19/08/2022 - Edição 499

Entrevista

Cesar Calejon analisa as perdas e danos causados pelo Bolsonarismo em novo livro

Para escritor conservadorismo seguirá presente no jogo político e registro histórica evita repetição de tragédias

Publicado em 19/07/2022 3:00 -

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Lançado recentemente, o livro Sobre Perdas e Danos: negacionismo, lawfare e neofascismo no Brasil (Editora Kotte) encerra uma trilogia escrita pelo escritor e jornalista Cesar Calejon sobre a ascensão do bolsonarismo no Brasil.

A obra vem na sequência das publicações A Ascensão do bolsonarismo no Brasil do século XXI (2019) e Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (2021). 

Calejon reúne cinquenta textos que abrem espaço para entrevistas com personalidades como Dilma Rousseff, Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Manuela d’Ávila, Alyson Mascaro, Boaventura de Sousa Santos, Alysson Mascaro e dezenas mais.

“Esse trabalho reflete acerca das perdas e dos danos causados pelo bolsonarismo no país, muitas vezes irremediáveis”, afirma o autor. 

Na conversa conduzida pelo jornalista José Eduardo Bernardes, Cesar Calejon reflete que o Brasil ainda deve ser obrigado a conviver com o bolsonarismo, mesmo quando Jair Bolsonaro deixar a presidência. A busca pelo registro histórico desse processo é também uma caminhada para evitar a repetição de tragédias, segundo o escritor.

“Na medida em que você não tem propriedade para compreender a sua história, você está fadado a repeti-la de alguma forma. Quanto mais elementos nós temos para recapitular, para nos apoiar, parar organizar a materialidade histórica de como as coisas aconteceram, menos inclinado estamos a repetir a tragédia como farsa”, ressalta.

A obra tem apresentação de Jamil Chade e prefácio de Eduardo Moreira e já está disponível no site da editora e nas livrarias. 

 

O livro reúne uma série de textos escritos por você em diversos veículos. Como foi o processo para agrupar esse textos e formar esse mosaico?

Cesar Calejon: Esse livro encerra uma trilogia sobre o Bolsonarismo, que é o tema para o qual eu dediquei minha pesquisa e meus esforços profissionais como jornalista desde que Bolsonaro ascendeu. Desde então, eu venho redigindo artigos a respeito das coisas que acontecem na vida política do país para alguns veículos.

Venho redigindo, quase que em uma base diária, artigos que dão conta de fazer reflexões acerca de assuntos correlatos à vida sociopolítica, ao governo federal e ao bolsonarismo. Agora, surgiu um convite da editora Kotter de reunir alguns do principais artigos para constituir um livro.

Esse trabalho reflete acerca das perdas e dos danos causados  pelo bolsonarismo no país. Muitas vezes são irremediáveis. Ele tem abertura do Jamil Chade, o prefácio do Eduardo Moreira e eu trago uma série de entrevistas com algumas das principais personalidades da vida política, alguns dos principais profissionais de diversas áreas, que me ajudam a fazer essas reflexões.

Livros como o seu também são registros históricos de um determinado período. É assim que você entende a ideia de compilar os escritos?  Fazer esse registro desse momento que nos parece trágico?

Sem dúvida é trágico. A Natalia Pasternak disse isso a respeito do meu segundo livro, Tempestade Perfeita. Eu fico lisonjeado com esse tipo de colocação, porque dizer que algo é um registro histórico contribui de uma forma muito positiva para aquilo que eu pretendo fazer com o meu trabalho e vai ao encontro daquilo que eu me proponho de fato a fazer.

A questão fundamental aqui é que é difícil manter as coisas em perspectiva à luz da história. O tempo vai passando, as coisas vão se reformulando, sobretudo com o volume brutal de informação que você tem circulando e a quantidade de aspectos e coisas que as pessoas têm que lidar hoje em dia.

Se você conversar hoje com um jovem que nasceu na década de 1990, por exemplo, essa pessoa não vai saber dizer direito o que foi a ditatura militar, quais foram os governos, a sanha autoritária, o que aconteceu naquele período, as perseguições, assassinatos, os abusos de toda ordem que foram cometidos.

