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Entrevista

Com ‘diplomacia das armas’, Israel evita embargo do Brasil

Enquanto manifesta apoio político à Palestina, país mantém laços militares, comerciais e tecnológicos com os israelenses

Publicado em 22/07/2025 9:34 - Leonardo Sakamoto - UOL

Divulgação Rovena Rosa - Abr

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Em meio às atrocidades cometidas pelo governo Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza, a postura da América Latina tem se mostrado, historicamente, ambígua: ao mesmo tempo em que governos progressistas da região manifestam apoio político à Palestina, mantêm laços militares, comerciais e tecnológicos intensos com o Estado israelense. Como entender essa contradição?

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Em entrevista ao UOL, Bruno Huberman, professor de relações internacionais da PUC-SP, especialista no tema, analisa os fatores históricos, geopolíticos e ideológicos que explicam essa dualidade. Retoma o papel de Israel como braço auxiliar dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, contribuindo com a repressão militar em países latino-americanos, e mostra como essa lógica foi atualizada nas políticas contemporâneas de segurança nacional, guerra às drogas e controle social.

Huberman também discute a “diplomacia das armas” de Israel, um conceito que descreve como o país construiu sua influência global a partir da exportação de tecnologias militares desenvolvidas e testadas nos territórios palestinos ocupados. Segundo ele, Israel converteu o controle sobre os palestinos em vitrine para um modelo de segurança que hoje é consumido por outros Estados, da Índia à Colômbia, do Brasil ao Azerbaijão.

O professor detalha os vínculos entre Israel e os governos de Brasil, Chile, México e Colômbia, incluindo as tensões internas enfrentadas por líderes de esquerda ao adotarem posições críticas em relação aos crimes contra a humanidade em Gaza. Mostra como setores militares, religiosos e econômicos atuam para bloquear embargos e romper relações, e como a pressão dos Estados Unidos ainda funciona como força dissuasiva para medidas mais contundentes.

O ataque terrorista do grupo Hamas a Israel deixou mais de 1,1 mil mortos, em 7 de outubro de 2023, segundo o governo Netanyahu. Desde então, a reação de Israel produziu mais de 58,4 mil mortos em Gaza, segundo o serviço de saúde local controlado pelo Hamas. O número, contudo, pode ser maior. Estudo da Universidade de Londres apontou uma estimativa de 75 mil óbitos até janeiro deste ano, com 56% das vítimas sendo mulheres, crianças ou idosos.

 

Você aponta contradição entre o apoio político da América Latina à Palestina e os fortes laços militares e econômicos com Israel. Como explica essa dualidade?

Ela se construiu na época da Guerra Fria e das ditaduras aqui na região. Israel atuou nos países auxiliando os governos, provendo armas e treinamento e outras técnicas de repressão social, que desenvolveu nos conflitos com países árabes. Também atuou como representante de interesses norte-americanos, onde os EUA não podiam atuar. O governo Jimmy Carter, por exemplo, fez uma política externa de direitos humanos e, consequentemente, Israel entrou como seu substituto. Tornou-se parceiro militar do Chile, da Argentina, da América Central, onde nos anos 1980, as guerrilhas eram fortes. E também aqui no Brasil, Israel era um parceiro relevante. As relações militares eram uma forma de manter sua relevância em regiões disputáveis, na qual as oposições socialistas apoiavam a causa palestina, mas não tinham relevância regional. E as elites políticas, particularmente, os militares, partilhavam de uma mesma visão de mundo que os generais israelenses, vendo os palestinos de uma forma semelhantes aos guerrilheiros.

E como isso se manteve após a Guerra Fria?

Vai se manter na Guerra às Drogas e na Guerra ao Terror. O Brasil e a América Latina têm políticas de repressão militarista contra o comércio de substâncias consideradas ilícitas em regiões periféricas. A Colômbia vai ser o principal parceiro militar israelense, mas o Brasil, no contexto do primeiro governo Lula, se aproxima muito de Israel porque queria se apresentar como mediador da paz no Oriente Médio. Para tanto, Israel exigiu contrapartidas do país. E, aproveitando os grandes eventos internacionais que estávamos realizando, o Brasil acabou se tornando um dos dez maiores compradores de armas de Israel no século 21.

