18/05/2024 - Edição 540

True Colors

Strike a pose: a história oculta por trás da música

Publicado em 06/05/2016 12:00 - Guilherme Cavalcante

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Supermodelos, yuppies, consumo desenfreado, inflação em alta, calças de cós alto e… Madonna. Parece que foi ontem que estávamos nos anos 90, uma das décadas artisticamente mais fantásticas desde os primórdios de todo o esquema de cultura de massa pós-guerra que norteou os caminhos de uma da indústria cultural.

Foi nesse mesmo cenário que a cantora Madonna lançou um de seus maiores sucessos, a música Vogue, que basicamente celebra essa indústria exaltando, também, a forma como ela se materializava nas audiências. Todo o conjunto da obra, que inclui música, videoclipe e turnê, funcionou como um marco na carreira da cantora por posicioná-la publicamente, numa época ainda muito moralista, a favor de direitos LGBT, sobretudo da comunidade gay.

Mas o que nem todo mundo sabe é que a inspiração para tudo isso vem das periferias – especificamente do Harlem, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Naquela região, jovens homossexuais e transexuais recorreram às poses de modelos que estampavam a capa da revista Vogue para, a partir daí, criarem um movimento urbano de periferia, uma dança que carrega o nome da publicação.

Balls

O locus das danças eram os 'Ballroom Comunity', ou simplesmente 'balls', os bailes comunitários em que gays do Harlem formaram uma espécie de rede de fraternidade, um gueto que funcionava como um lar e espaço de existência para latinos, negros, queers e toda sorte de marginalizados, que desafiavam a heteronormatividade em suas performances cheias de movimento.

Madonna observou bem todo esse fenômeno, documentado de forma etnográfica em 'Paris is Burning' (assista acima, legendado). Foi natural, portanto, procurar os dançarinos proeminentes e explorar as habilidades artísticas deles em seu novo trabalho, a música 'Vogue', aquela mesmo que todo mundo sabe da letra à coreografia, um dos maiores sucessos da artista, lançado em 1990.

Do Harlen para o mundo

Ao todo, sete dançarinos (seis gays e um heterossexual) do Harlem foram recrutados a integrar o crew de Madonna. E a partir daí, criaram um dos videoclipes mais emblemáticos e marcantes da carreira da cantora. Dirigido por David Fincher, o vídeo foi multipremiado e trazia a coreografia desenvolvida por Jose e Luis Xtravaganza, autênticos membros da "House Ball" do Harlem.

Uma das adaptações, inclusive, traz uma versão da coreografia representada em um ambiente absolutista e aristocrático, em que Madonna interpreta uma proposta de Maria Antonieta, rainha da frança tida como um ícone da moda e precursora de um estilo fashionista.

Strike a Pose!

Agora, os bastidores da turnê revolucionária de Madonna e toda a parceria entre seus músicos e, sobretudo, os dançarinos, é tema do documentário 'Strike a Pose', que estreia nos cinemas no próximo dia 26.

Basicamente, o filme contará os bastidores da turnê nacional em que os 'sete do Harlem' compartilham, 25 anos depois, as experiências que tiveram junto à Madonna e as consequências que colheram a partir disso – eles se tornaram símbolos de orgulho e inspiraram pessoas no mundo inteiro.

Muito dificilmente vamos encontrar uma sala que exiba 'Strike' a Pose em Campo Grande. A certeza, contudo, é de que pelos depoimentos dos dançarinos que participam da filmagem, como vemos no trailer, encontraremos muito mais do que jovens de periferia deslumbrados com a fama e sucesso, mas com a responsabilidade de serem representantes de uma mensagem de amor e igualdade.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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