22/02/2024 - Edição 525

Cultura e Entretenimento

“A Natureza da Mordida”: amizades, desencontros e muita sabedoria

O último livro de Carla Madeira não é o espetáculo do “Tudo é Rio”, mas é forte, impactante e uma leitura que prende

Publicado em 25/03/2023 10:28 - Rodrigo Pael

Divulgação Reprodução

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O último lançamento da escritora mineira Carla Madeira, o livro “A Natureza da Mordida” figura entre os 13 livros mais vendidos no Brasil dentre as obras ficcionais. O livro da editora Record vem na esteira de outros dois sucessos da autora como o “Véspera” e o exuberante “Tudo é Rio”. Este último está entre os 10 livros mais vendidos desde 2021 e as comparações, mesmo que indevidas, são inevitáveis.

“A Natureza da Mordida”, apesar de ser o último lançamento, foi escrito entre os outros dois livros citados e as publicações não obedeceram a ordem de conclusão. O último lançado conta a história de uma jovem chamada Olívia, que encontra em uma livraria-café de Belo Horizonte uma senhora chamada “Biá” e ambas constroem uma relação de amizade muito importante para trabalharem seus traumas. A primeira, com uma amizade bruscamente interrompida. Já Biá, com um marido que teve de “ir comprar cigarro e nunca mais voltar” – frase apenas ilustrativa.

O livro é fluido, interessante e sábio. Guarda todas as virtudes de Carla Madeira, mas o estupendo sucesso de “Tudo é Rio” e porque não dizer, o de “Véspera”, assombram a obra caçula: os dois outros são melhores, dizem os leitores da escritora. Carla Madeira afirma que nenhum de seus livros são inspirados em fatos que aconteceram com ela, porém, assim como em “A Natureza da Mordida”, também teve uma amizade findada na juventude.

Carla defende que uma obra não é puramente ficcionais porque aquilo que acontece em um determinado livro pode estar acontecendo com alguém na vida real. Porém, alguns acontecimentos trágicos de “A Natureza do Mordida” não parecem ser factíveis na vida real. A autora coloca na boca da sábia senhora Bia, uma professora aposentada e leitora voraz, frases de outros autores clássicos. Dá vontade de ler o livro com um marcador de texto, porém, não é necessário. No final da obra, essas frases estão devidamente separadas e com seus autores explicitados.

A sutileza da amizade, sentimento que pode estar por um fio e a forma de se ressignificar acontecimentos do passado para curar traumas, ultrapassar erros, são abordadas de forma bela e real. Porém, a degenerabilidade da idade pode dar aspectos de senilidade para a contagem de uma versão em detrimento do fato em si. Olívia busca saber porque a amizade com Rita terminou. Biá busca esquecer porque seu amado marido foi embora. Nem sempre temos culpa, as vezes temos apenas corpo. Apenas estávamos lá. Apenas existimos.

É um Carla Madeira. Vale muito a pena ler.

Rodrigo Pael – Jornalista


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