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AUAU MIAU
Mais do que carinho, o comportamento pode indicar vínculo, estresse ou até distúrbios
Publicado em 20/05/2025 1:55 - Sônia Peçanha
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Você chega em casa e mal tem tempo de tirar os sapatos antes de ser recebido por uma série de lambidas entusiasmadas do seu cachorro. A cena parece carregada de afeto — e muitas vezes é mesmo. Mas, por trás desse comportamento aparentemente inocente, pode haver muito mais do que uma simples demonstração de carinho: trata-se de um gesto ancestral, multifacetado e que pode sinalizar desde segurança emocional até sinais de ansiedade e estresse.
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A origem do hábito de lamber remonta à ancestralidade dos cães. Quando ainda viviam em bandos selvagens, os lobos — ancestrais diretos dos cães domésticos — usavam a lambida como forma de comunicação. Um estudo conduzido por pesquisadores da University of Alberta e publicado no Canadian Journal of Zoology (2005) demonstrou que filhotes de lobo lambem o rosto dos adultos como estímulo à regurgitação de alimentos após a caça. Embora esse comportamento não tenha mais função alimentar no contexto doméstico, ele foi mantido como traço comportamental instintivo ao longo da evolução.
Com o tempo, essa prática se transformou em uma poderosa ferramenta de interação social. Pesquisadores da revista Applied Animal Behaviour Science (2017) observaram que cães tendem a lamber mais seus tutores em momentos de proximidade emocional — como durante carícias ou após reencontros. O estudo também mostrou que, diante de estímulos desconfortáveis, como segurar uma pata ou um leve incômodo físico, os cães recorriam às lambidas como forma de desviar a tensão e manter a harmonia na relação com o humano.
Nem sempre é positivo: o alerta por trás da lambida
Apesar do forte apelo afetivo, nem toda lambida é sinônimo de carinho. Pesquisadores do Journal of Veterinary Behavior (2020) analisaram relatos de mais de mil tutores e constataram que o comportamento pode funcionar também como um sinal de alerta. Em muitos casos, lambidas frequentes ou direcionadas ao próprio corpo indicam ansiedade, desconforto ou frustração.
O mesmo estudo identificou que tutores mais atentos ao contexto emocional dos pets — como mudanças no ambiente, chegada de visitas ou situações estressantes — conseguiam reconhecer com mais clareza os sinais não verbais emitidos pelos animais. O que parece uma manifestação inofensiva de afeto pode, na verdade, ser uma tentativa do cão de regular o próprio estresse, comunicando que algo não vai bem.
Quando a lambida se torna um problema
Em quadros mais intensos, o comportamento pode ultrapassar os limites do aceitável e se configurar como um distúrbio. Cães que lambem compulsivamente objetos, partes do corpo ou até os próprios tutores de forma repetitiva podem estar apresentando sintomas de ansiedade crônica ou transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
Esses sinais não devem ser ignorados. A intervenção precoce é essencial para evitar o agravamento do quadro e preservar a qualidade de vida do animal. Segundo especialistas em comportamento animal, como a etóloga Temple Grandin, autora de Animals Make Us Human (2009), comportamentos compulsivos surgem quando os estímulos naturais de exploração, segurança e vínculo não são plenamente satisfeitos. Para ela, “um cão precisa de previsibilidade e estímulo para manter-se equilibrado emocionalmente”.
Como lidar: atenção, contexto e cuidado
A boa notícia é que, na maioria dos casos, as lambidas fazem parte do repertório saudável de comunicação dos cães. O segredo está na observação: entender o contexto em que o gesto ocorre, a frequência com que aparece e como o pet reage a mudanças ambientais.
Se as lambidas vierem acompanhadas de agitação excessiva, vocalizações fora do comum ou alterações no apetite e sono, pode ser o momento de buscar a orientação de um médico-veterinário ou profissional de comportamento animal. Com orientação adequada, é possível identificar o que está por trás do comportamento e usar estratégias de enriquecimento ambiental, treinamento positivo e rotina estruturada para redirecionar o hábito de forma gentil e eficaz.
Em resumo, as lambidas do seu cão podem sim ser uma expressão de afeto — mas também podem ser um pedido de ajuda. Saber ouvir esse “idioma canino” é parte fundamental do compromisso de cuidar, proteger e compreender os animais que fazem parte da nossa vida.
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SONIA PEÇANHA
É veterinária no Rio de Janeiro.
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