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Entrevista

Brasil reage melhor a ‘desmonte de Estado’ que os EUA, diz Levitsky

Em breve Trump terá menos tempo para brigas estúpidas, diz professor

Publicado em 20/02/2025 8:55 - Jamil Chade - UOL

Divulgação Reprodução

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A resposta institucional dada pelo Brasil diante da ameaça à democracia é “mais saudável” que a reação dos EUA diante de um desmonte do Estado de direito promovido pelo governo de Donald Trump. A constatação é de Steven Levitsky, cientista político, professor da Universidade de Harvard e autor do best-seller “Como as Democracias Morrem” (2018).

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Nesta primeira parte de uma entrevista exclusiva ao UOL, o diretor do David Rockefeller Center for Latin American Studies, comentou a denúncia contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, elogiou as medidas adotadas por autoridades brasileiras e prevê um possível choque entre Brasil e EUA.

Jair Bolsonaro foi denunciado por tentativa de golpe de estado. Que sinal isso manda para países que enfrentam ameaças às suas democracias? Isso seria um caminho para impedir que haja um colapso das democracias?

Acho que sim. Não há uma panaceia. Não há uma estratégia única que possa salvar uma democracia. Ou imunizá-la de ameaça autoritária. Ainda existe uma direita iliberal poderosa no Brasil e um descontentamento popular. Isso não vai curar o Brasil. Mas é uma medida que pode ser efetiva.

O espelho invertido disso é a situação dos EUA. As cortes, o partido republicano e a Congresso americano, ao abdicar de responsabilizar Trump, mandaram uma mensagem para a sociedade de que era correto fazer tudo o que ele fez. E isso é uma mensagem poderosa.

No Brasil, na Coreia do Sul, eles estão responsabilizando políticos legalmente. Claro que o processo precisa ser justo. Não pode ser uma caça às bruxas. Mas, assumindo que é correto, levar presidentes corruptos ou que conduzem golpes de estado à Justiça é um recado importante para a sociedade e para outros políticos de que isso não pode ocorrer.

A resposta institucional do Brasil é muito mais saudável que a resposta dos EUA.

Imediatamente depois da denúncia contra Bolsonaro, a empresa de mídia dos EUA entrou com um processo contra o ministro Alexandre de Moraes. De uma forma geral, o sr. acredita que Brasil e EUA estão caminhando para um choque?

Provavelmente. Não sei se o processo legal contra Bolsonaro vai levar ao choque. Mas, de uma forma ou de outra, o Brasil e os EUA vão se enfrentar. O Brasil tem instituições sérias, uma política externa séria, é um país grande. Não é um país tão fácil de ser alvo de bullying, como Costa Rica, Colômbia.

Nos EUA, vemos uma política externa agressiva que não está preocupada com softpower, com legitimidade. Uma política externa que tem prazer em humilhar outros países. O que foi feito com a América Central é muito mais difícil fazer contra o Brasil.

O Brasil não vai recuar e haverá conflito. Seja na questão migratória, ou comércio. Dito isso, ainda estamos no primeiro round de uma luta de boxe. Trump é o pugilista soltando os golpes.

Mas o que pode mudar?

Uma coisa que sabemos sobre governos e política é que o mundo intercede. E acontecem coisas que obrigam o governo a responder e reagir. Neste momento, Trump está na ofensiva. Mas coisas acontecem, seja um desastre natural, guerra, um escândalo ou uma crise econômica.

Num certo momento, ele terá de lidar com isso e terá menos tempo para entrar em brigas estúpidas.

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