21/07/2024 - Edição 550

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Humanização de pets é tendência em alta no Brasil

Psicanalistas apontam problemas, mas, em um mundo cada vez mais violento, amor incondicional fala por si

Publicado em 08/10/2023 11:23 - Vinicius Pereira (DW), Simone Machado (BBC) – Edição Semana On

Divulgação Pixabay

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De manhã, ela coloca sua mochila e vai à creche. Na volta, traz um recado das professoras para a “mãe” contando com quem brincou, o que comeu e como se comportou durante todo o dia. A descrição acima poderia ser do dia a dia de qualquer criança em uma escola de educação infantil, mas é de Luna, uma cachorra.

A infantilização da pequena Luna, exposta pela frequência na “escola”, é uma das faces mais visíveis de uma humanização excessiva pela qual os animais passam e que se aprofunda nos dias atuais. O tratamento que Luna recebe faz parte de um fenômeno comportamental referente à tentativa de prover uma condição humana a um animal de estimação.

Luna é a cachorra da médica Renata Silva, 26. Com o dia a dia corrido no hospital, faltava tempo para que Renata pudesse dar a atenção que ela julga necessária para o animal. Por isso, a médica optou por inscrever a cachorra, que adotou há seis meses, em uma espécie de creche, onde Luna segue uma rotina quase humana.

“A rotina é parecida com a nossa. Acordamos um pouco mais cedo e ela vai para a creche nas terças e quintas com uma van, que pega os cachorros da mesma região, às 8h, e só retorna entre 18h ou 19h”, conta. A comida de Luna é enviada na mochila e será devorada após horas de recreação com outros cachorros e antes da soneca da tarde.

Ao todo por mês, a médica gasta cerca de R$ 800 em mensalidade da creche, além dos R$ 49 do plano de saúde veterinário e de R$ 200 com alimentação.

“Eu não tenho filhos, mas a projeção de sentimentos é como se fosse uma filha mesmo. Todo cuidado que eu tenho, de diversão, passeio, veterinário, tudo mais, são coisas que eu faria pela minha filha. Eu acredito que, quando eu tiver uma filha de verdade, eu farei isso também a ela”, disse a médica, que às vezes leva Lua a eventos sociais, como bares e encontros das amigas.

Mais cachorros, menos filhos

Segundo a psicóloga Laís Milani, do Instituto Nacional de Ações e Terapias Assistidas por Animais (Inataa), o ato de humanizar um pet é intrínseco à sociedade, já que os animais de companhia estão em um contexto social dos humanos e, dessa forma, acompanham os tutores e adquirem hábitos urbanos, por exemplo.

Para Milani, o processo de humanização vem se tornando mais comum na sociedade devido a uma soma de fatores do mundo moderno. “Temos uma mudança social, com pessoas cada vez mais afastadas das outras, principalmente com o advento da internet, onde falta o contato, e também optando por adiar a maternidade e manter relacionamentos à distância. Assim, as pessoas buscam nos cães, por exemplo, essa proximidade. Os cachorros são muito adaptáveis e, por isso, acabamos colocando-os nessa posição de quase filhos”, disse.

A opinião é compartilhada por Christian Dunker, psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (USP). De acordo com o especialista, “pais e mães de pets” surgem em meio a um fenômeno global no qual a sociedade reduz o número de filhos biológicos e os bichinhos passam a fazer parte da família.

De cachorro de rua a influencer 

Os números mostram essa tendência. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o número de animais domésticos vem crescendo no Brasil, passando de 132,4 milhões de animais em 2013 para 144 milhões no ano passado.

Esse não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. A tendência dos pais de pet é mundial. Segundo a consultoria Nielsen, em 2016, 95% dos proprietários de animais de estimação os consideravam como parte da família nos EUA. Já no Brasil, de acordo com uma pesquisa feita pela empresa de serviços para cães DogHero, em parceria com o portal Zap Imóveis, 78% dos entrevistados consideram o animal de estimação como um filho.