Na medida em que você não tem propriedade para compreender a sua história, você está fadado a repeti-la de alguma forma. Quanto mais elementos a temos para recapitular, nos apoiar, organizar a materialidade histórica de como as coisas que aconteceram, menos inclinado estamos a repetir a tragédia como farsa em uma segunda ocasião.

Então, me parece que sim, eu concordo com essa colocação e me sinto lisonjeado. A ideia do meu trabalho, de fato, é organizar a proposição nesse sentido.

Você começa o livro a partir da cronologia dos fatos, para entender os motivos da ascensão do bolsonarismo. A raiz estaria nessa campanha intensa, que foi baseada em fake news sobre situação econômica e social brasileira de 2014 a 2016, período do segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff e do golpe que a derrubou. Essa campanha foi realmente bem sucedida, certo?

Muito. Esse é um aspecto fundamental para compreender a própria ascensão do bolsonarismo. Eu utilizo cinco vetores para falar acerca da ascensão do bolsonarismo no Brasil.

O primeiro é o antipetismo, estimulado com força voraz, sobretudo entre 2013 e 2018, a partir das jornadas de junho. Ali existia um questionamento acerca da própria democracia liberal burguesa.

Se você parar para pensar quando foi a primeira vez que você teve um smartphone, vai descobrir que foi em algum ponto entre 2010 e 2013. O que isso faz com a população é dar um protagonismo maior.

As pessoas deixam simplesmente de consumir mídia e passam a postar coisas, deixar comentários. Elas ganham um protagonismo maior e, em virtude disso, elas passam a implicitamente questionar a sua não formulação mais ativa na própria organização da vida pública. Elas passam a dizer, “bom, eu deveria estar participando disso de forma mais enfática”.

O modelo de democracia representativa já não atende a essas pessoas. Isso aconteceu ao redor do mundo e foi inflamado pelo que viríamos a conhecer como revoluções coloridas. No Brasil não foi diferente. Em junho de 2013 existia esse questionamento legítimo acerca do modelo representativo.

O que a direita liberal brasileira faz é explorar esse descontentamento para avançar as suas posições políticas. Começam a catalisar o antipetismo e, nos anos seguintes, o antipetismo ganha muita força.

Em seguida, eu trato do elitismo histórico cultural que se manifesta de diferentes maneiras, dependendo da época e da cultura. O que não varia é a determinação elitista para dizer, seja por quais vias que, ‘fulano é inferior a ciclano’.

Em algumas sociedades, ao longo da história, usou-se a cor da pele, em outras o intelecto, em outras a condição socioeconômica. O que é usado para fazer essa determinação varia, o que não varia é a determinação elitista.

Em ampla medida, a república brasileira foi formada com base nos legados históricos e culturais do Brasil colônia e do Brasil império. O Bolsonaro se apoia muito fortemente nesses valores escravocratas, racistas, misóginos.

O terceiro é o dogma religioso, que a gente viu de muitas formas apoiando enfaticamente a candidatura do Bolsonaro. O quarto é a questão antissistema, como o próprio Bolsonaro tentou se vender com um cara que era outsider (obs: de fora do sistema), apesar de ter passado 28 anos no baixo clero da política institucional brasileira, seria o cara que iria moralizar a política nacional.

Por fim, novas ferramentas e estratégias de comunicação, tais como Whatsapp, redes sociais, discurso de ódio, discursos de medo.

Esses são os cinco elementos que eu utilizo para fazer essa reflexão acerca da ascensão do bolsonarismo.

A questão socioeconômica permeia todas, mas se aplica muito fundamentalmente na questão do antipetismo. Porque teve uma questão muito forte  que o bolsonarismo avançou dizendo que o PT quebrou o Brasil.

Essa foi a principal narrativa do pré-bolsonarismo e é o primeiro capítulo de Sobre Perdas e Danos. O Bolsonarismo conseguiu convencer a população naquela ocasião que o PT quebrou o Brasil.

