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O que está por trás do aumento de casos e o papel (ou não) da ração nisso
Publicado em 10/12/2024 10:48 - Sônia Peçanha
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Nas últimas décadas, os casos de câncer em cães e gatos têm chamado cada vez mais atenção. Estudos internacionais apontam que o câncer é uma das principais causas de morte em cães, especialmente por meio das neoplasias — o nome técnico para qualquer crescimento anormal de células, que pode ser benigno ou maligno (quando se trata de câncer propriamente dito).
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Nesse mesmo período, as rações industriais se popularizaram como a principal forma de alimentação de pets. Diante desse cenário, muita gente fez uma conexão rápida: se os dois fenômenos aconteceram juntos, talvez um seja a causa do outro. Mas será que é isso mesmo?
Essa associação já ganhou força em várias rodas de conversa entre tutores de pets, mas ela não se sustenta com base nas evidências científicas disponíveis. É verdade que algumas rações de baixa qualidade podem conter compostos potencialmente cancerígenos, mas isso não justifica, por si só, o aumento no número de casos de câncer.
Então, por que o câncer parece mais comum entre cães e gatos hoje do que era no passado? A resposta está ligada à longevidade.
Pets estão vivendo mais — e isso aumenta o risco de câncer
Nas últimas décadas, cães e gatos têm vivido mais graças a uma combinação de fatores: melhores cuidados veterinários, alimentação balanceada e maior atenção com a higiene e o bem-estar dos animais. Se os nossos pets vivem mais, também estão mais sujeitos a doenças que afetam populações mais velhas — e o câncer é uma delas.
No passado, muitos animais não chegavam à velhice, pois morriam de doenças infecciosas, parasitas ou acidentes. Hoje, com uma vida mais longa e saudável, eles têm mais tempo para desenvolver doenças como o câncer. É o mesmo motivo pelo qual a incidência de câncer em humanos também aumenta conforme a expectativa de vida cresce.
Mas há outra questão importante: nossos pets não tiveram “tempo” para se adaptar a essa nova realidade.
Evolução não acompanha a longevidade dos pets
O câncer surge por meio de alterações no DNA das células, que passam a se multiplicar de forma descontrolada. Quanto mais tempo de vida, mais essas alterações podem se acumular, especialmente porque erros de replicação do DNA ocorrem naturalmente quando as células se dividem.
Espécies que vivem por muito tempo, como elefantes e capivaras, desenvolveram ao longo de milhares de anos mecanismos de reparação genética mais eficientes. No entanto, com cães e gatos (e também com humanos), o aumento da expectativa de vida ocorreu de forma muito rápida em termos evolutivos. Isso significa que nossos pets ainda não tiveram “tempo” suficiente para desenvolver as defesas genéticas necessárias para lidar com a longevidade.
Para se ter uma ideia, um estudo publicado na revista Scientific Reports em 2022 simulou matematicamente quanto tempo levaria para os cães adquirirem essas adaptações evolutivas. A resposta? Cerca de mil anos! Ou seja, o aumento da longevidade foi rápido demais para que houvesse uma adaptação genética capaz de “blindar” os cães contra o câncer.
Além disso, o câncer tem baixa “pressão evolutiva”. Como a doença normalmente se manifesta após o período reprodutivo, não há um estímulo biológico para que os animais mais “resistentes” transmitam seus genes com mais frequência.
Podemos prevenir o câncer em pets?
A má notícia é que não dá para eliminar completamente o risco de câncer, nem para cães, nem para gatos e nem para nós, humanos. A boa notícia é que podemos reduzir a exposição a fatores de risco e melhorar as chances de diagnóstico precoce.
Os fatores que podemos controlar incluem:
Obesidade: O excesso de peso está relacionado a vários tipos de câncer.
Sedentarismo: Assim como em humanos, a atividade física é essencial.
