22/04/2024 - Edição 540

Entrevista

Chegou a hora de discutir a violência policial

Criado na periferia paulistana, cineasta Cristiano Burlan perdeu a família nas garras da criminalidade. Ele fala sobre seu novo filme, "A mãe", que critica a militarização da segurança institucional brasileira

Publicado em 11/11/2022 8:20 - Edison Veiga - DW

Divulgação Reprodução

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Vencedor do prêmio de melhor direção da última edição do Festival de Gramado, o filme A mãe, de Cristiano Burlan, estreou nos cinemas na quinta-feira (10). É uma história ficcional sobre violência policial – um tema que perpassa a vida pessoal do próprio cineasta, que foi criado no bairro do Capão Redondo, periferia de São Paulo, e perdeu o irmão e a mãe em situações de criminalidade, e o pai num acidente.

Em A mãe, a ativista Débora Silva, do Movimento Mães de Maio, cujo filho foi assassinado pela polícia militar representa a si mesma. O diretor espera que o filme levante a discussão sobre a importância de uma polícia desmilitarizada e “mais cidadã”, embora reconheça que essa transformação seja utópica “num país sempre atravessado pela violência”.

Ele ressalta, contudo, que sua voz não é contra o policial, o trabalhador que encara a farda como profissão, mas contra o aparato em si. “O discurso do filme é sobre um conceito de Estado, não sobre uma pessoa específica, o cidadão que é policial”, afirma Burlan, em entrevista à DW Brasil.

A mãe é um longa de ficção que o cineasta lança depois de já ter concluído a sequência que ele considera sua “trilogia do luto”: os filmes Construção, de 2006; Mataram meu irmão, de 2013; e Elegia de um crime, de 2018, nos quais ele aborda as mortes de seu pai, no tal acidente, de seu irmão, vítima de violência policial em 2001, e de sua mãe, assassinada num caso de feminicídio.

Ele admite que adoraria “fechar o ciclo” temático, mas acredita ser difícil, pois se sente impelido a filmar as realidades. “Ao mesmo tempo, o que eu tenho para dizer é que uma ficção é realmente uma ficção, porque o cinema não dá conta da realidade”. “Se eu fosse mostrar as coisas como elas realmente acontecem, meu filme seria insuportável de ser visto. A realidade é muito mais dura do que a ficção.”

 

De que forma o prêmio no Festival de Gramado pavimenta o caminho para o sucesso do filme A mãe?

Sempre é importante saber que não sou eu [o premiado], é o filme. Fazer um filme com temas tão periclitantes para o nosso país, há muito tempo, porque não é de hoje que o terrorismo de Estado perpassa principalmente as comunidades de periferia no Brasil, e levantar um tema, fazer com que o tema seja discutido – já valeu a pena. […] Claro que é importante receber prêmios, mas depois o prêmio acaba na prateleira empoeirado e só você lembra dele. O prêmio vem para coroar o trabalho de uma equipe gigantesca.

Você mencionou o tema periclitante e no filme uma das personagens diz uma frase muito forte: que a ditadura militar só vai acabar no Brasil com o fim da polícia militar. A polícia militar é o que resta da ditadura no Brasil?

Esse tema é bem complexo. […] A relação do Estado com o cidadão comum, principalmente o que vive nos arrebaldes da sociedade… Mas acho que o que ela [a ativista Débora Silva] quis dizer ali foi que é preciso pensar numa nova polícia, não com a extinção da polícia, mas uma polícia que não seja militarizada, que seja cidadã, que cuide do cidadão, não que oprima o cidadão. É claro que eu acho essa frase importante, porque ela veio de uma mulher que teve o filho assassinado pelas mãos do Estado, pela letalidade da Polícia Militar, que é também o que aconteceu com minha mãe.

Minha mãe teve um filho assassinado, aparentemente, isso não foi comprovado porque nunca foi investigado, por uma quadrilha comandada por policiais militares, com sete tiros nas costas. Então isso atravessa a história de minha família e também a de muitas famílias. É preciso pensar menos no fim da polícia e mais num novo tipo de polícia. Que é uma utopia, na verdade, pensar numa polícia cidadã, uma polícia desarmada. É uma utopia. Ainda mais num país sempre atravessado pela violência. Mas essa violência, essa mão forte do Estado, esse terrorismo do Estado, chega mais forte em quem vive em regiões periféricas. Você não toma uma batida se mora num condomínio como Alphaville [condomínio de elite na região metropolitana de São Paulo].

Você acredita que desmilitarizar a polícia tornaria menos recorrentes episódios de violência policial, como o que aparece no filme?

Não é tão maniqueísta assim, que uma coisa tem efeito na outra. Tem uma subjetividade. Mas eu acredito que essa discussão pode gerar transformações. Um governador eleito [Tarcísio de Freitas, ex-ministro do governo Jair Bolsonaro, eleito por São Paulo] que quer tirar uma coisa que é importante para essa relação entre polícia e cidadãos, que é a câmera [parte integrante do uniforme dos policiais paulistas], a situação sendo filmada ali… Isso é um retrocesso. Mas eu acredito, sim, que esse tipo de polícia, a gente tem de discutir. Chegou a hora de discutir isso. Eu tenho uma raiva de classe, venho da periferia e fui atravessado pela violência, mas também entendo que o diálogo, em todas as instâncias, precisa ocorrer. […] Não sei o efeito que tem um filme sobre um tema tão complexo.

Depois dos outros filmes em que você aborda as mortes de seus familiares, a sua “trilogia do luto”, A mãe encerra, consolida um ciclo?

Espero que sim. Adoraria poder fazer filme sobre pessoas felizes de frente para o mar e ter um final feliz. Mas, infelizmente, essa não é minha história e nem a história de muitos nesse pais… Espero que sim, espero que nem eu nem os meus próximos, as pessoas que eu conheço e com que tenho algum contato, sejamos atravessados por esse ciclo de violência. Que novos ares retomem a este país, com um futuro melhor. Ao mesmo tempo, o que eu tenho para dizer é que uma ficção é realmente uma ficção porque o cinema não dá conta da realidade. Se eu fosse mostrar as coisas como elas realmente acontecem, meu filme seria insuportável de ser visto. A realidade é muito mais dura do que a ficção.

Num contexto polarizado da sociedade brasileira, em que a extrema direita se apóia na pauta militarista, você teme represálias com o lançamento do seu filme?

Temer eu não temo, mas é bem possível que aconteçam. Fiz uma série sobre Paulo Freire [educador brasileiro cuja pedagogia costuma ser criticada pela extrema-direita] para a Sesc TV e recebi muitas ameaças… Mas o cinema é instrumento para entender em que mundo a gente vive. E seria estranho da minha parte hesitar em filmar as coisas que nos atravessam hoje em dia. Se existe uma função – o que eu sempre me questiono se realmente existe – para o ofício do cinema, talvez seja a de se relacionar com o instante em que a gente vive. […] Não vejo outra maneira de fazer [cinema] se não essa. E quando você emite uma opinião – e fazer um filme é emitir uma opinião –, é óbvio que vai ter uma reação. […] O discurso do filme é sobre um conceito de Estado, não sobre uma pessoa específica, o cidadão que é policial.


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