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Entrevista
Para Paulo Henrique M. de Jesus, mídias digitais amplificam discursos de ódio e racistas
Publicado em 06/08/2025 9:09 - Gil Luiz Mendes – Ponte
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Jovens negros acusados injustamente de terem cometido algum delito são perseguidos, ameaçados, agredidos ou torturados por pessoas comuns. Raiva, vingança e o sentimento de impunidade são as justificativas mais visíveis para o chamado justiçamento.
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Para o historiador e pesquisador em história social do crime e aparato de policiamento e segurança pública da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Paulo Henrique Matos de Jesus, quem pratica este tipo de violência “não se sente um criminoso, mas um justiçador”. E que os casos frequentes recentemente podem ser atribuídos a “um sentimento de revolta, de insatisfação, de frustração em relação às instituições”.
Porém, Paulo Henrique afirma, na entrevista abaixo, que há outros elementos na perpetuação dos linchamentos no Brasil. Açoitar pessoas negras em locais públicos remete às punições recebidas por pessoas escravizadas durante séculos. Essa herança maldita do período colonial permanece viva na sociedade brasileira. Só este ano, ocorreram três casos em que jovens negros foram espancados por atribuírem a eles crimes que sequer cometeram.
Um dos casos de maior notoriedade ocorreu em fevereiro com o jornalista carioca Igor Melo, de 31 anos — baleado quando voltava do trabalho em um mototáxi por um policial aposentado, após a mulher do atirador ter dito que o rapaz teria roubado seu celular.
Este ano, o empresário maranhense Jhonnatan Silva Barbosa teve seu julgamento adiado pela segunda vez pela Justiça. Ele é acusado de espancar e asfixiar Gabriel da Silva Nascimento, em 2021, na cidade de Açailândia (MA). Gabriel, um homem negro, foi agredido por Jhonatas, que o acusou de estar roubando seu próprio carro.
Por fim, em São Paulo, o publicitário negro Yuri Cavalcante, de 24 anos, levou socos e chutes na cabeça e teve uma arma apontada contra si na nona norte da capital, acusado de furtar um celular numa boate onde nem tinha estado. A polícia registrou o caso como lesão corporal leve. Para o professor Paulo Henrique — na entrevista abaixo, concedida ao repórter da Ponte Gil Luiz Mendes —, discursos repetidos à exaustão pela extrema direita, como a frase “o poder emana do povo”, acabam encontrando ressonância em uma parcela da sociedade e têm como consequência extrema os casos de justiçamento.
Por que em pleno ano 2025 ainda vemos tantos casos de linchamento?
A gente pode atribuir a um sentimento de revolta, de insatisfação, de frustração em relação às instituições como o Judiciário e a Polícia Militar. Fazendo uma análise diacrônica, de longa duração, a gente entende também de forma mais profunda essa questão diretamente relacionada ao racismo estrutural. É esse racismo estrutural que coloca o corpo preto numa condição de coisa. O racismo estrutural coisifica o corpo preto e, ao fazer isso, o coloca em um não lugar. Esta coisa colocada em um não lugar pode ser submetida a todo tipo de flagelo, a todo tipo de violência. Há uma naturalização da violência em relação ao corpo preto. Logo aquele que pratica esse ato de violência não se sente um criminoso, se sente um justiçador.
O senhor acredita que há um certo aval da sociedade para que esses crimes continuem a existir, principalmente nas redes sociais?
As redes sociais, isso é lugar comum já, deram voz para muita gente que eu posso minimamente chamar, na melhor das hipóteses, de irresponsável. Gente que busca o like, busca o engajamento, busca o fato imediato para manter vivo o engajamento, manter viva a audiência. E, nesse sentido, acabam reproduzindo discursos de ódio que são usados para manterem vivas as suas próprias redes e reverberam frases de efeito de teor extremamente racista. Isso também está na mídia sensacionalista. Há, esforço por parte desses que detêm o dom da retórica e do discurso midiático de mobilizar pessoas, de mobilizar uma opinião pública em defesa de uma causa. É a mobilização de pessoas em defesa do ódio, em defesa do linchamento, como prática de uma justiça popular, como parte de um poder que emana do povo. E em nome do povo esse poder deve ser exercido: inclusive o de praticar atos de barbárie contra corpos pretos. Corpos que a priori são culpados. Aquela máxima do direito que diz que todos somos inocentes até que se prove o contrário, não vale para o corpo preto. E essa máxima está na mídia, na sociedade, no senso comum e nos aparatos de policiamento.
Essa frase, “o poder emana povo”, vem sendo utilizada de forma sistemática pela extrema direita no Brasil. Como ela se reflete nesses linchamentos?
A ideia de poder popular na voz dessa extrema direita, que reverbera nas camadas mais populares, também se deve ao afastamento da esquerda em relação à vida material do trabalhador. O afastamento da esquerda em relação ao dia-a-dia do trabalhador. Quando eu falo sobre o dia-a-dia do trabalhador, é a coisa mais simples: o ônibus, o trem, o metrô. O discurso da esquerda se afastou demais do trabalhador strictu sensu, abriu espaço para as igrejas evangélicas e para movimentos de extrema direita porque há uma frustração com o neoliberalismo. E quem que aparece te dando a mão? A teologia da prosperidade, o discurso da meritocracia da extrema direita, o poder que emana do povo, que está diretamente ligado a esse discurso do homem sujeito de si.