E uma coisa muito importante foram os acordos de comércio. Israel conseguiu fazer um com o Mercosul, o que o aproximou dos mercados brasileiro e argentino, principalmente. Há um com o México, através do Nafta [o finado tratado de livre-comércio entre Canadá, EUA e México], e um com a Colômbia.

Você trata do conceito de “diplomacia das armas” de Israel. Como isso funciona?

O conceito busca explicar como um país pequeno, que não tem uma economia muito diversificada, consegue ter uma relevância para a política internacional como Israel tem – do Azerbaijão ao Vietnã, da Itália ao Brasil. Isso ocorre muito por causa das suas relações militares. Israel tem uma superioridade tecnológica militar muito grande, fruto de uma política norte-americana que deu ajuda ao país. Esse desenvolvimento tecnológico fez dos territórios palestinos um laboratório para o desenvolvimento de armas israelenses. Com isso, Israel se torna um grande vendedor de armas que são testadas em campo, com eficácia comprovada. Diversos países do mundo que precisam que os seus estados se reforcem militarmente no combate a terroristas e traficantes, além de ameaças globais e transnacionais, vão manter relações com Israel. Não só de olho no comércio, mas também como uma forma de relações públicas, para mostrar à sua população civil que está fazendo algo.

Isso foi muito forte no caso indiano. A Índia, de longe, é quem tem mantido mais relações militares com Israel nos últimos anos e, consequentemente, isso vai enfraquecendo a força da pressão de grupos pró-Palestina no país. A Índia obteve independência no mesmo contexto em que a luta palestina teve ascensão, ambos países colonizados pelo Reino Unido. A Índia de Nehru [ex-primeiro-ministro e importante personagem da independência] foi muito solidária com a causa palestina. Só que o país começou a enfrentar a questão de terrorismo jihadista, salafista, muçulmano. E isso foi uma das razões para a ascensão da extrema direita, em particular do primeiro-ministro Modi, que é o atual governante. Israel conseguiu se posicionar no mercado indiano e se tornar um grande provedor de táticas, técnicas e tecnologias de contraterrorismo. Então o nacionalismo hindu, islamofóbico, foi se alinhando ao nacionalismo sionista, judaico, também islamofóbico.

E como isso funciona na América Latina?

A gente vê uma reminiscência muito grande da Guerra Fria, mas também um entrelaçamento com os Estados Unidos, como no caso da Colômbia e do México, que são países com grande influência israelense, muito por causa da sua histórica proximidade com Washington. Isso foi enfraquecendo posições pela Palestina porque as Forças Armadas são um grupo permanente dentro do Estado, que vão agir para conter qualquer fortalecimento de um movimento pró-Palestina que busque, de alguma forma, enfraquecer relações militares com Israel. Para eles, isso criaria uma vulnerabilidade para a segurança nacional. O discurso da segurança nacional, do combate a grupos armados, é questão muito forte aqui na América Latina, em particular para grupos de direita, que vão apoiar as relações com Israel. Vale lembrar que as Forças Armadas, historicamente aqui na América Latina, interferem muito na política.

O crescimento de uma solidariedade pró-Palestina em diversos países latino-americanos foi limitada por esses blocos pró-Israel. Então, mesmo quando há governantes de esquerda, como o caso de Lula, no Brasil, ou do Gustavo Petro, na Colômbia, eles não tomaram ações robustas pró-Palestina, porque você tinha uma série de interesses que mantinham essas relações muito profundas com Israel.

Quais são os países mais dependentes de Israel militarmente na nossa região e como isso influenciou suas posições perante o que está acontecendo em Gaza?

Identifiquei uma relação de dependência, com diferentes graus, em quatro países: Brasil, Chile, México e Colômbia. Brasil, México e Colômbia apresentam forte vinculação com a chamada Guerra às Drogas. O Chile, embora menos envolvido nesse aspecto, também mantém uma dependência significativa, especialmente em áreas como monitoramento por satélite e defesa nacional, com forte pressão por parte desses setores. Esses quatro foram governados por lideranças de esquerda durante o genocídio em Gaza, e todos enfrentaram pressões internas ao adotar posicionamentos críticos em relação a Israel. Tanto López Obrador (México), quanto Gustavo Petro (Colômbia), Gabriel Boric (Chile) e Lula (Brasil) foram alvo de críticas de setores militares e grupos de direita alinhados às Forças Armadas. Um dos argumentos usados contra essas posturas era o de que tais críticas enfraqueceriam o combate ao crime organizado, como se a relação com Israel fosse puramente técnica e livre de ideologia.

