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Entrevista
A historiadora traça paralelos entre os sequestros da data em outros momentos da história e os acontecimentos em 2022
Publicado em 18/08/2022 9:18 - Jamil Chade - UOL
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Jair Bolsonaro realiza o que poderia ser chamado do quarto sequestro do 7 de Setembro e tenta ser retratado como um príncipe, nos moldes de Dom Pedro 1º. Essas são algumas das conclusões do livro “O sequestro da independência – Uma história da construção do mito do Sete de Setembro”, de Carlos Lima Junior, Lilia M. Schwarcz e Lúcia Klück Stumpf.
Na avaliação dos autores, a “emancipação política brasileira decorreu de um longo e conflituoso processo, desenvolvido em várias regiões do país e que teve diversos atores. Episódios esses escamoteados em favor de uma história oficial ainda muito europeia, pacífica, masculina e unificadora, que encontrou no Sete de Setembro seu mito fundador”.
Em entrevista ao jornalista Jamil Chade (UOL), Lilia Moritz Schwarcz traça paralelos entre os sequestros da data em outros momentos da história e os acontecimentos em 2022. Professora titular no departamento de antropologia da USP e Global Scholar na Universidade de Princeton, ela é autora de obras como O espetáculo das raças (1993), As barbas do imperador (1998, prêmio Jabuti de Livro do Ano), A batalha do Avaí (com Lúcia Klück Stumpf e Carlos Lima Junior, 2013) e Lima Barreto: Triste visionário (2017, prêmio Jabuti de Biografia).
O livro será lançado nesta quinta-feira, em São Paulo, no teatro Antunes Filho do Sesc, às 19h30. Durante o evento, os historiadores vão apresentar suas conclusões, numa espécie de aula pública com imagens e sobre a independência. Lilia Schwarcz promete, porém, não aplicar uma prova.
Eis os principais trechos da entrevista:
O que vocês trazem neste livro que havia sido soterrado pela história oficial de 7 de setembro?
Ele traz muitas novidades. A primeira delas é um dado que já corre na academia, mas que não chega na sociedade civil de uma maneira geral: a Independência não era celebrada no dia 7 de setembro. Em 1822, a Independência foi celebrada com a aclamação de Dom Pedro 1º, no Rio de Janeiro. Esse novo mito de 7 de setembro foi construído lentamente. A primeira pessoa que menciona a data do 7 de setembro foi Dom Pedro 1º, num documento de 1827. A versão vai ganhando força e se transformando numa versão do protagonismo do imperador.
Ou seja, no lugar de pensar a data como uma festa da nação, ela se transforma na festa do protagonismo do imperador.
Outra novidade do livro é a história interna das imagens. Uma delas é a tela do Pedro Américo. Quando ele apresentou essa tela, diante da realeza, ele também editou um livro no qual ele falava tudo. Que a tela era inspirada no artista francês, que ele teve de elevar o terreno para dar mais pompa para a situação. Ele disse que sabia que Dom Pedro não estava num cavalo, mas sim numa mula. Ele sabia que as roupas das tropas não eram aquelas. E sabia que o Ipiranga não poderia lá.
Mas ele fala duas frases maravilhosas: em nome da nacionalidade eu sacrificaria a geografia. A segunda frase: a realidade inspira, mas não escraviza.
O que podemos concluir?
A ideia, portanto, é de sequestro. De fato, na Independência, temos quatro grandes sequestros. O primeiro deles foi o protagonismo do Imperador. O segundo deles é um sequestro paulista. Em 1922, São Paulo reinaugura o Museu do Ipiranga, refaz a mística sobre a tela de Pedro Américo e passa a dizer que não foi uma coincidência que a independência ocorreu em São Paulo. Ela ocorreu, segundo eles, em São Paulo por conta da índole dos paulistas, que levam à frente a nação. Portanto, esse é mais um sequestro.
Quais os outros?
Em 1972, ocorre mais um sequestro, desta vez pela ditadura militar. Estamos no auge do momento mais duro e ela, diante dos sequestros reais de pessoas e crise, resolve festejar de forma intensa a independência. O regime faz um intenso programa, que se parece muito o de Jair Bolsonaro hoje. Patrocina o filme “Independência ou Morte” e resolve trazer os corpos de Dom Pedro 1º e Dona Maria Leopoldina, que estão no Porto. Com um detalhe: o corpo de Dom Pedro chega, mas não cabe na lápide. É a necropolítica.
Mas, além disso, o regime militar sequestra a festa. Até então, a data tinha um desfile militar. Mas era uma festa civil, com desfiles de escolas, escoteiros e até pessoas com roupas típicas. A partir daquele momento, a festa é sequestrada pelos militares e Dom Pedro vira um chefe militar que precisa dar um golpe da legalidade.
E qual o quarto golpe?
É o de Jair Bolsonaro. Ele usa a tela de Pedro Américo, usa Dom Pedro como se fosse um militar. No lugar de trazer corpos, ele vai trazer o coração de Dom Pedro, mantido por testamento na cidade do Porto.
Bolsonaro, no dia 7 de setembro de 2021, ligou uma espécie de despertador do golpe. Ele anunciou o golpe. Desde então, ele passou a estar associado ao 7 de setembro. Ele fez um plano, um projeto dessa história patriótica. Ele tenta ser retratado como um príncipe, que é obrigado e tem um fardo de ir contra o Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal para restituir a soberania nacional, que está ameaçada pelo comunismo, pelas pessoas que não têm pátria ou religião.
Ele está se colocando na mesma posição de Dom Pedro. Bolsonaro não tem só sequestrado a bandeira nacional e a camisa da seleção, mas os conceitos da democracia, e invertido seu sentido. É sequestro ainda mais profundo. Na comemoração de Bolsonaro, só há um desfile militar. Não há uma festa civil. E a liberdade deve ser uma questão de todos nós.
Como a narrativa oficial soterrou os demais fatos que nos levaram à Independência?
Nossa história é muito colonial e muito masculina. Fomos construindo essa lenda sobre um país pacífico, harmonioso e que incide sobre vários mitos nacionais. E também sobre a Independência. Como é que viramos essa anomalia americana de ser uma monarquia cercada por repúblicas em todos os lados? Só conseguimos isso a partir de um golpe das elites. Elas pretendiam manter o status quo e a grande propriedade. E queriam preservar a escravidão.
Com isso, foi abafada uma série de outros protagonistas. Mulheres, negros e indígenas, além de fatos em outras regiões do Brasil. Fatos que não combinam com a lenda harmoniosa do país. O Maranhão apenas aceitou a Independência em 1825, a Bahia não comemora a data no mesmo dia. Recife não aceita o pacto do Sudeste. Essa, portanto, é uma história construída.
O 7 de Setembro, no fundo, era a única data possível. Sabemos que a história é um processo. A data do 7 de setembro não é um evento que da conta de toda a independência.
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