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Comportamento
Médicos alertam que não há limite seguro para o álcool, enquanto maioria dos brasileiros desconhece os riscos
Publicado em 01/03/2025 11:30 - Semana On
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No Carnaval, a folia parece indissociável do consumo de álcool. Em meio a blocos com nomes sugestivos como Birita Mas Não Cai e marchinhas que enaltecem a embriaguez, o consumo de cerveja e destilados dispara. Em 2024, as vendas de bebida alcoólica cresceram 12% em relação ao ano anterior. Mas será que a recomendação “beba com moderação” realmente funciona? Pesquisas sugerem que não. E mais: a maioria dos brasileiros sequer sabe o que significa moderação.
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Um estudo da Universidade de Oxford, publicado no British Journal of Health Psychology em 2022, revelou que os alertas nos rótulos de bebidas alcoólicas não reduzem o consumo. No Brasil, a pesquisa Álcool e a Saúde dos Brasileiros (2023) expôs um dado alarmante: 75% dos consumidores abusivos acreditam que bebem moderadamente. E apenas 13% reconhecem que precisam de ajuda. Mas afinal, qual é o limite entre o consumo moderado e o abuso?
Alcoolismo: uma epidemia silenciosa
Segundo o Ministério da Saúde, um em cada cinco brasileiros consome álcool de forma abusiva — quatro ou mais doses para mulheres, cinco ou mais para homens, em uma única ocasião. Homens ainda bebem mais do que mulheres (27,3% contra 15,2%), mas elas são mais vulneráveis aos efeitos da substância. “Mesmo ingerindo doses menores, elas tendem a adoecer mais rápido”, alerta a psiquiatra Ana Cecília Marques, doutora em Neurociências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Embora o discurso da moderação seja amplamente difundido, médicos são categóricos: não há um nível seguro para o consumo de álcool. “O mais seguro é não consumir”, afirma o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da Unifesp. No Brasil, a recomendação oficial considera moderado ingerir até uma dose por dia para mulheres e duas para homens. No Canadá, o limite é mais rígido: apenas duas doses por semana. E outros países, como França, Estados Unidos e Austrália, estudam reduzir ainda mais esse número.
Para o psiquiatra Jorge Jaber, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), mesmo pequenas quantidades podem trazer riscos à saúde. “O ideal é evitar o consumo, principalmente em casos de histórico familiar de alcoolismo ou doenças preexistentes, como hipertensão e diabetes”, alerta.
O mito do consumo responsável
O discurso do consumo responsável é muitas vezes sustentado pela indústria do álcool. Em 2008, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) criou a exigência de incluir a frase “beba com moderação” em propagandas e rótulos. No entanto, especialistas afirmam que essa estratégia é ineficaz. Afinal, moderação é um conceito subjetivo — e a maioria das pessoas acredita que bebe de forma controlada.
Além disso, há um terceiro grupo além dos moderados e abusivos: os dependentes. A transição entre abuso e dependência é sutil e pode passar despercebida. Entre os principais sinais de alerta estão a tolerância (necessidade de ingerir mais doses para sentir os mesmos efeitos), a abstinência (mal-estar ao interromper o consumo) e a persistência (continuar bebendo mesmo com prejuízos evidentes à saúde e à vida social).
Álcool e saúde: o impacto real
Os efeitos do álcool vão muito além das ressacas e dos acidentes de trânsito. Um dos riscos menos conhecidos é a associação com o câncer. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não há um nível seguro de consumo quando o assunto é câncer. “Uma taça de vinho por dia já aumenta em 11% o risco de câncer de mama”, alerta o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, diretor da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (UNIAD). Ele destaca que um consumo de baixo risco — que não traga impactos significativos à saúde — seria o equivalente a apenas uma dose por semana.
Outra estratégia adotada por alguns países para reduzir o consumo é o aumento dos impostos sobre bebidas alcoólicas, além de restrições à publicidade e à venda. “É direito do consumidor saber que o álcool causa câncer, assim como foi feito com o cigarro”, defende João Ricardo Rodrigues Viégas, consultor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).
Mudança de comportamento: as novas gerações bebem menos
Apesar do cenário preocupante, há um movimento crescente de redução do consumo de álcool, principalmente entre os mais jovens. A pesquisa Copo Meio Cheio aponta que as gerações Y (nascidos entre 1981 e 1996) e Z (1997 a 2010) estão bebendo menos do que as anteriores. O principal motivo? A busca por um estilo de vida mais saudável.
No entanto, parar de beber pode gerar um novo desafio: o sober shaming, ou a humilhação dos sóbrios. Segundo a mesma pesquisa, 34% dos entrevistados que reduziram ou interromperam o consumo afirmam que precisam dar explicações constantes. “Se você diz que não bebe, sempre perguntam o motivo. Mas ninguém pergunta por que você bebe”, observa Graziella Santoro, fundadora da Associação Alcoolismo Feminino.
Sobrevivendo ao Carnaval (e à pressão social)
Para os que querem evitar os excessos no Carnaval ou em outras festividades, especialistas recomendam algumas estratégias simples:
Hidrate-se: A água reduz a desidratação causada pelo álcool e diminui a vontade de beber para “matar a sede”.
Coma antes de beber: O estômago cheio reduz a velocidade de absorção do álcool no organismo.
Evite misturas perigosas: Energéticos, por exemplo, mascaram os efeitos da embriaguez, aumentando o risco de overdose alcoólica.
Defina um limite e respeite-o: Planeje com antecedência o quanto pretende beber e não ceda à pressão social.
Não misture álcool e direção: Se for beber, programe-se para voltar para casa de táxi, aplicativo ou transporte público.
O Carnaval pode ser um momento de celebração e liberdade. Mas talvez a verdadeira alegria — como defende o bloco Alegria Sem Ressaca — não esteja no fundo de um copo. E sim, na capacidade de viver a festa plenamente, sem excessos que tragam prejuízos para a saúde e para a vida.
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