Se você olhar para a materialidade histórica da coisa – existem indexadores sociais – você vai ver que não é o caso. Se olhar índice de Gini, PIB, IDH, reservas internacionais, qualquer indexador para aferir a saúde da população brasileira, você vai ver que sem dúvida o PT cometeu erros, (mas) quebrar o Brasil não foi um deles.

Mas essa narrativa ganhou aderência e ressonância e ajudou o bolsonarismo a ascender.

Tem um elemento que às vezes foge das análises, que é questão política que levou à queda da presidenta Dilma Rousseff. Houve um estrangulamento do Congresso Nacional às pautas do governo. O governo ficou inoperante durante quase um ano, sendo bombardeado pelas tais pautas bomba e isso influenciou um pouco das análises, né?

Sem dúvida. Faz parte de um nível mais específico da análise. Você teria que entrar em aspectos conjecturais que dão conta de explicar como cada uma dessas ações impactou na vida sociopolítica do país. Sem dúvida, partir do momento em que o Aécio Neves contesta a derrota e passa a atacar o PT, isso atinge a política institucional de forma mais ampla e não só o Partido dos Trabalhadores.

Eu costumo dizer que 2014 é a entropia da política nacional. Na termodinâmica a entropia é uma medida que é utilizada para demonstrar o grau de irreversibilidade de um processo. Quando uma mudança sistêmica começa e vai alterar toda a composição de um determinado sistema.

Em 2014, quando o Aécio faz aquilo, é a entropia do nosso sistema sociopolítico, é o que resultaria mais tarde no bolsonarismo nesse caos em que estamos vivendo. Depois disso, vêm essas pautas bomba, todo o desequilíbrio que boa parte da dita social democracia organizou. O objetivo naquela ocasião já era debilitar o governo de Dilma Rousseff para, de alguma forma,  conseguir avançar essa narrativa de que o PT quebrou o Brasil.

Sem dúvida, houve erros, como eu vejo. Sobretudo no segundo mandato da Dilma na seara econômica, Apostou-se demais na desoneração e apostou-se demais que a iniciativa privada iria investir no desenvolvimento do país e a gente sabe que a iniciativa privada não tem projeto. Ela funciona com o único e exclusivo objetivo de potencializar seus lucros.

Houve erros, mas boa parte da direita liberal brasileira acreditou vivermos em um momento tão polarizado que, ao desidratar o Partido dos Trabalhadores, o poder iria cair automaticamente nas mãos deles.

Deu absurdamente errado, porque quando você estimula ódio e discórdia, sabe como começa, mas nunca como termina. No caso do Brasil, infelizmente, estourou no bolsonarismo, que é seguramente o governo federal mais nocivo para a vida política do país que o Brasil jamais teve.

Nós vimos, há poucas semanas, um apresentador dizer que preferia morrer do que votar em Lula. Essa afirmação também aparece em outros depoimentos de pessoas que integram essa categoria de influenciadores. Parece que por trás dessa decisão ainda se carrega muito essa pecha da corrupção criada pela Operação Lava Jato e outra operações do gênero. O que faz com que algumas pessoas ainda mantenham essa opinião em relação a alguns candidatos?

Vou te contar um causo aqui para te responder a essa pergunta. Esse apresentador ao qual você se refere, em 2004, eu o conheci em uma pauta. Quando acabamos ele me chamou para tomar uma cerveja. Conversando ali, dois garotos de 24 anos, ele me falou que toda a trajetória dele na emissora em que veio a trabalhar já estava assegurada.

Qual é o estímulo para uma pessoa que tem todo o mundo conspirando a favor de suas pretensões e de seu sucesso de questionar o atual modelo de sociabilidade em alguma medida?

É óbvio que você está mais propenso de cair nesse tipo de esparrela ou até de, de alguma forma, deliberadamente avançar nesse tipo de coisa que procura criminalizar lutas sociais, minorias e tenta avançar uma dimensão meritocrática do seu sucesso.