Sociedade em transformação

Ao mesmo tempo em que os animais passam a fazer parte da família e em maior número, há uma queda no número de filhos dos casais. Segundo o IBGE, enquanto que na década de 1970 a taxa de fecundidade era de seis filhos por mulher, atualmente ela gira em torno de 1,6 a 1,8 filho por mulher.

Para Marcio Mitsuo Minamiguchi, gerente de projeções e estimativas da população do IBGE, essa queda no número de filhos é resultado de mudanças estruturais e econômicas pelas quais a sociedade passou.

“O Brasil de 50 anos atrás passava por um forte período de urbanização, com uma economia baseada na agricultura de subsistência e que passa a ser focada em uma sociedade urbana, no setor de serviços. Isso traz mudanças bastante significativas no próprio comportamento reprodutivo da sociedade, que começa a reduzir o número de filhos”, diz.

Minamiguchi também ressalta que houve uma mudança em relação os custos financeiros da criação de filhos. “Atualmente eles são dependentes dos pais por mais tempo, e, também, todo investimento em filhos acaba sendo maior do que no passado”, disse. Há ainda outros fatores, como a emancipação feminina, o maior acesso a meios contraceptivos, iniciação do chamado planejamento familiar, que influenciaram na queda da natalidade, de acordo com o pesquisador.

Com menos filhos, há mais tempo e recursos disponíveis para os companheiros animais. “Quem mais se beneficia da humanização é o mercado pet, que cria mais serviços e produtos que atendam essa demanda”, diz Laís Milani. Não à toa, o Instituto Pet Brasil estima que o setor de produtos e serviços para animais de estimação tenha faturado R$ 58,9 bilhões no ano passado – alta de 14% em relação a 2021.

Os riscos da humanização excessiva

Os pets são ótimos companheiros e sempre estiveram ao lado dos humanos no desenvolvimento da sociedade. Porém, a humanização, quando excessiva, pode trazer problemas não só aos bichos, mas também aos donos.

De acordo com Dunker, a felicidade requer uma certa diversidade de contatos humanos que, quando evitados, podem fazer com que a pessoa perca a possibilidade de se relacionar de forma efetiva com outro ser. Isso, segundo o psicanalista, deságua em um amor narcisista, onde ninguém é suficientemente bom para prover qualquer desejo.

“O amor narcisista não é, necessariamente, uma patologia já que todo amor tem que ser um pouco assim. A questão começa quando a humanização de um pet acaba substituindo o amor de objeto, o amor por alguém mais próximo”, pontua. Por isso, segundo Dunker, colocar um animal no lugar de um relacionamento humano pode demonstrar uma necessidade de proteção e um medo da frustração que qualquer amor pode causar.

“Os animais não crescem, não nos abandonam, não reclamam. Eles oferecem uma série de facilidades que vão favorecendo um certo narcisismo humano, que é a busca por um amor dadivoso, de alguém que está sempre disponível, sempre querendo carinho, sempre disponível. Isso é um amor de ‘baixa qualidade’ e pode trazer problemas de expectativa de como cada um ama e quer ser amado”, acrescenta Dunker.

De acordo com o professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, Andrigo Barboza de Nardi, o excesso dessa humanização dos pets pode ser prejudicial também ao animal. “Eu defendo que os pets, cães e gatos, sejam muito bem tratados. Mas existem exageros em algumas situações, tentando transformar o animal em um ser humano. Essa tentativa de humanização pode, inclusive, comprometer o próprio comportamento do animal, seus desejos, vontades, sua forma de se portar e, assim, sua saúde”, disse.

Segundo Nardi, profissionais de saúde animal já observam as consequências da privação do comportamento natural de um animal. “Temos observado alterações e distúrbios de comportamento se manifestando no caso de doenças, animais mais agressivos do que naturalmente, ou mesmo animais que apresentam coceira o tempo todo, problemas cutâneos, que claramente estão ligados ao stress gerado por ele fazer tudo o que o tutor faz, privando-o seu comportamento natural”, afirma.

