocídio em Gaza que o sucedeu. Você pode nos explicar melhor essa situação?

Em 2021, uma família palestina, chamada El-Kurd, se recusou a deixar a sua casa em Sheikh Jarrah (bairro palestino em Monte Scopus, em Jerusalém Oriental) que havia sido expropriada legalmente por colonos judeus.

Esse é mais um episódio de um processo sistêmico de judaização do bairro que já ocorre há décadas. Isso gerou uma revolta popular, incluindo protestos às sextas na mesquita de al-Aqsa. Que gerou repressão israelense.

Israel teria violado direitos do Waqf, o órgão muçulmano responsável por governar o local de forma autônoma. Colonos ultranacionalistas almejam destruir al-Aqsa para reconstruir o Templo judaico, o que faz do local alvo de disputas duras.

Como reação à repressão israelense em al-Aqsa, o Hamas e a Jihad Islâmica lançaram foguetes desde Gaza. Foi a primeira vez que houve um ato de solidariedade desse tipo vindo de Gaza em relação a um conflito em Jerusalém.

Isso gerou um duro bombardeio sobre Gaza. Esse acontecimento teria sido faísca que teria levado as forças guerrilheiras palestinas a começarem o planejamento para a operação militar de 07 de outubro, chamada de a “Enchente de Al-Aqsa”.


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