Que se reflete no “fazer justiça com as próprias mãos”.
Eu não vou esperar o Estado fazer a justiça por mim, porque o poder emana de mim. Eu sou sujeito de mim mesmo, não só na minha vida privada como trabalhador, responsável por meu sucesso ou fracasso, mas também de mim na vida pública, no combate ao crime, no combate às injustiças sociais. Essa pessoa pensa “eu trabalho para caramba para comprar o meu celular financiado, vir vagabundo e me roubar? Não, aqui na minha quebrada a gente resolve do nosso jeito”. Inclusive, é um lance muito louco, hoje ao mesmo tempo em que ser policial é uma forma de renda, pessoas buscam a carreira policial como uma forma de empoderamento, como uma forma de ideologia. A carreira policial virou uma forma de engajamento político-ideológico de segmentos da direita. Ou seja, vou me revestir da estrutura de poder do Estado, toda a minha violência como cidadão vai agora ser legitimada pela farda. Então, eu não vou atuar no estrito cumprimento do dever: vou atuar no estrito cumprimento do justiçamento. E aí entra o policial que, ao olhar um corpo preto, já o identifica como criminoso até que se prove o contrário.
Em muitos casos, os crimes de justiçamento são cometidos por causa de acusações de roubos e furtos. Como o senhor enxerga crimes contra a vida sendo cometidos por conta de possíveis crimes contra o patrimônio?
A estrutura do pensamento liberal é baseada na ideia de que a função do Estado é proteger em primeiro lugar a propriedade, em segunda a liberdade e, por fim, a vida — que são os três grandes direitos naturais. Então a vida, nessa ordem, ocupa o último lugar. A própria atuação dos aparatos de segurança pública, das forças de policiamento, gira no sentido de proteger a propriedade privada. Se o teu veículo é roubado e a polícia sai em perseguição aos assaltantes, ela vai trocar tiro com esse assaltante em via pública na expectativa de recuperar seu veículo, ignorando quem está passando nessa via pública. Então, esse discurso do Estado, como protetor dos direitos naturais tendo em destaque a propriedade, se estendeu para o discurso do indivíduo. Se o Estado é incapaz de garantir a minha segurança ou a segurança do meu patrimônio, eu faço isso por conta própria. Há uma certa leniência para esse tipo de crime de justiçamento, de linchamento, que é como se a população estivesse fazendo uma coisa que o Estado já fosse fazer. Eu já estou batendo porque se a polícia vier, ela também vai bater.
E de onde vem essa leniência?
Eu não vejo necessariamente como leniência do Poder Judiciário, porque há um processo que começa pela investigação. E o primeiro problema é você identificar as pessoas que participaram, porque há um pacto de silêncio. Se não há imagens identificando essas pessoas individualmente, é difícil você responsabilizar a manada. E aí há também, naturalmente, a falta de interesse da própria Polícia Militar, porque é ela quem responde de forma imediata a esse tipo de situação. Ela não tem nem interesse, nem naquele momento do calor da hora, a condição de se preocupar e identificar quem são os perpetradores desse tipo de justiçamento. Por isso, na apresentação da vítima do linchamento, há uma preocupação muito maior em fazer o registro do crime que ele cometeu, ou da tentativa de crime. E daí o inquérito todo vai se encaminhar nesse sentido, o de culpabilizar a vítima do linchamento. Mas todos os crimes praticados contra o corpo dele não viram inquérito, logo não são denunciados pelo Ministério Público, que logo não passa para o Judiciário.
Muitas dessas agressões hoje em dia são filmadas e colocadas nas redes sociais. De certa forma, isso que deveria inibir esses tipos de crime não acaba sendo usado para propagá-los?
Esses tipo de crime não têm repercussão nem a devida atenção dos aparatos de policiamento porque não há pressão midiática e logo não segue todo aquele processo inquérito, denúncia. Do mesmo jeito que há pessoas que se comovem com a vítima, há aquelas que sentem fascínio, que se sentem atraídas e estimuladas a praticar esse tipo de ato de violência. Tem um livro chamado Diante da Dor do Outro (da ensaísta norte-americana Susan Sontag, publicado em 2003), em que a autora analisa isso, esse fascínio, não só em você ver, mas em praticar. É sempre voltando para a ideia de justiçamento, é sempre voltando para a ideia de colocar as coisas no seu devido lugar, reestabelecer uma ordem que foi rompida. E os comentários sobre esse tema nas redes sociais são um objeto de estudo muito interessante, porque deixam muito claro que há uma parcela significativa da sociedade que compactua com essa violência. Alguns comentários podem até ser feitos por avatares, por robôs, mas em geral o discurso de ódio e de afinação com esse tipo de prática ainda vem de pessoas de corpo relativamente branco. As pessoas de corpo preto, mesmo aquelas que se identificam com a extrema direita, e eu tenho visto muito isso nas redes sociais, quando ocorre esse tipo de violência, acabam se vendo no lugar da vítima. Porque entendem que, mesmo sendo de extrema direita, elas são aquilo que as forças de segurança, que os aparatos de policiamento, chamam de “tipo padrão”.
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