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Comportamento
Especialistas apontam mudanças estruturais no mundo do trabalho e sociedade como gatilhos da crise
Publicado em 15/03/2025 11:21 - Semana On
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A saúde mental dos trabalhadores brasileiros atingiu um marco alarmante: em 2024, o número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais ultrapassou 440 mil casos, mais que o dobro dos registros de 2014. Os dados do Ministério da Previdência Social mostram uma tendência de crescimento acelerado, com aumento de 67% em relação a 2023. Transtornos de ansiedade, episódios depressivos e transtornos afetivos bipolares estão entre as principais causas.
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O fenômeno, longe de ser isolado, reflete uma crise mais profunda, que transcende o ambiente corporativo e se insere no contexto de um mundo em transformação acelerada. As tensões do pós-pandemia, a digitalização da vida, a precarização do trabalho e mudanças estruturais na economia global criam um cenário de incerteza e instabilidade, impactando diretamente a saúde mental da população.
Os números de uma crise silenciosa
Os dados de 2024 mostram que os transtornos de ansiedade lideraram os afastamentos, com 141.414 registros, seguidos por episódios depressivos (113.604 casos) e transtorno depressivo recorrente (52.627 casos). Outras condições significativas incluem transtorno afetivo bipolar (51.314 casos), transtornos decorrentes do uso de drogas e substâncias psicoativas (21.498 casos) e reações ao estresse grave (20.873 casos).
Em comparação a uma década atrás, a deterioração da saúde mental no ambiente de trabalho é evidente. Os afastamentos por transtornos de ansiedade cresceram mais de 400% desde 2014, enquanto os episódios depressivos dobraram. O aumento exponencial desses casos levanta questões fundamentais sobre as condições laborais e a estrutura da sociedade contemporânea.
Mudanças sociais, trabalho e sofrimento psíquico
Para o professor Antonio Virgílio Bittencourt Bastos, da Universidade Federal da Bahia e membro do Conselho Federal de Psicologia, os dados refletem uma crise que já vinha sendo monitorada por especialistas. “Os indicadores de adoecimento e de sofrimento psíquico extrapolam o mundo do trabalho. A crise de covid-19 nos trouxe essa pós-pandemia. Vivemos numa sociedade adoecida”, destaca.
Bastos aponta que o mundo contemporâneo passa por uma reestruturação profunda, marcada por mudanças sociais e tecnológicas que impactam diretamente a saúde mental. A digitalização da vida, as transformações no mercado de trabalho e a crescente precarização das relações laborais intensificam o sentimento de insegurança e instabilidade.
“Esse impacto da revolução tecnológica está reestruturando postos de trabalho, redefinindo modelos de gestão, precarizando o trabalho e fragilizando vínculos. Isso torna a crise de saúde mental ainda mais grave dentro do ambiente corporativo”, afirma o psicólogo. Ele ainda alerta para a coexistência de modelos de gestão ultrapassados, que perpetuam práticas autoritárias e favorecem ambientes de trabalho tóxicos, gerando mais tensões e conflitos interpessoais.
Um desafio para o século XXI
O aumento expressivo dos afastamentos revela um problema estrutural que exige medidas mais profundas do que as respostas convencionais adotadas até agora. Para Bastos, manter a qualidade de vida no atual contexto se tornou um dos grandes desafios do século XXI. “Como construir um mundo mais sustentável, harmônico, onde as pessoas conseguem equilibrar vida profissional e pessoal? Esse é um dos grandes desafios”, reflete.
A solução, segundo ele, passa por uma abordagem que vá além do tratamento dos sintomas. “Muitas soluções são paliativas. Existem programas e ações, mas eles não vão à raiz do problema. Não basta oferecer assistência psicológica sem repensar o modelo de trabalho e gestão”, alerta.
Para conter a escalada da crise de saúde mental, mudanças estruturais são indispensáveis. Isso inclui a reformulação dos processos de trabalho, a adoção de modelos de gestão mais humanizados e políticas públicas que garantam suporte efetivo e de longo prazo aos trabalhadores.
O aumento dos afastamentos por doenças mentais não é apenas um reflexo do sofrimento individual, mas um sinal de que a sociedade precisa repensar suas prioridades e a forma como organiza o trabalho e as relações sociais. Enquanto isso não acontecer, os números continuarão a crescer, evidenciando uma crise que, embora silenciosa, se torna cada vez mais difícil de ignorar.
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