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Comportamento

Jornadas extenuantes estão ligadas a 840 mil mortes anuais, aponta relatório

Segundo a OIT, longas jornadas e ambientes laborais degradantes impulsionam doenças mentais, físicas e geram prejuízo

Publicado em 02/05/2026 1:46 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O debate sobre o fim da escala 6×1 ainda enfrenta resistência em parte da opinião pública, frequentemente reduzido a uma suposta falta de disposição para o trabalho. Essa leitura, porém, contrasta com evidências técnicas que apontam para impactos concretos e mensuráveis das jornadas prolongadas sobre a saúde dos trabalhadores.

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Relatório recente da Organização Internacional do Trabalho revela que mais de 840 mil pessoas morrem anualmente em decorrência de fatores psicossociais ligados ao trabalho. Entre os principais vetores estão jornadas extensas, assédio no ambiente profissional e insegurança no emprego — elementos que contribuem para o desenvolvimento de transtornos mentais, além de condições como burnout, acidentes vasculares cerebrais, doenças cardiovasculares e suicídio.

A constatação de que o excesso de trabalho pode levar à morte não é retórica. Trata-se de um fenômeno documentado em diferentes contextos históricos e geográficos. No Brasil, episódios envolvendo trabalhadores rurais, como cortadores de cana submetidos a metas físicas extremas, tornaram-se emblemáticos. No Japão, o termo karoshi — literalmente “morte por excesso de trabalho” — foi incorporado ao vocabulário para descrever casos de colapso físico e mental associados à sobrecarga laboral.

Segundo dados das Organização das Nações Unidas, jornadas longas, contínuas e extenuantes estão entre os principais fatores que explicam esse contingente anual de mortes. Nesse contexto, a escala 6×1 deixa de ser apenas um modelo organizacional considerado ultrapassado e passa a ser compreendida como parte de uma engrenagem que favorece o adoecimento.

No Brasil, os efeitos desse modelo já se refletem em indicadores oficiais. Informações da Previdência Social mostram que os afastamentos por burnout cresceram de 823 registros em 2021 para 4.880 em 2024 — um aumento de quase seis vezes em três anos. Especialistas apontam que o número real pode ser ainda maior, diante da subnotificação e da dificuldade de muitos trabalhadores em se afastar mesmo quando adoecidos.

A defesa da manutenção desse tipo de jornada frequentemente recorre ao argumento da tradição — “sempre foi assim”. No entanto, a permanência histórica de uma prática não garante sua legitimidade ou adequação diante de novos conhecimentos. O próprio conceito de “ambiente psicossocial de trabalho”, adotado pela OIT, inclui fatores como organização das tarefas, intensidade do ritmo e tempo disponível para recuperação, deslocando o foco da responsabilidade individual para a estrutura que regula o trabalho.

Essa estrutura também é sustentada por narrativas culturais e econômicas que associam sofrimento à virtude. Em muitos casos, o esforço extremo é apresentado como prova de valor moral — seja perante a sociedade, seja em dimensões simbólicas mais amplas. Contudo, na prática, esse sacrifício ocorre majoritariamente em benefício de terceiros, não de quem executa o trabalho.

A escala 6×1 opera como um dos mecanismos desse sistema, limitando o tempo de descanso e ampliando a exposição a riscos físicos e psicológicos. A contradição aparece quando se observa que, enquanto a manutenção preventiva de máquinas é tratada como essencial para evitar falhas, a preservação da saúde humana nem sempre recebe o mesmo nível de prioridade.

Os impactos não se restringem ao plano individual. A OIT estima que problemas relacionados ao ambiente de trabalho resultam em perdas equivalentes a 1,37% do Produto Interno Bruto global anualmente. Trata-se de um custo econômico significativo, que não incorpora plenamente o impacto humano dessas condições.

Nesse cenário, a redução da jornada emerge não apenas como uma reivindicação trabalhista, mas como uma estratégia de saúde pública. A medida busca atuar sobre as causas do adoecimento, em vez de apenas mitigar seus efeitos por meio de tratamentos, afastamentos ou intervenções paliativas.

Ainda assim, especialistas destacam que o fim da escala 6×1, isoladamente, não resolve o problema. Questões estruturais como precarização, informalidade e assédio seguem presentes. Dados da OIT indicam que 18% dos trabalhadores no mundo já sofreram algum tipo de violência psicológica no ambiente profissional.

A resistência à mudança, portanto, não se apoia exclusivamente em argumentos técnicos, mas também em construções ideológicas que naturalizam o sofrimento como parte inerente do trabalho. Sob essa lógica, o adoecimento deixa de ser interpretado como falha sistêmica e passa a ser visto como atributo individual — uma inversão que, à luz dos dados disponíveis, se mostra cada vez mais difícil de sustentar.

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