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Comportamento

X se torna reduto de redes de abuso infantil sob gestão de Elon Musk

Dinamarca propõe banir redes sociais para menores de 15 anos

Publicado em 10/10/2025 1:54 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Redes de exploração sexual infantil operam livremente no X (ex-Twitter), aproveitando brechas na moderação e ausência de políticas efetivas de controle. Entre setembro de 2024 e outubro de 2025, mais de 165 mil menções associadas a conteúdo ilegal circularam pela plataforma, segundo levantamento do analista de redes Pedro Barciela. A empresa, sob controle de Elon Musk, falha sistematicamente em conter essas ações.

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O estudo analisou apenas três hashtags associadas ao conteúdo de exploração, revelando uma estrutura permanente de disseminação baseada em automação, variações gráficas e revezamento de contas. A estratégia é sofisticada: combina códigos numéricos, símbolos e substituições ortográficas que dificultam a atuação dos filtros automáticos da própria plataforma. Cada hashtag age como um núcleo de disseminação, com dezenas de variações criadas para escapar da detecção.

A atividade criminosa tem horário certo para atuar: 78% das publicações ocorrem à meia-noite, justamente quando há menor presença de moderadores humanos. Os dados revelam um padrão recorrente em três fases — explosão inicial, estabilização e reorganização após bloqueios —, demonstrando um nível elevado de planejamento e adaptação dos grupos criminosos.

Segundo Barciela, mais de 40 pares de coocorrência foram mapeados, formando uma espécie de “senha coletiva” entre usuários do esquema. “Há um ecossistema estruturado que opera com constância e previsibilidade”, afirma o pesquisador em suas redes. A limitação do estudo a apenas três hashtags sugere que o número real de postagens pode ser exponencialmente maior, atingindo centenas de milhares de publicações ilegais ainda ativas.

A atuação das redes se apoia também em técnicas para dificultar rastreamento: uso sistemático de encurtadores de links, redirecionamentos internacionais e perfis recém-criados que desaparecem após alguns dias. Essas contas reaparecem com novas identidades, recriando o ciclo e desafiando qualquer tentativa de detecção baseada apenas em palavras-chave — método que o X continua utilizando, apesar das evidências da ineficácia.

Musk mira guerra cultural e ignora problema real

Enquanto grupos criminosos se adaptam e avançam, Elon Musk parece mais empenhado em travar batalhas ideológicas do que enfrentar o problema real. Em setembro de 2025, o bilionário endossou campanha contra a Netflix por supostamente promover uma “agenda woke transgênero”, pedindo a seus seguidores que cancelassem suas assinaturas “pela saúde dos seus filhos”.

O contraste é gritante: o mesmo Musk que se apresenta como defensor da moralidade familiar é responsável por uma plataforma que abriga e facilita a circulação de conteúdo de abuso infantil. Desde que assumiu o X, Musk reduziu equipes de moderação, enfraqueceu áreas de segurança digital e aboliu processos internos de auditoria, segundo relatos de ex-funcionários publicados por veículos como The New York Times e Reuters.

Essa fragilidade operacional criou terreno fértil para a proliferação de conteúdo ilegal. Sem auditorias independentes, sem relatórios públicos de transparência e com filtros automatizados falhos, o X passou a ser apontado por órgãos de segurança como uma das plataformas menos colaborativas no combate à exploração sexual infantil.

De acordo com Alex Stamos, ex-diretor de segurança do Facebook e especialista em cibersegurança, “a moderação de conteúdo não pode ser feita com base apenas em automação e ideologia. É preciso investimento sério e auditoria constante”.

Resposta genérica ignora gravidade dos dados

Procurada pelo ICL Notícias, a empresa respondeu enviando um artigo genérico, intitulado “X’s commitment to combating Child Sexual Abuse Material (CSAM) online”, no qual afirma adotar “tolerância zero” contra qualquer tipo de abuso infantil. No documento, o X menciona o uso de bibliotecas de hash, sistemas automatizados e parcerias com instituições como o National Center for Missing & Exploited Children (NCMEC), a Internet Watch Foundation e o Project Lantern.

Segundo a empresa, só em 2024 foram enviados “centenas de milhares de relatórios” ao NCMEC e mais de 4,5 milhões de contas foram suspensas globalmente por envolvimento com conteúdo de exploração. O X ainda afirma manter diálogo constante com reguladores dos EUA, Reino Unido e União Europeia.

Entretanto, a realidade verificada por especialistas e analistas independentes mostra que esses números não se traduzem em eficácia prática. A permanência de redes organizadas, com vocabulário próprio, atuação em horários estratégicos e adaptação constante, desmente o discurso de “tolerância zero” e revela um ambiente de negligência estrutural.

Um ambiente permissivo sob a máscara da liberdade

O cenário atual escancara uma contradição fundamental: enquanto o X diz priorizar a segurança infantil, os fatos indicam a manutenção de um ambiente permissivo, onde a exploração sexual de crianças circula com relativa liberdade, protegida pela inação da empresa. A falta de mecanismos de detecção baseados em padrões, a ausência de fiscalização externa e o desmonte de estruturas internas de segurança colocam a plataforma no centro de uma crise ética e legal.

Ao optar por blindar sua gestão sob o pretexto da liberdade de expressão, Elon Musk permite que redes criminosas se fortaleçam. A defesa de valores familiares torna-se, nesse contexto, uma narrativa conveniente — usada para distrair o público enquanto a realidade da plataforma segue manchada por omissão e leniência.

