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Entrevista
Para Maurício Moura, do Idea, 4,5 milhões de pessoas irão definir destino do país em outubro
Publicado em 11/05/2026 8:00 - Opera Mundi
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“Nunca houve um nível tão alto de intenção de voto estimulado entre os candidatos”, afirmou o economista Maurício Moura, fundador do Instituto de Pesquisa Ideia ao analisar o cenário eleitoral, observando que a onda de polarização é um fenômeno global. A Opera Mundi, a avaliação do especialista é de que o pleito será definido pelo grupo de eleitores independentes, que representa 3% dos eleitores que votaram em Jair Bolsonaro em 2018 e em Lula, em 2022.
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Moura comenta ainda as eleições locais e parlamentares, apontando “um baixíssimo conhecimento” dos eleitores sobre as candidaturas para o Congresso brasileiro. A decisão, salienta, é praticamente realizada às vésperas do pleito.
Autor de A Eleição Disruptiva: porque Bolsonaro venceu (Record, 2019), em parceria com Juliano Coberllini, o economista comentou o por que os números das pesquisas eleitorais, divulgados na reta final das eleições, tendem a se diferenciar do resultado das urnas.
Como avalia o cenário eleitoral revelado pela pesquisa Idea? Estamos vivendo uma espécie de ‘terceiro turno’ das eleições de 2022?
Dois candidatos, historicamente, nunca tiveram um nível tão alto de intenção de voto estimulada como tem Lula e Flávio Bolsonaro em maio do ano eleitoral. Em outras eleições presidenciais, a gente tinha um candidato que se destacava, podemos citar o [Fernando] Collor em 1989, Fernando Henrique em 1998. O próprio Lula em 2002 já abria distância nas pesquisas nesse momento, mas não tínhamos dois candidatos pontuando tão alto e tão equilibrados nas intenções de voto para o segundo turno.
Então, temos sim uma antecipação dessa disputa bastante prematura em comparação com outros ciclos eleitorais presidenciais.
O governo federal tem apresentado melhorias econômicas, em termos de renda, controle da inflação, salário mínimo e nível de emprego. Mesmo assim, a percepção dos eleitores é negativa em relação à economia. Qual é o entrave?
O Governo Federal apresenta inflação controlada, taxa de desemprego em patamar abaixo dos níveis históricos, aumento da massa salarial, mas a questão é justamente o endividamento. Segundo os dados do Banco Central, o endividamento continua em níveis muito elevados e quando fazemos pesquisas de opinião pública, isso fica muito evidente. As pessoas estão hoje mais endividadas do que estavam há um ano e consideram o endividamento e o custo de vida temas muito importantes para eleição presidencial.
Há um terceiro componente que estamos nos aprofundando e, inclusive, publicamos uma pesquisa sobre, que é a questão das bets que aprofunda esse endividamento. A sensação de que o dinheiro não dá e que o mês está maior do que os ganhos, salários e rendimentos. Essa percepção está bastante estabelecida e esse é o grande desafio desse governo.
Os eleitores independentes são apontados como os definidores das eleições neste ano. Quem são essas pessoas?
Dependendo da qualificação de independentes, há várias maneiras de fazer essa leitura, mas quero focar naqueles 3% que vão decidir a eleição. Basicamente, são pessoas com renda entre dois e cinco salários mínimos.
Muitos são trabalhadores informais, que têm seu próprio negócio de maneira informal. Há muitas mulheres empreendedoras nesse grupo. É um perfil de pessoas mais conservadoras, evangélicos ou católicos que frequentam o culto.
Além disso, essas pessoas estão muito concentradas nas regiões metropolitanas, principalmente no Sudeste, em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Elas representam entre 4,5 milhões e 5 milhões de votos a serem disputados. Trata-se de um público que votou em Jair Bolsonaro em 2018, mas votou em Lula em 2022 e foi muito importante para sua vitória.
De alguma maneira, esse grupo está desconfortável em relação à continuidade do atual governo, mas também carrega uma memória ruim do governo Bolsonaro, principalmente na gestão da pandemia. Por isso, eu acredito que esses 3% são o que está em disputa nessa eleição presidencial. A diferença nessa eleição será decidida nessa margem de três pontos percentuais.
Você traz a questão da crise do incumbente (governante no poder) ao redor do mundo. O que vem produzindo esse fenômeno?
Isso é um fenômeno global que tem várias explicações. Uma delas, obviamente, é que temos um mundo cada vez mais polarizado. A tecnologia e as redes sociais acabaram encapsulando as pessoas nas suas próprias bolhas, sem que houvesse a possibilidade de muita mudança de lado da opinião pública. Isso é uma coisa global.
A maioria dos chefes de Estado hoje vencem a eleição e já tem no primeiro dia de administração a metade da população, pelo menos, que rejeita fortemente o governo. Ou seja, nada do que eles fizerem será suficiente para mudar a percepção. Isso aconteceu, por exemplo, com o governo Joe Biden nos Estados Unidos e está acontecendo agora com o Trump, que também está no campo de popularidade negativa.