Esse discurso teve especial tração nas Forças Armadas brasileiras, especialmente quando o governo Lula interrompeu a compra de blindados israelenses no valor de um bilhão de reais. O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, chegou a fazer declarações que reforçavam essa narrativa. Também foram registradas manifestações semelhantes de militares no Chile, na Colômbia e no México.

A questão do embargo militar a Israel entra nesse contexto?

No Brasil, as Forças Armadas ainda exercem influência suficiente para impedir um embargo militar mais amplo. No Chile, houve resistência inicial, mas recentemente Boric impôs um embargo, especialmente após a Espanha tomar a mesma medida, o que acabou legitimando a decisão chilena. No México, a hipótese de um embargo militar nunca foi cogitada. Mas isso parece decorrer mais de pressões dos Estados Unidos do que propriamente da influência dos militares mexicanos. Já na Colômbia, Petro conseguiu romper com essa resistência. Isso se deve em parte a uma reforma que ele implementou nos altos escalões das Forças Armadas no início do seu mandato. A mudança foi crucial para conter várias tentativas de golpe, inclusive uma revelada recentemente, que teria sido articulada pelo seu próprio vice-presidente.

No Brasil, ao contrário, não houve uma reestruturação semelhante após o governo Bolsonaro e a tentativa de golpe de 8 de janeiro. Os militares com laços históricos com Israel continuam ocupando cargos de influência, o que mantém forte a pressão sobre o governo Lula.

Na sua avaliação, o governo Lula pode caminhar para isso?

É possível que o governo Lula imponha um embargo militar em breve. Mas quase dois anos após o início do genocídio, isso ainda não ocorreu. Embora tenha havido medidas como a suspensão da compra dos blindados pelas Forças Armadas, as polícias estaduais ainda continuam adquirindo armamentos israelenses. Houve uma redução nas compras, mas não uma interrupção completa. Isso também se deve ao forte esforço de propaganda por parte das empresas israelenses do setor de segurança. Um relatório recente da ONU mostrou que essas corporações têm lucrado enormemente desde o início do genocídio, suas ações globais dispararam. Estamos, portanto, diante de uma verdadeira “indústria do genocídio”, que tem se beneficiado diretamente da continuidade dos massacres.

Qual é o papel dos EUA nessa dinâmica?

Durante a Guerra Fria, os EUA foram fundamentais para transformar Israel em um ator global no mercado de segurança e defesa, criando espaço para sua expansão internacional. Hoje, embora Israel siga em boa parte uma trajetória própria, inclusive mantendo relações militares estreitas com a China, o que pode entrar em conflito com os interesses norte-americanos, ainda existe uma convergência significativa entre os dois países, especialmente no contexto latino-americano.

Na América Latina, os Estados Unidos exercem diferentes níveis de pressão sobre os países da região. No México e na Colômbia, por exemplo, essa pressão tem sido mais intensa. Ainda assim, apresenta limites: a Colômbia conseguiu tomar uma série de decisões autônomas, como o rompimento com Israel, sem sofrer retaliações severas por parte dos EUA. O Chile também impôs um embargo militar, e não houve resposta direta significativa de Washington. Isso pode ser explicado, em parte, pelo fato de que os Estados Unidos estão envolvidos em múltiplas agendas internacionais, e as relações militares de países latino-americanos com Israel não são, necessariamente, uma prioridade dentro da política externa americana voltada à região, embora evidentemente incomodem certos setores dominantes nos EUA.

Mas uma ação de embargo militar da América Latina impactaria Israel?

Israel não depende economicamente dos mercados da América Latina hoje. A base de sustentação de sua indústria de defesa está em países como Azerbaijão, Índia, Vietnã, e também na Europa. O mercado latino-americano tem sido mais uma alternativa em expansão, que serve, sobretudo, como instrumento de influência política regional, do que uma fonte essencial de receita para Israel.

