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Comportamento

Bets se transformam em uma das drogas mais perigosos no país

Explosão das apostas online agrava desigualdades e se transforma vício

Publicado em 17/07/2025 12:14 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Num país onde a sobrevivência virou aposta, as bets conquistaram o segundo lugar entre os destinos mais acessados da internet, atrás apenas do Google. Superaram o YouTube, o WhatsApp, e até a lógica do bom senso. Vendem a ilusão de um milagre financeiro em tempos de desespero social. Alimentam-se da vulnerabilidade de milhões, com a cumplicidade de um Estado que finge regular enquanto arrecada, e de uma mídia que finge informar enquanto lucra com os anúncios.

O dado, revelado pelo jornalista Helton Simões Gomes, do UOL, é o retrato de uma epidemia digital que cresce em silêncio, travestida de entretenimento. Mas a febre das apostas esportivas não é, como muitos tentam fazer crer, um fenômeno espontâneo ou “natural” do mercado. Trata-se de uma arquitetura deliberada — e altamente lucrativa — projetada para capturar a atenção, a esperança e o dinheiro de uma população exausta.

Segundo o psicólogo Altay de Souza, doutor pela USP, especialista em comportamento e pesquisador em estatística, “tudo nas bets é pensado para viciar”. O sistema funciona com recompensas iniciais que fixam memórias positivas, seguidas de perdas sistemáticas, mas normalizadas pela estrutura emocional do vício. “Você lembra das vezes que ganhou, mas não das que perdeu. A memória emocional funciona assim”, explica. Esse mecanismo é amplificado por um ambiente onde a publicidade está em toda parte: nos estádios, nos intervalos dos jogos, nos perfis de influenciadores digitais e até nas roupas de comentaristas esportivos.

A economia do vício

A explosão das bets no Brasil é antes de tudo um caso de economia política. Empresas sediadas no exterior, muitas em paraísos fiscais, operam em solo brasileiro sem a devida contrapartida fiscal. O dinheiro que entra não circula no país: evade, drena, desestrutura a economia real. Como alerta Altay de Souza, “a última coisa que você movimenta com uma bet é a economia brasileira”. Em vez de impulsionar setores produtivos ou fortalecer o consumo interno, o capital gerado pelas apostas alimenta conglomerados transnacionais que lucram com a compulsão alheia.

Segundo o Raio-X do Investidor Brasileiro de 2024, 23 milhões de pessoas apostaram ao longo do ano. Desse total, cerca de 4 milhões acreditam que estão investindo, e 3 milhões apresentam alto risco de desenvolver um vício patológico. Em outras palavras: temos uma bolha que mistura ignorância financeira, desespero social e manipulação publicitária. O que deveria ser combatido como questão de saúde pública, é tratado como entretenimento inofensivo — ou pior: como oportunidade de crescimento econômico.

Doente está a sociedade

Há uma dimensão mais profunda e simbólica nesse fenômeno. As bets são o sintoma de uma sociedade exausta, precarizada e sem perspectiva. Como lembrou o sociólogo Zygmunt Bauman, em Tempos Líquidos, o imediatismo é a lógica dominante de um mundo onde o futuro é incerto demais para ser planejado. É nesse vazio que as apostas se instalam: vendem a promessa de mobilidade social instantânea, sem esforço, sem tempo e sem garantias.

Altay de Souza é direto: “Não é que a pessoa seja imediatista. É que o ambiente exige isso”. Em um país onde o salário mínimo é insuficiente para cobrir a cesta básica, e onde metade da população vive com alguma forma de insegurança alimentar, não se trata de ganância, mas de sobrevivência. A bet aparece como a única esperança viável — ainda que seja uma armadilha.

O Estado como sócio informal

Desde 2018, quando o então presidente Michel Temer sancionou a lei que permitiu a regulamentação das apostas esportivas, o setor só cresceu. Mas a regulação ficou pela metade: o governo federal demorou cinco anos para estabelecer normas, e quando o fez, priorizou a arrecadação, não a proteção ao cidadão. Em 2023, um projeto de lei legalizou as bets, mas sem mecanismos robustos de fiscalização, limites de publicidade ou campanhas de conscientização. Hoje, as apostas são promovidas sem qualquer restrição, inclusive durante o horário nobre da TV aberta.

Mais grave ainda é o lobby político. Bancadas inteiras foram cooptadas por interesses do setor. O jornal O Globo, em 2023, revelou que parlamentares com ligação direta com casas de apostas atuam contra projetos que propõem restrições. Trata-se de um ciclo vicioso institucionalizado: o Estado arrecada, mas se omite; o Congresso legisla, mas protege seus financiadores; a mídia denuncia, mas fatura com os anúncios.

A mídia que vende o vício

Nesse cenário, a imprensa tem um papel ambíguo — e preocupante. Se por um lado há reportagens críticas e investigações relevantes, como a do próprio UOL, por outro, jornais, sites, rádios e canais de TV aceitam o dinheiro das bets sem qualquer critério ético ou editorial. Estão vendendo espaço publicitário para um produto que vicia, destrói famílias e custa bilhões ao sistema de saúde pública. A comparação com o crack não é retórica: se o Brasil não proíbe propagandas de bets, por que proíbe as de drogas ilícitas?

Caminhos possíveis

O Brasil não precisa reinventar a roda. Países como Reino Unido, Itália e Austrália já adotaram restrições severas à publicidade de jogos de azar, com proibições específicas para horários infantis, exigência de avisos sobre os riscos do vício e limites ao valor das apostas. Por aqui, especialistas defendem medidas urgentes:

– Proibição total da propaganda de bets em todos os meios de comunicação;

– Criação de impostos específicos para financiar programas de prevenção e tratamento;

– Verificação de renda e limites de gasto para usuários cadastrados;

– Mecanismos compulsórios de autoexclusão e interrupção do acesso em caso de comportamento de risco.

Mas o mais importante é a mudança de cultura. É preciso deixar claro que o problema não é o jogo em si, mas a forma como ele está sendo promovido: como solução mágica, como caminho para riqueza, como substituto de um futuro que o Estado deixou de garantir. Como alerta Altay de Souza: “Mesmo que você não jogue, com certeza conhece alguém em risco patológico.”

O Brasil é hoje um país refém de uma roleta que gira com aval institucional. As bets lucram com a esperança dos pobres, silenciam a consciência dos políticos e alimentam a hipocrisia de uma mídia que se diz vigilante, mas fatura com o vício. Enquanto isso, o cidadão continua apostando — no jogo, na sorte e no dia em que tudo vai mudar. Mas, nesse jogo, a banca sempre vence. E o prejuízo, como sempre, é de todos nós.

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