Quando observamos mensalmente a popularidade de aprovação, menos desaprovação, de diversos chefes de Estado, são pouquíssimos os que detêm aprovação positiva. Este é um fenômeno derivado da polarização e, obviamente, ela também dificulta a gestão de políticas públicas no ambiente dos parlamentos e assembleias no mundo.
As assembleias estão cada vez mais polarizadas com dificuldade de construção de consenso e, obviamente, falta criação de consenso e de política pública, o que tem impacto na popularidade. É por isso que temos visto esse fenômeno, nos últimos dez anos, das oposições ganhando muito mais eleições do que a situação.
É uma coisa rara na história democrática e o Brasil sofre do mesmo tema. O presidente Lula venceu as eleições e ninguém que votou no Bolsonaro no segundo turno de 2022 aprovou esse governo em algum momento. Isso já criou um paredão de popularidade bastante baixo ou bastante alto, dependendo da perspectiva em relação ao Lula. É um fenômeno global e as sociedades vão ter que aprender a sair dessa armadilha da polarização.
A questão da segurança pública aparece nas pesquisas como uma das grandes preocupações dos eleitores. O governo federal está promovendo uma forte campanha contra o feminicídio, que registrou aumento em relação ao ano passado. Essas ações ainda não chegaram ao conhecimento dessas eleitoras empreendedoras no grupo dos independentes?
A questão da violência contra a mulher ganhou bastante visibilidade e, obviamente, temos muito mais denúncias. A questão também está sendo debatida de uma maneira muito mais aberta e mais consequente. É um esforço muito importante que o governo federal vem fazendo e diversos governos estaduais estão promovendo ações no mesmo rumo.
É importante destacar que, no caso do governo federal, ele tem um grau de aprovação maior entre as mulheres do que entre os homens. Foi muito importante o voto feminino para a vitória do Lula em 2022. Então, essas políticas estão chegando.
Agora, é importante chegar do ponto de vista puramente eleitoral estratégico nesses 3%, que são as mulheres empreendedoras do Sudeste, porque realmente para esse público é fundamental esse tipo de política e de abordagem que todos os governos passaram a ter, mas que antes, tradicionalmente, não tinha.
Agora em relação às eleições para o Congresso. Qual é o grau de conhecimento dos eleitores sobre os candidatos?
O grau de conhecimento dos eleitores em relação às eleições parlamentares é baixíssimo. A decisão de voto de deputado é praticamente realizada na véspera da eleição. Quando fazemos, por exemplo, um questionário um mês depois das eleições, perguntando em quem as pessoas votaram, muita gente não lembra em quem votou para deputado. Depois de um ano, a maioria absoluta não vai lembrar de quem votou para deputado. Isso é muito ruim dado o poder financeiro e o capital político que o Congresso tem.
Em relação ao Senado, quando a eleição passou de seis semanas para quatro, as pessoas começaram a decidir o voto para o Senado praticamente no mesmo período em que decidiam o voto para deputado, ou seja uma eleição majoritária de baixo engajamento. Existe, por exemplo, uma dificuldade de compreensão de que serão dois votos para o Senado neste ano. É uma eleição muito importante para o destino do país.
As eleições para senador e deputados estão relegadas a uma visão muito de véspera, muito próxima da urna e depois, infelizmente, os eleitores não se lembram de quem votaram para o Congresso e acabam não exercendo a supervisão ou as demandas necessárias para seu representante no Parlamento. É um processo que, na verdade, é muito ruim para o país como um todo.
No final das eleições de 2022, houve uma discrepância entre as pesquisas e o resultado eleitoral. Por que isso ocorre?
Na reta final, os veículos de comunicação divulgarem a conta dos votos válidos é bastante ruim. Nessa conta, você tem que excluir da matemática quem está indeciso e sempre temos os indecisos na reta final e as pessoas que não vão aparecer para votar. É muito difícil capturar, numa pesquisa de opinião, quem não vai aparecer para votar, principalmente em um país onde o voto é obrigatório. Nos lugares onde ele é facultativo, as pessoas respondem com mais naturalidade que não vão aparecer para votar.
Então, quando você tira esses dois elementos importantes da equação – os indecisos e não considera abstenção – isso dá uma distorção. O único resultado de pesquisa que poderia ser comparável é a de boca de urna, que não há mais no Brasil. Ela trazia o retrato do dia da eleição resolvendo esses dois problemas, porque só era entrevistado quem apareceu para votar e estava com o voto decidido.
Agora, nós temos uma amplíssima divulgação dos votos válidos na reta final e, depois, a comparação dessas pesquisas, que não consideram abstenções e indecisos, com o resultado na segunda-feira pós-eleição. Isso gera a percepção de que as pesquisas erraram.
Qual é a dimensão desse grupo que não aparece nas pesquisas?
As pesquisas têm uma amostra do universo total de eleitores, que não é o universo total dos que aparecem para votar, em média de 80%. E nós temos o perfil desses 20% que não aparecem, mas isso não é considerado nas análises que vemos nos veículos de comunicação. É uma pena. Nós temos um histórico suficiente para saber que o Brasil tem mais ou menos em média 20% de abstenção, o que obviamente impacta no resultado de voto válido e, por consequência, na comparação simplista entre as pesquisas de véspera ou da reta final com resultado da eleição.
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