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Ter ou não ter… eis a questão

Estudo lança luz sobre prós e contras da companhia canina

Publicado em 05/02/2025 3:49 - Sônia Peçanha

Divulgação Fábio Rodrigues - Abr

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Os olhos brilhantes, o rabo que balança sem parar e a energia que transborda alegria. Para muitos, poucas coisas são tão reconfortantes quanto a recepção calorosa de um cachorro ao chegar em casa. Não é à toa que, no Brasil, mais de 62 milhões de cães dividem espaço nos lares, segundo o Instituto Pet Brasil. Nos Estados Unidos, o número é ainda mais impressionante: 65 milhões. E na Europa, 104 milhões de lares contam com ao menos um integrante canino, conforme dados da Universidade Eötvös Loránd (Elte), da Hungria. Mais do que estatísticas, esses números revelam uma realidade: o cão, para muitos, deixou de ser apenas um animal de estimação para ocupar o papel de membro da família.

Mas, como toda convivência íntima, essa relação não é imune a tensões. Um estudo realizado por pesquisadores da Elte, publicado na renomada revista científica Scientific Reports, buscou explorar os aspectos mais profundos dessa convivência. A pesquisa revelou que, embora a maioria dos tutores de cães se identifique com a ideia de que os animais “trazem alegria à vida”, essa alegria vem acompanhada de uma série de desafios práticos, emocionais e financeiros.

A promessa de alegria e a construção do vínculo emocional

O aspecto emocional foi o mais enfatizado pelos entrevistados: mais de 60% dos 246 participantes mencionaram, de forma espontânea, a conexão profunda que desenvolveram com seus cães, descrevendo-os como companheiros leais, honestos e, acima de tudo, incondicionalmente dedicados. Essa ligação transcende o simples carinho. Em um mundo marcado pelo individualismo e pela correria do dia a dia, muitos encontram no cão o conforto que não obtêm em relações humanas. O animal não julga, não cobra e está sempre presente, o que faz dele um alicerce emocional para muitas pessoas.

Essa dinâmica, no entanto, não surge do nada. O vínculo com um cachorro é construído ao longo do tempo, por meio da convivência diária, das brincadeiras, dos passeios e até mesmo dos momentos difíceis. A pesquisa apontou que essa relação emocional se intensifica em situações específicas, como quando o cão adoece ou apresenta problemas comportamentais. Nessas ocasiões, o sentimento de responsabilidade pelo bem-estar do animal é reforçado, criando uma conexão ainda mais profunda. Para muitos, cuidar de um cão é uma extensão do próprio senso de dever e propósito.

Os desafios escondidos por trás do afeto

Mas se há amor, também há obstáculos. A pesquisa liderada por Laura Gillet, doutoranda no Departamento de Etologia da Elte, destacou que os desafios não podem ser ignorados. Eles vão muito além das despesas financeiras, embora essas sejam uma das maiores preocupações: 95% dos entrevistados citaram os custos com alimentação, veterinário e outros cuidados como um peso constante no orçamento familiar. Para muitos, manter um cão saudável e bem alimentado é um compromisso financeiro que pode exigir sacrifícios.

No entanto, os problemas não são apenas materiais. O estudo revelou que a convivência com um cão pode desencadear emoções como culpa e ansiedade, especialmente quando o animal apresenta problemas de saúde ou de comportamento. A necessidade de modificar rotinas, adaptar horários e, em alguns casos, lidar com críticas externas por não atender às expectativas sociais de “bom tutor” pode gerar estresse. Isso é ainda mais evidente entre aqueles que, por idealismo ou falta de informação, adotam um cão sem considerar as implicações práticas.

Um ponto interessante da pesquisa é que muitos donos relataram sentimentos de frustração quando suas expectativas não foram atendidas. Alguns esperavam que o cão fosse uma fonte contínua de alegria e tranquilidade, mas se depararam com comportamentos indesejados, como latidos excessivos, destruição de móveis e dificuldade em obedecer comandos. Esse descompasso entre expectativa e realidade reforça a importância da adoção responsável e da preparação prévia.

As três dimensões da convivência: benefícios, desafios e envolvimento

A análise realizada pela equipe de Gillet identificou três dimensões principais que definem a experiência de ter um cão: os benefícios, os desafios e o grau de envolvimento do tutor.

  1. Benefícios emocionais, físicos e sociais: A pesquisa mostrou que 31% dos entrevistados relataram melhorias significativas no estilo de vida, especialmente no que diz respeito ao aumento da atividade física. Os passeios diários e as brincadeiras ao ar livre incentivam uma vida mais ativa e saudável. Além disso, o convívio com o animal contribui para o alívio do estresse e para a redução dos sintomas de ansiedade e depressão. Alguns participantes destacaram também os benefícios sociais, como a facilidade de fazer novas amizades durante os passeios com o cão.
  2. Desafios práticos e emocionais: Embora os benefícios sejam amplamente reconhecidos, os desafios não devem ser subestimados. Além das despesas financeiras, muitos tutores enfrentam dificuldades para equilibrar as demandas do trabalho, da família e do cuidado com o cão. Problemas de comportamento, como agressividade e ansiedade de separação, podem impactar negativamente o bem-estar emocional do tutor, gerando sentimentos de culpa e impotência.
  3. Grau de envolvimento: Esse fator se revelou crucial na determinação de como os tutores percebem a experiência de ter um cão. Para alguns, as atividades cotidianas, como os passeios e o treinamento, são fontes de prazer e conexão. Para outros, no entanto, essas mesmas atividades são vistas como obrigações pesadas. A forma como o tutor interpreta essas rotinas pode influenciar diretamente sua satisfação geral com a convivência.

Adoção responsável: expectativas reais, experiências positivas

Diante dessa complexidade, os pesquisadores alertam para a necessidade de uma adoção consciente. Como afirma Eniko Kubinyi, chefe do Departamento de Etologia da Elte, “preencher a lacuna entre as expectativas e a realidade pode melhorar a vida tanto dos humanos quanto dos cães”. Isso significa avaliar cuidadosamente o tempo disponível, o orçamento e o estilo de vida antes de adotar um animal.

Por mais que a presença de um cão seja recompensadora, ela exige sacrifícios. Cães não são brinquedos nem soluções mágicas para problemas emocionais. Eles requerem atenção constante, gastos significativos e, muitas vezes, paciência para lidar com imprevistos. No entanto, para aqueles que estão preparados, os benefícios podem ser transformadores. Compartilhar a vida com um ser que demonstra afeto genuíno e lealdade incondicional é uma experiência que muitos descrevem como única.

A chave para o equilíbrio: honestidade e preparação

A mensagem central do estudo é clara: quanto mais informados os futuros tutores estiverem sobre o que realmente significa ter um cão, menores serão as chances de frustração. Esse equilíbrio entre expectativas e realidade é essencial para garantir uma convivência feliz e duradoura.

Como conclui Kubinyi, “não se trata apenas de escolher um cão, mas de entender que essa é uma decisão de longo prazo, um compromisso que exige dedicação e cuidado constante”. Aqueles que abraçam essa responsabilidade de forma consciente tendem a construir uma relação rica e gratificante – uma verdadeira parceria entre duas espécies que, ao longo dos séculos, aprenderam a compartilhar muito mais do que o espaço doméstico.

Em última análise, ter um cão é mais do que uma escolha emocional: é uma jornada de aprendizados, desafios e, sobretudo, amor genuíno.

SONIA PEÇANHA

É veterinária no Rio de Janeiro.

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Sonia Peçanha


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