Por outro lado, o rompimento das relações militares por parte de países latino-americanos representa, sim, uma forma concreta de reduzir a influência israelense na região. Enquanto esses países mantiverem políticas de militarização, como a guerra às drogas, o uso das forças armadas no controle social e a repressão das populações periféricas, casos que beiram ou configuram genocídio, como o da população negra no Brasil, suas sociedades seguirão vulneráveis a esse tipo de influência externa. Isso inclui tanto a cooperação com Israel quanto a dificuldade de articular uma solidariedade real e sustentada com a causa palestina.

A pressão da sociedade civil latino-americana interfere nesse processo?

Podemos afirmar que, no século 21, especialmente a partir dos Fóruns Sociais Mundiais, realizados no início dos anos 2000, houve um crescimento da solidariedade dos povos latino-americanos com a causa palestina. De modo geral, as diplomacias latino-americanas têm historicamente adotado uma postura crítica em relação às ações israelenses. Isso transformou a América Latina em um território estratégico, onde Israel busca disputar a opinião pública, especialmente por meio da influência das comunidades evangélicas. Essas comunidades têm papel importante em países como o Brasil e mantêm laços estreitos com os evangélicos dos Estados Unidos, que, por sua vez, exercem forte pressão sobre o governo americano. A articulação com esses grupos religiosos tem sido uma política central do Estado israelense para manter apoio internacional.

O cenário global hoje impõe muito mais obstáculos à solidariedade ativa com os palestinos do que no contexto do apartheid sul-africano. A África do Sul, naquela época, não enfrentava uma pressão global articulada para manter relações com o regime segregacionista, nem havia uma rede religiosa e geopolítica transnacional como a que hoje sustenta Israel. E, embora o país africano fosse importante para a política externa dos EUA no sul do continente, o papel estratégico de Israel hoje é muito mais abrangente.

Isso torna a luta palestina por libertação nacional muito mais difícil do que foi a campanha contra o apartheid sul-africano.

E aqui no Brasil?

Observamos uma crescente mobilização de movimentos populares latino-americanos em solidariedade à Palestina. No Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) tem se posicionado com firmeza. No Equador, na Colômbia e em outros países, movimentos indígenas e sociais vêm exigindo o embargo militar a Israel e o rompimento de relações diplomáticas, reivindicações que têm sido incorporadas às pautas da esquerda regional. Exemplos disso são os posicionamentos de Gustavo Petro, ex-guerrilheiro que combateu a ditadura na Colômbia; de Gabriel Boric, oriundo do movimento estudantil chileno; e do próprio Lula, cujos vínculos com a Palestina remontam à atuação sindical e partidária histórica, via CUT e PT.

No entanto, esse alinhamento com a causa palestina não é homogêneo na região. O México, por exemplo, apesar de abrigar movimentos sociais atuantes, como os que denunciaram a Cemex, empresa mexicana de cimento que forneceu materiais para o muro da Cisjordânia e assentamentos israelenses, não demonstra a mesma contundência diplomática de outros países. Ou seja, embora exista uma inclinação crescente na América Latina em apoio à Palestina, essa tendência ainda enfrenta barreiras importantes: a pressão de setores militares, de grupos de direita, de setores evangélicos pró-Israel, e de interesses geopolíticos e econômicos.

E o governo Lula, como se comporta?

Não se pode, portanto, afirmar que a América Latina seja um bloco homogêneo pró-Palestina ou que se trate de uma região revolucionária. Mesmo líderes como Lula enfrentam limites concretos para adotar medidas mais duras. O governo brasileiro, por exemplo, está sob pressão dos Estados Unidos, que recentemente aplicaram uma sobretaxa de 50% sobre as exportações brasileiras de aço, um claro sinal de que qualquer tensão adicional pode afetar as relações bilaterais. Esse tipo de retaliação atua como freio. Em troca de manter um mínimo de estabilidade comercial, o Brasil acaba adotando cautela em suas posições diplomáticas, mesmo diante de violações graves como o genocídio na Palestina.

Nesse contexto, o Brasil tem desempenhado um papel ambíguo. Apesar de ter interrompido algumas compras militares de Israel, também aumentou em 50% suas exportações de petróleo para o país desde o início do genocídio. Isso revela a complexidade das dinâmicas em jogo e a influência global sobre o que está acontecendo na Faixa de Gaza, e na Palestina como um todo.

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