Exposição solar excessiva: Raças de pele clara e animais de pelo curto são mais suscetíveis a tumores de pele.
Fumo passivo: Sim, a fumaça do cigarro afeta os pets também.
Aplicações subcutâneas em gatos: Algumas injeções podem provocar reações inflamatórias que, a longo prazo, têm relação com tumores em gatos.
Uso de tratamentos hormonais: O uso de injeções para evitar o cio está associado ao aumento do risco de câncer.
Além disso, o momento certo para castrar o animal também pode influenciar na predisposição a determinados tipos de câncer. A decisão de castrar deve sempre ser feita sob orientação de um veterinário, já que ela pode aumentar ou diminuir o risco de doenças, dependendo do contexto.
Outro fator que precisa de atenção é a genética. Algumas raças de cães e gatos têm predisposição maior para certos tipos de câncer. Por isso, criadores responsáveis devem rastrear a linhagem de seus animais e evitar a reprodução de indivíduos com propensão a doenças genéticas.
Diagnóstico precoce faz toda a diferença
Se não podemos evitar completamente o câncer, a melhor estratégia é detectá-lo cedo. O diagnóstico precoce aumenta muito as chances de sucesso no tratamento. Para isso, é fundamental levar seu pet ao veterinário regularmente e ficar de olho em qualquer “caroço”, “bolinha” ou “verruga” que apareça no corpo do animal.
Muitas vezes, tumores inicialmente pequenos e aparentemente inofensivos acabam se tornando problemas maiores por negligência. Quando o tutor finalmente busca ajuda, o “caroço” já aumentou, a “verruga” começou a sangrar ou o “nódulo” se espalhou pelo corpo.
Hoje, os veterinários têm à disposição diversas ferramentas para o diagnóstico de câncer, como ultrassonografia, tomografia, radiografia e exames de laboratório. Essas técnicas ajudam a determinar o tipo de tumor, o estágio da doença e o grau de acometimento no organismo do animal.
Avanços no tratamento de câncer em pets
Assim como na medicina humana, o tratamento de câncer em pets avançou muito. Atualmente, contamos com oncologistas veterinários e diversas opções de tratamento, como:
Cirurgias oncológicas: As técnicas estão cada vez mais precisas e menos invasivas.
Quimioterapia: Utilizada para combater células cancerígenas, ela costuma ser mais bem tolerada por cães e gatos do que por humanos.
Eletroquimioterapia: Uma combinação de quimioterapia com pulsos elétricos, que facilitam a entrada do medicamento na célula tumoral.
Radioterapia veterinária: Recentemente, foi inaugurado em São Paulo o primeiro centro de radioterapia veterinária do Brasil, abrindo novas possibilidades de tratamento para nossos pets.
Além disso, os cuidados paliativos e o controle de dor também têm avançado, trazendo mais conforto para os animais em tratamento oncológico.
O que podemos aprender com isso?
O aumento no número de casos de câncer em pets não tem relação direta com o consumo de ração. Na verdade, o que está por trás dessa tendência é o aumento na longevidade dos nossos animais de estimação.
Se antes muitos cães e gatos não chegavam à velhice, hoje, graças a melhores condições de saúde, eles vivem mais e, por isso, estão mais suscetíveis a doenças típicas de idades avançadas, como o câncer.
Embora não seja possível prevenir completamente a doença, tutores podem reduzir os riscos com medidas simples, como boa alimentação, controle de peso, castração no momento adequado e a realização de exames regulares. E, caso o câncer seja diagnosticado, há cada vez mais tratamentos disponíveis para aumentar a qualidade e a expectativa de vida dos nossos companheiros.
Cuidar da saúde de um pet é um ato de amor e responsabilidade. E, embora o câncer seja uma preocupação crescente, o avanço da medicina veterinária nos permite enfrentar a doença com mais conhecimento, recursos e esperança.
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SONIA PEÇANHA
É veterinária no Rio de Janeiro
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