Para o sociólogo e psicanalista Wlaumir Souza, o fenômeno conhecido como pet parenting (ou parentalidade de animais) está se tornando cada vez mais comum devido à dedicação das mulheres à carreira profissional e à transformação no modelo familiar que a sociedade vem passando.

“A mudança de filhos por pets está em consonância com o momento atual em que vivemos. Um filho demanda muito tempo e esforço, o que pode acarretar certas dificuldades no avanço profissional da mulher, haja vista que muitas delas saem do mercado de trabalho para cuidar dos filhos e depois esse retorno ainda é repleto de desafios. Muitas vezes elas não conseguem voltar a ele”, diz.

Outros fatores que, para o sociólogo, têm feito muitos casais optarem por filhos pets ao invés de humanos está relacionado à questão econômica e insegurança de se criar um filho no mundo atual.

“O Brasil vive uma crise econômica nos últimos oito anos de forma continuada e apesar de crises não serem novidade no país, a intensidade dela vem causando um certo receio nas famílias. A insegurança econômica acarreta um medo de trazer um ser ao mundo”, acrescenta.

Já do ponto de vista psicológico, Souza diz que os animais não questionam e são fiéis aos seus donos e, consequentemente, são mais fáceis de conviver. O que também explicaria a preferência de muitas pessoas, segundo ele.

“Um pet é submisso e atende às regras, mesmo no caso dos gatos, que são mais individualistas. Assim não há o que se preocupar com o destino e liberdade deles. A fidelidade canina, por exemplo, mostra porque o Brasil prefere o cão, totalmente submisso, uma regra clara do país desde a época da escravatura”, finaliza.

Amos Incondicional

Há 15 anos, quando se conheceram, a empresária Patrícia Camargo, de 38 anos, e o marido, o dentista Mateus Santana, também de 38 anos, pensavam em formar uma família considerada tradicional – casar e ter filhos. Entretanto, os dois casaram e o plano de ter crianças em casa começou a ser adiado.

Com o passar dos anos, o casal conta que percebeu que incluir filhos no relacionamento se tratava muito mais de uma cobrança da sociedade do que de uma vontade real deles. As responsabilidades de criar e educar uma criança foram alguns dos fatores levados em consideração na hora de tomar a decisão.

“A gente se sentia desconfortável com esse tipo de cobrança, mas não tínhamos parado para analisar se realmente queríamos filhos. Foi quando percebi que eu não tinha essa vontade dentro de mim e comecei a conversar com o Mateus sobre isso. E, com o tempo, fomos amadurecendo essa questão de não termos filhos até que tomamos essa decisão”, recorda a empresária.

Na época da decisão, há pouco mais de 7 anos, Patrícia tinha uma loja voltada para gestantes e lactantes e convivia diariamente com a rotina de mães e futuras mamães. A escolha de não querer ter um bebê veio acompanhada de alguns julgamentos.

“Nossas famílias e amigos entenderam a nossa vontade e pararam de nos cobrar um filho. Mas já ouvi que estou sendo egoísta, e tudo bem, isso é uma opinião da pessoa, mas não minha”, acrescenta.

Apaixonados por animais desde pequenos, Patrícia e Mateus decidiram, então, que teriam um animalzinho para deixar a casa mais alegre. Foi quando Armandinho chegou na vida do casal, há 9 anos. Dois anos depois, foi a vez de Nina entrar para a família.

“Não é uma substituição, são escolhas. E eu trato eles como meus filhos, eu cuido, zelo e tenho responsabilidade por eles até o fim da vida”, diz Patrícia.

Armandinho e Nina estão com o casal em todos os momentos. Viagens, idas a restaurantes e até mesmo em compras do dia a dia. Para isso, o casal sempre opta por frequentar lugares e estabelecimentos pet friendly – expressão em inglês adotada no Brasil para informar que um estabelecimento é “amigo dos animais domésticos”, ou seja, que cachorros e gatos são bem-vindos.