Porque é muito doloroso ter que olhar e reconhecer que você não ficou milionário, famoso, teve aplauso e holofote a vida inteira porque você é brilhante em qualquer medida. Você ficou famoso, rico e milionário porque você é branco, cresceu cercado de privilégios e seu pai tinha uma estrutura muito propícia para avançar suas pretensões nesse sentido.

Eu fiz um artigo a respeito disso, não porque essa pessoa enquanto indivíduo me interessa, mas porque a mentalidade é muito sintomática de toda uma classe, toda uma direita liberal, que abrange toda a alta burguesia, uma ampla parcela da nossa classe média e, infelizmente, até algumas parcelas das camadas mais empobrecidas da população brasileira.

É uma visão acrítica, ahistórica, que procura perceber o modelo de sociabilidade como sendo um valor biológico no qual existem sujeitos mais fortes, outros mais fracos e se você é mais forte é natural que você tenha acesso às primeiras posições  da sociedade e do capital. Se você é um sujeito mais fraco, pior para você, é natural que sofra as consequências de ser mais frágil.

É óbvio que o desenvolvimento humano não funciona assim. O elitismo é histórico e cultural, ele não surge de uma dimensão biológica. São construções. O que leva pessoas a terem esse tipo de atuação  – de dizer que no Lula não dá, apesar de ele ter feito um bom governo, você vê que ele diz isso – é essa visão acrítica e ahistórica de como os seres humanos se desenvolvem. Essas pessoas acreditam que elas são biologicamente superiores.

Na sua opinião, de que maneira essa ideias conservadoras foram enraizadas na sociedade brasileira? 

O governo Bolsonaro vai ser derrotado em outubro. O caldo reacionário que compõem o Bolsonarismo vai permanecer por muito tempo, muito provavelmente vai ser uma força constante com a qual a vida sociopolítica do Brasil vai ter que lidar.

De onde vem esse caldo? Existe uma briga, um debate muito forte, entre uma perspectiva biologizante e uma perspectiva histórica e cultural. Hoje em dia isso já não é tão seco assim, mas a primeira procura subterfúgios para eufemizar a constatação primária de que você é o que você é.

Já a abordagem histórica e cultural explica a forma como o ser humano se desenvolve através do ambiente histórico e cultural no qual está inserido. Existe toda uma dimensão biológica, mas o aspecto biológico é a base sobre a qual os instrumentos da cultura agem para que você se constitua como você se constitui.

Para entender como se formou o caldo reacionário que deu margem para a ascensão do bolsonarismo e para onde nós vamos daqui para frente, da minha perspectiva pelo menos, você precisa olhar para os legados históricos e culturais que formaram a república brasileira, que remetem ao Brasil colônia e ao Brasil império.

É preciso olhar para a constituição de como o Brasil está organizado socieconomicamente e politicamente durante o Brasil colônia e o Brasil império e olhar para todos esse valores de patrimonialismo, de bandolismo, de racismo, de violência, de pilhagem, de estupro, assassinato, de usurpação, que compuseram a formação da nossa atual república.

Em todas essas análises você vai encontrar elementos que dão aderência ao bolsonarismo. É por isso que ele usa arroba para se referir a quilombolas. É por isso que ele diz que a única filha mulher dele nasceu porque ele fraquejou no momento da concepção. É por isso que ele diz que ele preferiria ver o próprio filho morto se o filho fosse gay.

Agora, se você me perguntar se eu acho o Jair Bolsonaro sabe de tudo isso, não, ele não tem a menor ideia de tudo isso. Ele age por osmose, porque ele percebe que, dependendo de como ele se articula, dependendo do tipo de imbecilidade que ele vomita, ele tem mais ou menos aderência com determinada parcela da população brasileira.

Ele não tem consciência crítica e racional. Ele age por tentativa e erro. Para entender porque o bolsonarismo ascendeu é fundamental olhar para a história brasileira de forma mais ampla e perceber quais foram os valores que devem permanecer mesmo depois que o Bolsonaro for derrotado.


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