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Artigo da Semana
O bolsonarismo compreendeu que, uma vez perdido o poder institucional, resta disputar o tempo mental da sociedade
Publicado em 09/02/2026 1:45 - Mauricio Alfredo
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Desde que Jair Bolsonaro passou a cumprir pena sob custódia da Polícia Federal e, posteriormente, na Papudinha (DF), sua prisão deixou de operar como um ato de silenciamento político para se converter em um evento comunicacional contínuo. Mais do que um desdobramento jurídico da condenação por tentativa de golpe de Estado, o encarceramento passou a ser explorado pelo ex-presidente e por seu “clã”, formado por filhos e esposa, como matéria-prima narrativa, organizada segundo a lógica da economia da atenção. A cela, o corpo fragilizado e a rotina carcerária não aparecem como sinais de encerramento de ciclo, mas como novos dispositivos de visibilidade, cuidadosamente mobilizados para manter Bolsonaro no centro do debate público, mesmo privado do poder institucional.
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O termo economia da atenção foi utilizado pela primeira vez em 1971 pelo economista, psicólogo e cientista político Herbert Alexander Simon, ao explicar como a atenção pode ser capitalizada e tratada como uma mercadoria (2021). Na era da informação e da tecnologia, a atenção humana se tornou um recurso escasso e valioso, portanto, passou a ser mercantilizada.
Diante de um fluxo ininterrupto de estímulos que soterra nossa capacidade de absorção, a atenção consolidou-se como o novo ‘ouro’ da era digital. Nesse cenário de déficit cognitivo crônico, o desafio central das narrativas já não é informar, mas capturar o olhar em meio ao ruído, transformando a interrupção do fluxo cotidiano em um fim em si mesmo. Sob essa lógica, o sucesso de uma mensagem não reside necessariamente em sua veracidade, mas em sua potência de engajamento: o espetáculo garante o clique, o clique sustenta a influência e o tempo de tela do usuário torna-se a moeda definitiva de poder e sobrevivência política.
Na era da atenção, a vida privada do líder é transformada em um espetáculo de reality show. A produção contínua de fatos, declarações provocativas, conflitos institucionais, gestos simbólicos de vitimização ou desafios calculados às decisões judiciais, funciona como mecanismo de permanência no debate público.
Esse comportamento não é aleatório. Ele explora um traço estrutural do ecossistema informacional contemporâneo: a mídia que se obriga a reagir ao ruído para não perder sua própria audiência.
Cada nova controvérsia fortalece sua base, engaja as redes sociais, pressiona adversários a responder e desloca o foco de sua responsabilidade penal (tentativa de golpe de Estado), para o espetáculo do escândalo permanente. Na economia da atenção, quem controla o tema do dia controla o poder. Ao pautar o país com “quedas da cama”, refeições, ar-condicionado, smart TV, assistência religiosa entre outros elementos do cotidiano carcerário, o clã retira o foco da “realidade jurídica”, tentando cansar a opinião pública pelo excesso de estímulos superficiais.
Assim, mesmo juridicamente enfraquecido, Bolsonaro mantém relevância simbólica ao transformar sua própria punição em conteúdo político. Desta forma, a estratégia do “clã Bolsonaro” em gerar conteúdos com fortes emoções, irrigados de medo, indignação e pena, cria uma narrativa de urgência que força o público e o Judiciário a desviar o olhar do processo legal para o boletim médico. A tática é clara: ocupar o espaço mental do eleitorado para evitar a erosão do capital político e o papel de vítima vira estratégia deliberada: o próprio corpo serve de palanque, a enfermidade torna-se justificativa e a medicina, quando instrumentalizada, transforma-se em ferramenta de pressão sobre o sistema.
Há, portanto, uma inversão perversa: a sanção institucional, que deveria reduzir sua capacidade de influência, converte-se em combustível narrativo. A atenção capturada semanalmente não visa convencer novos públicos, mas preservar a coesão afetiva de seus apoiadores e manter aberto o canal de disputa do imaginário político.
Essa dinâmica não se limita ao espaço digital ou ao circuito midiático tradicional. A passeata liderada por Nikolas Ferreira em defesa de Bolsonaro evidencia como a economia da atenção opera pela conversão do engajamento virtual em presença física, transformando a mobilização de rua em evento pensado para a reprodutibilidade digital. Ao levar grupos de apoiadores às ruas em nome do líder encarcerado, Nikolas atua como operador intermediário desse ecossistema atencional, traduzindo o ruído carcerário em ato público e convertendo a ausência física de Bolsonaro em uma presença hiperbólica nas redes. A manifestação não expressa força institucional nem capacidade efetiva de decisão política, mas cumpre uma função simbólica central: manter o ex-presidente visível, reiterar a narrativa da perseguição e reforçar vínculos afetivos entre líder e base, assegurando que a comunidade política permaneça mobilizada por afetos, independentemente de qualquer projeto de governo.
Não se trata de resistência política, mas de sobrevivência atencional: quando o poder se perde, resta disputar o olhar. Uma vez esvaziada a capacidade de decidir e governar, a estratégia desloca-se para a ocupação permanente do espaço mental da sociedade, onde visibilidade, engajamento emocional e presença contínua passam a substituir programas, projetos e mediações institucionais.
Trata-se, portanto, menos de comunicação e mais de ocupação do espaço público, uma estratégia típica de lideranças autoritárias em declínio, que sobrevivem não pela força institucional, mas pela capacidade de monopolizar o olhar coletivo e impor sua presença contínua no debate público.
No limite, o que o caso Bolsonaro revela não é apenas a persistência de um líder em declínio, mas a transformação da política em um regime de presença compulsória. Na economia da atenção, desaparecer equivale a morrer simbolicamente. Por isso, a produção incessante de fatos, dramas e controvérsias não é excesso nem descontrole: é método.
O “clã Bolsonaro” compreendeu que, uma vez perdido o poder institucional, resta disputar o tempo mental da sociedade. A política deixa de ser exercida pela capacidade de decidir e passa a ser exercida pela capacidade de interromper o noticiário, bem como o debate público e a rotina informacional. Não se trata de convencer, mas de ocupar; não de governar, mas de permanecer.
Nesse sentido, a prisão não encerra o bolsonarismo: ela o reconfigura. A sanção jurídica, que deveria produzir silêncio e retração, converte-se em matéria-prima narrativa. O corpo fragilizado, o boletim médico, as queixas cotidianas tornam-se dispositivos de visibilidade, capazes de manter viva uma comunidade política que já não se organiza em torno de projetos, mas de afetos compartilhados.
Enquanto a democracia opera no tempo lento das instituições, o bolsonarismo insiste no tempo acelerado do escândalo. E é nessa assimetria que reside seu último trunfo: transformar a atenção em poder, e o ruído em forma de sobrevivência política.
Mauricio Alfredo – Mestre em Educação, Professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior
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