“Sempre gostamos muito de viajar e, quando os cachorrinhos chegaram nas nossas vidas, eles entraram na nossa rotina. A gente só viaja para lugares que aceitam eles, não me lembro quando foi a última vez que viajamos sozinhos. Não conseguimos deixá-los e eles sempre estão com a gente, viajamos em família completa”, relata.

Além das viagens com a família, os animais também são bastante mimados em casa. A dupla de quatro patas fica solta pela residência e pode dormir na cama com o casal ou escolher ficar na própria caminha. Além disso, roupinhas não faltam no guarda-roupa deles, que possuem dezenas de looks para o frio e calor.

Todos os anos, Armandinho e Nina ganham festa de aniversário, e, claro, presentes em datas comemorativas como Natal. Os bichinhos também têm presença garantida nos ensaios fotográficos da família.

“A gente trata com muito respeito, amor e carinho, afinal fomos nós que optamos por cuidar da vida deles, por isso buscamos fazer isso da melhor forma possível. A gente comemora o aniversário deles, para lembrar do privilégio que é estar mais um ano com eles. São membros da família de fato. Para a gente, é muito natural”, acrescenta Patrícia.

Situação semelhante é vivida pela empreendedora Carolina de Arruda Botelho Mattar, de 37 anos. Casada há 9 anos, ela e o marido, Eduardo, decidiram não ter filhos humanos. A decisão foi tomada no início do relacionamento.

“Desde o início do namoro, o Eduardo sempre disse que não queria ter filhos. Eu queria, mas com o tempo fui trabalhando a minha mente e entendi que não precisa ter filhos para ser feliz, que isso é muito mais uma imposição da sociedade”, diz Carol.

‘Não é uma substituição, são escolhas. E eu trato como meus filhos, eu cuido, zelo e tenho responsabilidade por eles até o fim da vida’, diz Patrícia

A empreendedora conta que desde criança sonhou em ter cachorro, mas que seus pais nunca permitiram porque moravam em apartamento. O cenário mudou há pouco mais de seis anos com a chegada da Cacau e Dindin, dois Fox Paulistinha.

“O fato de não ter filhos biológicos surpreende algumas pessoas porque ainda é uma questão cultural do Brasil, uma expectativa de família. Mas como sempre deixamos muito claro que nossa vontade era de ter filhos pets, nossos familiares e amigos nunca nos julgaram, mas algumas pessoas ficaram surpresas”, conta Carolina.

Chamados de filhos pelo casal, os irmãos paulistinhas domem na cama da família, comemoram o aniversário com festinha e são bastante mimados. Eles possuem um adestrador que todos os dias os levam na praça para passear e brincar com outros cachorros.

“Também tomamos cuidado de mantê-los em contato com o mundo biológico deles, por enriquecimento ambiental, como com comedouros interativos. Quando vamos para a fazenda, eles sempre vão junto, gostam de brincar na piscina e se divertem bastante correndo por tudo. Como são irmãos, costumamos fazer uma comemoração em família para que a gente possa celebrar a vida deles”, acrescenta a empreendedora.

Brasil é o 3º do mundo em animais de estimação

A última pesquisa anual da Comissão de Animais de Companhia (Comac) do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Saúde Animal (Sindan), divulgada no ano passado, mostra que o Brasil é o terceiro país do mundo com mais animais de estimação (cães e gatos).

Essa população é de 85,2 milhões e registrou crescimento de 4,5% em relação a 2020. O país fica atrás apenas de Estados Unidos, com cerca de 150 milhões de animais de estimação e da China, com 141 milhões.

O levantamento aponta ainda que entre os lares com cachorros como únicos animais de estimação, 21% são de casais sem filhos, 9% de pessoas morando sozinhas e 65% de casas com filhos. Outros 5% apresentam outras configurações.

Das residências com gatos como únicos animais de estimação, 25% são de casais sem filhos, 17% de casas com pessoas morando sozinhas e 55% de casas com filhos. Outros 3% apresentam outras configurações.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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