Dinamarca propõe banir redes sociais para menores de 15 anos

Após o escândalo envolvendo a proliferação de redes de exploração infantil no X, governos europeus intensificam os esforços para limitar o acesso de crianças e adolescentes às redes sociais. Na Dinamarca, a primeira-ministra Mette Frederiksen anunciou um projeto de lei que proíbe o uso dessas plataformas por menores de 15 anos, em uma tentativa de reverter os efeitos nocivos da vida digital precoce.

“Os celulares e as redes sociais estão roubando a infância de nossos filhos”, afirmou Frederiksen em discurso no Parlamento, na última terça-feira (7). A primeira-ministra foi enfática: “Libertamos um monstro. Nunca antes tantas crianças e jovens sofreram de ansiedade e depressão.” Segundo dados apresentados por ela, 60% dos meninos dinamarqueses entre 11 e 19 anos preferem ficar em casa a conviver com os amigos, e 94% das crianças no sétimo ano já tinham um perfil em redes sociais antes dos 13 anos — o que contraria, inclusive, os próprios termos de uso dessas plataformas.

Frederiksen também alertou para a deterioração de habilidades básicas como leitura e concentração. “Nas telas, elas veem coisas que nenhuma criança ou jovem deveria ver”, afirmou. O projeto prevê que, com autorização dos pais, adolescentes a partir dos 13 anos possam usar as redes, mas os detalhes de aplicação da norma ainda não foram divulgados.

A ministra da Digitalização, Caroline Stage, reforçou o tom crítico: “Deixamos a vida digital das crianças para plataformas que nunca tiveram o bem-estar delas em mente. Precisamos sair do cativeiro digital para a comunidade.” A declaração reflete uma autocrítica rara entre governos e reconhece a falta de regulação durante a ascensão descontrolada das redes sociais entre menores.

Dinamarca endurece após restringir celulares nas escolas

A proposta segue a lógica de uma série de medidas restritivas adotadas pelo governo dinamarquês desde o início de 2025. Em fevereiro, foi anunciada a proibição total de celulares em salas de aula e atividades escolares extracurriculares, medida respaldada por uma comissão de bem-estar infantil. O mesmo colegiado recomendou que crianças menores de 13 anos não tenham seu próprio smartphone ou tablet.

Essas ações fazem parte de uma ofensiva mais ampla que, segundo o governo, visa reconstruir o vínculo social entre jovens e combater a epidemia de sofrimento psíquico agravada pelas redes.

Movimento global contra a influência das plataformas

A iniciativa dinamarquesa se insere em uma tendência global: governos estão passando da inação à intervenção direta, pressionados por estudos que associam o uso precoce das redes sociais a ansiedade, depressão, distúrbios de imagem e perda de habilidades cognitivas e sociais em jovens.

A Austrália foi um dos primeiros países a agir. No final de 2024, o Parlamento aprovou a proibição do acesso às redes sociais por menores de 16 anos, incluindo plataformas como Facebook, TikTok, Snapchat e YouTube. Embora a medida ainda enfrente desafios técnicos para implementação, representa um marco simbólico na mudança de postura do poder público diante das big techs.

Na Noruega, o primeiro-ministro Jonas Gahr Store declarou que pretende elevar o limite de idade para uso das redes sociais de 13 para 15 anos. “Será uma batalha árdua”, afirmou Store, “mas os políticos precisam agir contra o poder dos algoritmos” — uma referência direta às lógicas de engajamento das plataformas, que priorizam conteúdo sensacionalista, polarizador ou sexualizado, inclusive para menores.

Já a Grécia propôs a criação de uma “maioridade digital” na União Europeia, fixando a idade mínima para acesso às redes sociais em 13 anos com consentimento dos pais. A proposta busca uniformizar as regras no bloco, em meio ao crescente clamor público por proteção infantil no ambiente online.

Pressão sobre big techs cresce diante de escândalos

O avanço dessas medidas ocorre paralelamente ao aumento da pressão internacional sobre plataformas como o X, onde, como mostrou o levantamento do analista Pedro Barciela, redes de exploração sexual infantil operam de forma coordenada e praticamente impune. A resposta das big techs tem sido, em sua maioria, superficial: comunicados genéricos, promessas vagas e resistência à auditoria externa.

Como apontou o especialista James P. Steyer, CEO da organização Common Sense Media, em entrevista à PBS NewsHour (2024): “As redes sociais são projetadas para viciar, e os adolescentes são os alvos mais vulneráveis. Não se trata apenas de privacidade ou tempo de tela, mas de saúde mental, segurança e desenvolvimento humano.”

Liberdade digital vs. proteção da infância

O debate central agora se desloca para o embate entre liberdade digital e proteção da infância. Grupos ligados ao setor de tecnologia criticam as medidas por considerarem que violam a liberdade de expressão ou autonomia dos pais. No entanto, cresce a compreensão de que o modelo atual favorece o lucro das plataformas à custa da saúde e segurança dos mais jovens.

Com países como Dinamarca, Austrália e Noruega assumindo a dianteira, o vácuo deixado pelas big techs começa a ser ocupado por políticas públicas mais duras. A lacuna regulatória, há anos denunciada por educadores, médicos e ativistas, finalmente se torna pauta prioritária nos parlamentos — uma mudança que, embora tardia, já começa a redesenhar os limites da presença infantil no mundo digital.

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